Falar com as Crianças Sobre Xenofobia

Os incidentes de ódio contra pessoas de ascendência asiática aumentaram desde que a COVID-19 foi mencionada pela primeira vez. Descubra como os pais podem ajudar as crianças a lidar com esta situação.

Thursday, May 28, 2020,
Por Leslie Hsu Oh
Incentive os seus filhos a terem amizades diversificadas – e diga-lhes que em breve vão poder ...

Incentive os seus filhos a terem amizades diversificadas – e diga-lhes que em breve vão poder brincar novamente com os amigos.

Fotografia de fstop123 / Getty Images


Os incidentes são preocupantes – e por vezes assustadores.

Na Califórnia, uma criança agarrou uma mulher singapuriana pelo braço e disse: “Regresse para o seu país, foi por sua causa que o meu pai morreu.” Em Nova Jersey, um grupo de jovens perseguiu um casal coreano que estava a passear a neta de um ano de idade no seu carrinho de bebé. Os jovens disseram que todos eles estavam estavam infetados com coronavírus. E no Reino Unido, uma menina de oito anos disse à sua melhor amiga, que é chinesa, que a mãe já não a deixava brincar com crianças chinesas porque eram “portadoras de vírus”.

Estes tipos de incidentes têm aumentado desde que surgiu o surto de COVID-19 em finais de 2019 em Wuhan, na China. E entre os dias 9 de fevereiro e 7 de março, as notícias sobre incidentes de ódio contra pessoas de ascendência asiática aumentaram 50% pelo mundo inteiro – de acordo com o departamento de Estudos Asiático-Americanos da Universidade Estadual de São Francisco, que fez uma parceria com o Conselho de Planeamento e Política do Pacífico Asiático e com o Chinese for Affirmative Action para lançarem o Stop AAPI Hate (site que recolhe informações sobre incidentes de ódio anti-asiáticos). Desde o dia 19 de março, foram recolhidas quase duas mil denúncias de incidentes. E de acordo com a organização sem fins lucrativos Center for Public Integrity, 30% dos americanos e 60% dos asiático-americanos testemunharam uma pessoa de ascendência asiática a ser responsabilizada pela COVID-19.

Eu sou uma chinesa nascida nos Estados Unidos e sou mãe, e acredito que é fundamental falarmos com os nossos filhos sobre as razões pelas quais é errado culpar os asiáticos pelo coronavírus. As crianças já estão a ser expostas a esta parcialidade. De acordo com Russell Jeung, diretor do departamento de Estudos Asiático-Americanos da Universidade Estadual de São Francisco, durante o período de um mês de recolha de informações do site Stop AAPI Hate, 11% dos incidentes tinham como alvo jovens, e os agressores ou as pessoas que assistiram também eram jovens. Nos casos em que os adultos estavam presentes, apenas 11% intervieram.

“Talvez as crianças não estejam a ser intencionalmente racistas, mas os pontos de vista racistas estão a moldar a forma como veem o mundo”, diz Jeung. “As crianças têm de desaprender isto, e aprender a separar o vírus de um grupo de pessoas.”

Eis alguns conselhos de especialistas sobre como se pode fazer isto.

Não culpabilizar
Erika Lee, diretora do Centro de Pesquisa da História de Imigração da Universidade do Minnesota, define xenofobia como sendo “o medo e o ódio irracional de estrangeiros – e daqueles que são encarados como estrangeiros”. E este medo pode ser facilmente explorado em momentos de muita ansiedade.

“Nós temos como alvo e usamos como bode expiatório os imigrantes, a quem chamamos de ‘forasteiros’ durante as pandemias, durante os tempos de guerra e paz, em períodos económicos bons ou maus, e em momentos de muita ou pouca imigração”, diz Erika, que também escreveu o livro America for Americans: A History of Xenophobia in the United States.

E algumas doenças foram até rotuladas com o nome da uma localização geográfica ou de uma raça, fator que inspirou diretrizes contra este tipo de práticas pela Organização Mundial de Saúde em 2015. O vírus H1N1 de 1918, que matou cerca de 50 milhões de pessoas em todo o mundo, ficou conhecido por “gripe espanhola”. E um surto de influenza de 2009 foi rotulado de “gripe suína mexicana”. E claro, muitos rotularam a COVID-19 de “vírus da China” ou “vírus de Wuhan”.

“Todas as pandemias precisam de um bode expiatório”, diz Josephine Kim, docente na Universidade de Harvard e membro do corpo docente do Centro de Bem-Estar Emocional para Estudantes Transculturais do Hospital Geral de Massachusetts. “É assim que criamos uma distância entre nós e a doença, para dizer que aquilo não se identifica connosco.”

Examine o seu próprio comportamento
Apesar de grande parte dos pais tentar incutir um comportamento antirracista nos seus filhos, por vezes acontecem incidentes não intencionais – e às vezes até podem partir das próprias crianças. Qual é a primeira coisa que os pais devem levar em consideração? O seu próprio comportamento.

Recentemente, uma antiga colega minha de Harvard enviou-me um vídeo que dizia que o FBI tinha detido um professor. O homem estava acusado de ter sido pago por um laboratório de Wuhan. Quando eu estava a ler as legendas do vídeo, murmurei em frente aos meus filhos: “O coronavírus é um ataque biológico planeado pela China.” Na realidade, o vídeo era uma combinação de reportagens reais muito bem editadas com legendas falsas. Conversei com os meus filhos sobre este embuste e avisei a minha colega. Ela pediu desculpa e disse que, no seu estado de ansiedade, não tinha verificado a fonte e que iria retirar as informações falsas.

Ainda assim, não sabemos quantos pais fizeram a mesma coisa sem perceberem que o vídeo era uma farsa – e passaram inadvertidamente informações erradas aos seus filhos. “Lembre-se de que as crianças estão a observar”, diz Kim. “Pense na forma como reage quando testemunha a discriminação de outras pessoas e nas medidas que são tomadas ou não. E pense nos comentários pontuais feitos casualmente sobre outras pessoas na privacidade do seu lar.”

Mesmo que os pais sejam cuidadosos, as crianças podem estar expostas a comportamentos racistas – mesmo que sejam subtis – através de outros meios de comunicação.

“Tenha conversas abertas e apropriadas para a idade sobre o que as crianças viram ou leram”, diz a pediatra Hanita Oh-Tan, de Fairfax, na Virgínia. “Pergunte como é que aquilo as fez sentir. O que fariam se acontecesse com elas ou com alguém que conhecem? Pergunte se têm alguma questão para colocar."

Renee Tajima-Peña, professora de estudos asiático-americanos na UCLA e produtora do documentário Asian Americans da cadeia norte-americana PBS, diz que “devemos expor as crianças a brinquedos, videojogos, programas de televisão e a filmes que descrevam os asiáticos como sendo protagonistas completamente dimensionais e identificáveis para o espetador”. Os pais também podem assinalar as subtilezas do racismo: por exemplo, se os vilões têm uma pele mais escura ou se uma personagem asiática não consegue falar bem inglês. Basicamente, faça com que as crianças percebam que os asiáticos são pessoas como elas.

Ajude as crianças a discernir entre parcialidade
Quando as crianças são expostas a estereótipos e falsidades relacionadas com a COVID-19, podem surgir perguntas desconfortáveis para os pais. As perguntas mais frequentes podem ser: “Todos os chineses têm coronavírus? Por que é que determinada pessoa não gosta dos chineses?” É importante abordar estas questões de forma honesta.

Primeiro, certifique-se de que as crianças conhecem os factos. Por exemplo, depois de um menino de Nova Jersey ter dito a um colega de turma que ele devia ter coronavírus porque era chinês, o professor do quarto ano fez um debate sobre o que são vírus, como funcionam as vacinas, o que é discriminação, e disse que não existem evidências que demonstrem que a etnia de uma pessoa esteja relacionada com a disseminação de uma doença. Os pais também podem ter estas conversas de forma sincera, e podem usar as notícias para discutir estereótipos e discriminação. “Se as crianças não souberem que isto existe, não sabem o que fazer quando forem confrontadas com um ato de ódio, seja grande ou pequeno”, diz Oh-Tan.

Ensinar os factos às crianças também as ajuda a distinguir entre a verdade e a mentira. Isto pode ser complicado hoje em dia, mas as crianças conseguem perceber se um determinado grupo de pessoas já foi discriminado por algo. “São sinais de alerta para iniciar uma conversa com um adulto”, diz Kim. “Quando [as pessoas] são apresentadas de maneira inferior, isso não é justo. E as crianças conseguem identificar a injustiça desde tenra idade. Podemos aproveitar a noção de justiça de uma criança para incentivar a empatia.”

Se as crianças estiverem confusas sobre um comportamento racista que testemunharam, explique-lhes como é que aquela pessoa, que foi vítima desse ato, se pode estar a sentir. “Talvez os pais dessa pessoa também estejam revoltados e preocupados com o vírus”, diz Satsuki Ina, terapeuta infantil especializada em traumas coletivos relacionados com racismo. “Diga que a COVID-19 deixou as pessoas muito perturbadas e que querem culpar alguém. Depois, ajude o seu filho a preparar uma resposta: O que podes dizer ou fazer para te sentires mais forte?”

Ajude as crianças a olhar para os outros enquanto indivíduos, e não como um grupo de pessoas. Por exemplo, digamos que uma criança fez um comentário racista sobre um colega asiático chamado Tommy. “Podemos perguntar: ‘E o Tommy incomoda-te? O Tommy magoou-te?’”, diz Ina, que nasceu num campo de concentração para nipo-americanos durante a Segunda Guerra Mundial. “Quanto personalizamos o individuo, afastamo-nos da generalização, que é o que o racismo faz.”

Isto também pode ajudar as crianças a perceberem que os comentários racistas podem magoar um indivíduo. Por exemplo, a resposta de uma criança californiana de sete anos a um comentário ofensivo foi escrever uma carta: “Alguém disse que não gosta da China e dos chineses. Isso deixou-me triste, porque eu sou chinesa... Quando você diz que não gosta dos chineses, está a dizer que não gosta de mim. Eu não fiz este vírus.” Falar sobre os sentimentos – seja através da exposição direta das crianças a pensamentos como este; a fazer com que verbalizem o que pensam que a pessoa afetada pode estar a sentir; ou a pedir que escrevam sobre como se sentiriam se alguém lhes dissesse algo semelhante – pode fazer com que as crianças percebam o impacto negativo das palavras erradas.

Eventualmente, as infeções de coronavírus vão começar a diminuir – e talvez os incidentes de ódio dirigidos a pessoas de ascendência asiática também diminuam. Mas a xenofobia é algo que está sempre connosco, e é por isso que é importante que os pais ensinem os seus filhos a combatê-la. “Devemos falar sobre isto antecipadamente”, diz Tajima-Peña. “O ódio cresce exponencialmente e é difícil fazer com que desapareça.”
 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com.

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