Manter as Crianças em Forma Dentro de Casa

E ideias para tornar o exercício divertido para as crianças – e talvez para si também.

Monday, May 4, 2020,
Por Jamie Kiffel-Alcheh
   

   

Fotografia de Westend61 / Getty Images

Anna Dopheide pensava que estava preparada quando o infantário do seu filho de cinco anos encerrou, em Studio City, na Califórnia. Anna tinha muitas atividades para manter o cérebro do filho ativo. Mas e o seu corpo? Esse desafio era completamente diferente.

“De alguma forma, tudo o que tentamos fazer transforma-se numa tarefa árdua”, diz Anna. “Para colocar o trampolim na sala tenho de afastar a mobília. E ver um vídeo de ioga infantil significa que eu e o meu marido também temos de praticar ioga infantil!”

Com ordens de confinamento e regras de distanciamento social em vigor por todo o mundo, parece impossível conseguir manter as crianças ativas. Mas é importante. De acordo com o Departamento de Saúde e Serviços Humanos dos EUA (HHS), o exercício pode ajudar as crianças a melhorar a concentração, estimula a memória e ajuda a nível escolar – fatores cruciais num momento em que muitas escolas funcionam virtualmente.

Para além de promover a saúde do cérebro, permanecer ativo também é importante para a saúde mental. “A atividade física é um componente essencial da resiliência emocional e do bem-estar”, diz Hector de Leon, pediatra na cidade de Fort Collins, no Colorado, e diretor médico regional de pediatria da Kaiser Permanente. “É por isso que precisamos de dar prioridade à atividade física em família durante esta crise histórica de saúde pública.”

O Centro de Controlo e Prevenção de Doenças dos EUA recomenda que as crianças façam pelo menos uma hora de atividade física por dia, com exercícios que promovam o funcionamento cardíaco, o fortalecimento muscular e ósseo. Mas encaixar estas atividades na nova rotina caseira pode parecer complicado. Felizmente, os especialistas têm ideias sobre como manter as crianças em movimento, mesmo em tempos de confinamento.

Sem parar
O HHS diz que o aumento do ritmo cardíaco, para além de manter as crianças com um peso saudável, também as pode ajudar a dormir melhor, aliviar a ansiedade e diminuir o risco de doenças crónicas mais tarde. Portanto, recomenda-se que as crianças façam diariamente “atividades aeróbicas de intensidade moderada”. Podemos encarar isto como uma espécie de diversão rápida.

Hector De Leon tem um filho de 19 meses e outro de 3 anos e meio, e usa músicas infantis para jogar ao Jogo da Cadeira. “Eu cresci junto à fronteira com o México, e também recorro a alguma diversidade étnica para nos divertirmos”, diz Hector. E para acelerar as coisas, Hector fez uma pista de corridas de brincar para os seus filhos usarem carros ou bolas, ou até para correrem um contra o outro, mantendo-se assim ativos. Quem não tem uma pista de brincar, pode usar fita adesiva para fazer uma.

Karen Wartan, fisioterapeuta em Glendale, na Califórnia, diz que os seus filhos de 10 e 12 anos gostam de atirar um balão ao ar e depois tentam evitar que o balão caia no chão, metendo todos a mexer e a rir. “E é algo que eles podem fazer enquanto eu ainda estou deitada na cama”, diz Karen.

Também podemos ser criativos e fazer caças ao tesouro. “Escreva as letras do abecedário em folhas de papel”, diz Meredith Pharis, assistente social no Condado de Westchester, em Nova Iorque, e mãe de uma criança de dois anos. “Esconda as folhas pela casa e peça às crianças para as procurarem. Quem tem crianças mais velhas, pode usar palavras.”

E os trabalhos domésticos também são saudáveis. “Estender ou apanhar a roupa e varrer o chão aumentam o ritmo cardíaco”, diz Ruth Stefanos, pediatra que trabalha com os programas de saúde escolar da Universidade Johns Hopkins e do Centro Norman Rales de Integração de Saúde e Educação. Em vez de atribuir tarefas, Ruth sugere que toda a família deve participar. “Isto pode ser uma oportunidade para estar ativo em família. Para além disso, tratam das tarefas caseiras.”

Fortalecer os ossos
O fortalecimento dos ossos é particularmente importante durante a infância. O tecido ósseo protege os órgãos, evita fraturas e, de acordo com os Institutos Nacionais de Saúde dos EUA, este fortalecimento abranda quando os rapazes e as raparigas chegam aos 18 ou 20 anos. Felizmente, podemos transformar quase todas as brincadeiras em atividades de fortalecimento ósseo – basta que as crianças saltem ou andem ao pé coxinho. “Saltar é ótimo”, diz a fisioterapeuta Karen Wartan.

E também se podem fazer “corridas de algodão”. Basta encher uma colher com uma bola algodão e fazer com que as crianças andem pela casa sem deixar cair o algodão. Se adicionarmos alguns obstáculos pelo caminho, como almofadas, para as crianças saltarem por cima, esta atividade estimula o corpo todo.

E andar ao pé coxinho também é uma forma de saltar. “Podemos usar fita adesiva para criar linhas e fazer um Jogo da Macaca”, diz Meredith Pharis. E que tal basquetebol dentro de casa? “Podemos usar uma bola pequena e um balde do lixo”, diz Karen. “E podemos dificultar as coisas e colocar a bola sempre no chão para as crianças se agacharem para apanharem a bola.” Estes movimentos fortalecem os ossos.

Para tornar as coisas ainda mais divertidas, Lenny Parracino recomenda que se pratique basquetebol como os atletas profissionais fazem: de olhos vendados. (Lenny sabe do que fala: é terapeuta de coordenação de movimentos dos Los Angeles Clippers, equipa da NBA.) “Jogar com os olhos vendados também estimula a nossa perceção de profundidade”, diz Lenny, que também faz parte do corpo docente do Instituto Gray. Este instituto gere a organização sem fins lucrativos Free2Play, uma organização que ajuda a manter as crianças ativas. “E é muito divertido”, diz Lenny.

Trabalhar os músculos
A construção de massa muscular ajuda não só as crianças a evitarem lesões, como também faz com que se mantenham fortes e que tenham um peso saudável. E também já ficou demonstrado que aumenta a autoestima. Mas grande parte das crianças não deve usar pesos – o seu próprio peso corporal é suficiente para trabalhar os músculos. “Antes de lidarem com cargas artificiais, as crianças precisam de aprender a controlar o seu peso corporal.”

Lenny, pai de dois adolescentes, prefere exercícios rápidos e sem pesos ao longo do dia. “Nós chamamos-lhes atividades petisco. Basta levantarmo-nos depois de passarmos 15 ou 20 minutos no computador e mexer o corpo.”

A forma como as crianças se movimentam também pode tornar as coisas mais divertidas: cada criança escolhe um movimento e uma maneira de o tornar mais complexo. “Por exemplo, um irmão e uma irmã podem andar lateralmente de mãos dadas e virados um para o outro – sem se puxarem ou empurrarem”, diz Lenny. A resistência e os movimentos ajudam a fortalecer os músculos.

Lenny lembra-se de ver um rapaz na Free2Play a fazer flexões com um movimento semelhante ao de uma lagarta (como nos tempos de breakdance). “Em menos de nada, todos os miúdos estavam a fazer o mesmo.”

Tornar as coisas mais difíceis – mas de uma forma divertida – pode ajudar a inspirar as crianças a continuarem a fazer exercício e a fortalecer os músculos, sobretudo quando os membros da família participam e escolhem movimentos uns para os outros. Por exemplo, podemos tentar equilibrar-nos só com um pé enquanto fazemos uma rotação sem sair do lugar, ou saltar com os braços cruzados sobre o peito (exercício que fortalece os ossos e os músculos). Fazer exercícios de resistência em família – como agachamentos ou elevações de pernas – em posições e direções diferentes, ou com um determinado desafio, pode manter as coisas divertidas.

“A chave está na diversão, criatividade e variação”, diz Lenny.

Manter as crianças em forma ajuda a manter a saúde, sobretudo em tempos onde a saúde é de extrema importância, mas fazê-lo em família pode ter outros efeitos. “Este tipo de atividades ajuda a criar união familiar”, diz Hector de Leon. “Podemos até chegar à conclusão que, se calhar, não precisamos de muito mais, e que vamos ficar todos bem.”
 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com.

 

 

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