Fechado em Casa? Leve os Seus Filhos num Safari Caseiro!

Não se assuste com os bichos que vivem na sua casa. Em vez disso, deixe os seus filhos aprenderem sobre habitats e biodiversidade.

Publicado 4/05/2020, 16:55 WEST, Atualizado 5/11/2020, 06:02 WET
As nossas casas estão repletas de vida selvagem fascinante, basta saber onde procurar.

As nossas casas estão repletas de vida selvagem fascinante, basta saber onde procurar.

Fotografia de Elva Etienne / Getty Images


“Encontrei uma grande!”, gritou June. “E está viva!”

Com uma lanterna numa mão e uma pinça na outra, a minha filha de quatro anos apanhou uma aranha inofensiva. A aranha de pernas compridas estava na sua teia, debaixo das escadas na cave. June é geralmente muito destemida quando encontra insetos e outras criaturas, mas agora a sua carinha estava iluminada com um objetivo em mente.

Afinal de contas, estávamos a fazer um safari caseiro – para fins científicos. (Mas não se preocupe, nenhum bicho foi magoado nesta aventura!)

Quem me deu esta ideia foi Rob Dunn, ecologista da Universidade Estadual da Carolina do Norte. Há cerca de um ano e meio que Dunn e os seus colegas incentivam as pessoas a catalogar todos os invertebrados que vivem entre nós. Isto é feito através de uma aplicação gratuita chamada iNaturalist (patrocinada em parte pela National Geographic Society).

Temos milípedes na cave, besouros nos tapetes, moscas nas janelas – literalmente tudo e mais alguma coisa que vive nos recantos tranquilos dos nossos lares é fascinante à sua maneira, diz Rob Dunn.

Dunn e a sua equipa já recolheram mais de 10 mil observações de lugares tão distintos quanto a Argentina, o Iraque, a Austrália e Itália. Claro que isto aconteceu tudo antes de aparecer o vírus, mas agora, com as famílias fechadas em casa, esta ideia ganhou uma nova vida. (Descubra mais ideias para atividades durante este período de confinamento.)

Como agora não se podem visitar jardins zoológicos, bibliotecas, museus e até parques nacionais, Dunn diz que este é o momento perfeito para as crianças aprenderem sobre habitats e biodiversidade – sem saírem de casa. E os adultos provavelmente vão ficar igualmente surpreendidos quando descobrirem a quantidade de animais com quem partilham as suas casas.

“Os candeeiros das nossas casas albergam cerca de 15 espécies”, diz Dunn. “E agora sei que existem 12 espécies de aranhas em minha casa.”

Provavelmente, todos nós temos as ferramentas necessárias em casa para preparar os nossos filhos para um safari caseiro. Basta pegar num pincel (para manipular gentilmente as pequenas criaturas), uma folha branca de papel (para as colocar) e uma câmara fotográfica, ou um telemóvel com câmara. Mas devemos garantir que, depois de as fotografarmos, os nossos filhos voltam a colocar as criaturas em segurança onde as encontraram. Uma lupa também pode ser útil.

E um bloco de notas pode ajudar, para escrever algumas observações – que tipo de animal é, o tamanho, a cor, onde foi encontrado, etc. Os pais podem enviar as descobertas dos seus filhos para o projeto iNaturalist de Dunn.

Agora que estamos prontos para começar a explorar, eis o que os nossos filhos poderão encontrar no seu safari caseiro.

Bibliófilos de outro tipo

Um pseudoescorpião na página de um livro – com letras para comparação de tamanho.

Fotografia de Juniors Bildarchiv GmbH / Alamy Stock Photo

Tal como acontece com uma savana ou um recife de coral, todas as partes de uma casa estão divididas por habitats diferentes, onde determinados tipos de criaturas podem viver. Uma estante de livros pode parecer um deserto vertical, mas, para a ordem dos insetos Psocoptera, é uma festa. Conhecidos pelo termo de bibliófagos, estes bichos enigmáticos gostam de comer amido, substância que se encontra nas encadernações de livros antigos. As janelas, os rodapés e as bases dos vasos de flores são lugares ainda mais prováveis para encontrarmos estas criaturas.

“Basicamente, em todas as casas que observámos com mais atenção, encontrámos estes insetos”, diz Dunn.

E onde há criaturas destas, também há predadores, como o pseudoescorpião. Este animal pode parecer assustador, mas não se preocupe. É um aracnídeo em miniatura – do tamanho de um mosquito – e apesar de ter pinças, não tem uma cauda venenosa como a dos seus parentes maiores. Estas criaturas também podem estar escondidas na lenha ou em locais húmidos, como nas casas de banho.

Crustáceos, também?!

Os isópodes têm mais parentesco com os caranguejos ou com os camarões, do que com os insetos ou milípedes.

Fotografia de Santia2 / Getty Images

A nossa casa provavelmente também tem muitos crustáceos, como os isópodes –  criaturas que se enrolam em forma de bola quando se assustam. (Mas evite que os seus filhos os assustem!)

“Os isópodes têm mais parentesco com os caranguejos ou com os camarões, do que os insetos ou milípedes”, diz Gwen Pearson, entomologista da Universidade Purdue. Portanto, tal como os seus parentes, os isópodes respiram através de guelras. É por isso que preferem habitats húmidos, como caves ou garagens. Nesses locais também encontram alimentos, como fungos e materiais vegetais. “São os homens do lixo da natureza”, diz Gwen.

E provavelmente encontramos insetos aéreos – como abelhas, vespas, moscas e traças – nos peitoris das janelas. Os tapetes, por exemplo, são basicamente florestas artificiais, onde vagueiam pequenos besouros. E claro, as cozinhas são o habitat ideal para os amantes de migalhas, como as formigas. E tal como acontece com os cientistas que estudam leões ou percevejos, os nossos jovens exploradores também podem obter resultados diferentes consoante a hora do dia do seu safari.  

“As traças-indianas-da-farinha escondem-se durante o dia, mas saem por volta das oito da noite, para encontrar o amor”, diz Dunn. E estes insetos são particularmente interessantes. “Sabemos que já existiam nas casas de Amarna, no Egito, no ano 2600 a.C.”

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As centopeias domésticas existem nas Américas, na Europa, em África e na Ásia. Isto significa que as comunidades de insetos das nossas casas podem ser semelhantes, independentemente de onde vivemos.

Fotografia de B. Christopher / Alamy Stock Photo

Embora o nosso primeiro impulso seja o de esmagar um inseto, Dunn diz para pensarmos duas vezes. Por exemplo, como as aranhas têm um metabolismo lento, algumas espécies conseguem viver mais de uma década. Isto significa que alguns dos animais que encontramos no nosso safari caseiro podem ser mais velhos do que os nossos filhos.

“Cada uma das espécies que encontramos na nossa casa já existe há milhões de anos e tem uma forma especial de estar no mundo”, diz Dunn. “Devemos prestar-lhes a devida atenção e perceber que também são seres, e que têm as suas histórias que se desenrolam à nossa volta.”

Gwen Pearson, que apresenta o Bug Bowl, um dos maiores eventos de sensibilização sobre insetos nos Estados Unidos, diz que, se conheceremos a nossa fauna caseira, podemos ficar mais descansados sobre os nossos coabitantes.

“Há animais que vivem onde nós vivemos”, diz Gwen. “E isso não faz mal!”
 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com.

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