Por Que Razão as Crianças Devem Começar Agora a Escrever Um Diário

E outras 12 ideias para ajudar a inspirar os jovens escritores.

terça-feira, 19 de maio de 2020,
Por Ruth A. Musgrave
Fotografia de sakkarin sapu / Shutterstock


“Querido coronavírus: Tu não prestas. Por causa de ti, estou fechado em casa, tenho saudades dos meus amigos e não posso praticar desporto. Estou aqui preso com os meus pais, tenho trabalhos de casa intermináveis e o meu irmão mais novo está sempre com flatulência.”

Neste momento, os seus filhos provavelmente já estão a ferver com a frustração, com questões, preocupações, ideias e histórias que desejam partilhar. Escrever um diário é um escape perfeito para expressarem o que lhes vai na alma. “Se as crianças conseguirem colocar as suas observações no papel, isso pode ajudá-las a compreender estes tempos confusos e assustadores”, diz Melissa Hart, autora de Better with Books. “As emoções de uma criança parecem menos assustadoras quando elas as veem escritas no papel.”

Mesmo durante tempos “normais”, um diário pode ajudar as crianças a ficarem mais confiantes nas suas aptidões de expressão e promover capacidades de escrita, de linguagem, de comunicação e artísticas. Mas devemos esquecer a ideia antiquada de um diário que recapitula a rotina do quotidiano, que por vezes é banal. “Um diário permite que os nossos filhos articulem ideias, histórias e sentimentos”, diz Hart. E também pode ser uma coleção de coisas que o escritor se quer lembrar, uma conversa engraçada que ouviram, algo que achem curioso ou uma ideia para uma invenção.

“Um diário é um lugar para uma mente ativa armazenar ideias e é um escape para a energia e emoções intelectuais reprimidas”, diz Peter Gwin, editor da National Geographic. “Penso num diário como se fosse o laboratório de um cientista louco, é um lugar de liberdade onde o escritor pode explorar e escrever o que lhe apetecer. É essa sensação de liberdade que é realmente importante.”

Conceitos básicos
Não é preciso muita coisa para começar. “As crianças só precisam de papel e de algo para escrever”, diz Gwin. Na verdade, o diário perfeito é aquele que se adapta melhor ao estilo dos seus filhos: um bloco de notas, um caderno de linhas, papel milimétrico ou simplesmente uma página em branco. “Depois, basta juntar uma boa caneta, para além de lápis de cor, tinta, cola e uma tesoura, e a imaginação das crianças pode seguir em qualquer direção”, diz Hart. Eles podem preferir fazer o diário no computador, ou fazer um diário fotográfico ou em vídeo.

Algumas crianças podem precisar de vários diários. “Eu tenho sempre alguns diários de bolso”, diz Gwin. “Tenho um junto à cama para aquelas ideias repentinas que surgem antes de adormecer, ou para quando acordo a meio da noite. E tenho outros diários com recortes de jornais, flores prensadas, listas, com ideias malucas e onde desabafo sobre os maus resultados da minha equipa desportiva.”

Devemos deixar as crianças controlar as suas aventuras no diário e permitir que descubram a hora e o local certos para escrever – mesmo que seja apenas alguns minutos por dia, duas vezes por semana, não só para manter as coisas diferentes e divertidas, mas também para reduzir a pressão de uma criatividade forçada. Devemos certificar-nos de que as crianças escrevem para elas próprias. “Os nossos filhos não precisam de escrever especificamente sobre emoções ou sentimentos”, diz Hart. “Muitas vezes, esses sentimentos acabam por aparecer escritos de forma orgânica.”

E as crianças não se devem preocupar com ortografia, pontuação ou gramática. “É uma zona sem regras ou estrutura”, diz Hart.

Talvez a grande questão na cabeça dos pais: Será que devem ler os diários dos seus filhos? Tanto Hart como Gwin concordam que a privacidade é importante.

“Os pais podem abordar isto de formas diferentes, mas acredito que, para uma criança se sentir verdadeiramente livre e com poderes para explorar, precisa de uma zona livre de apreciações e sem os olhares indiscretos dos pais”, diz Gwin. “Se bem que os meus filhos querem muitas vezes partilhar o que escreveram.”

Como começar
Todos os escritores sabem que uma página em branco pode por vezes parecer intimidadora. Se o seu filho não conseguir pensar em nada para começar, faça-lhe um desafio ou dê-lhe uma sugestão. Seguem-se algumas ideias para as crianças começarem a sua jornada num diário.

— Fazer uma lista sobre os cinco sabores de gelado preferidos, livros, músicas, piadas ou palavras.
— Escrever uma história sobre uma personagem secundária de um filme, livro ou programa de televisão preferido, como por exemplo o Olivander, o criador de varinhas dos livros Harry Potter.
— Escrever uma história com um parágrafo sobre uma fotografia de férias, sobre um familiar ou sobre um momento divertido.
— Fazer um desenho ou rabiscos.
— Escrever uma carta ao coronavírus ou a qualquer outra coisa que preocupe o seu filho.
— Descrever como a casa mudou desde que a família começou a ficar sempre em casa.
— Terminar a seguinte frase: Estou chateado / triste / assustado porque...
— Descrever os benefícios inesperados do confinamento.
— Escrever uma história sobre um super-herói e o coronavírus (ou outro tópico pertinente).
— Contar uma história que fale sobre o facto de estarem todos sempre em casa – mas contada da perspetiva do animal de estimação da família.
— Escrever cinco desejos.
— Comparar um dia normal de agora com um dia de há um ano atrás.
 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com.

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