As Crianças Estão a Assumir o Papel de Professores Durante a Pandemia

Os pais podem aprender muito com os filhos – se souberem onde procurar.

Monday, June 15, 2020,
Por Scott Elder
Fotografia de milanvirijevic / Getty Images


Quando Maggie Solomon, de 11 anos, recebeu um desafio para desenvolver uma ideia para o projeto anual – Laboratório de Inovação – da sua escola em Denver, nos EUA, Maggie sabia que já tinha um projeto vencedor em mente. Depois de lavar as mãos repetidamente enquanto contava os 20 segundos recomendados, decidiu que a sua invenção seria uma combinação entre dispensador de sabonete e temporizador.

Ciente da competição, Maggie não revelou para já todos os detalhes. (Para além de que ainda não descobriu propriamente como é que a invenção vai funcionar.) Mas sentou-se inspirada porque está habituada a resolver outros problemas por si própria – usando a mesa de cozinha como bancada de trabalho – Maggie reaproveita, por exemplo, embalagens para fazer mobiliário para a sua casa de bonecas

Foi uma oportunidade de aprendizagem, não só para Maggie, mas também para a sua mãe. “O instinto dela é o de tentar encontrar soluções, em vez de se concentrar nos problemas”, diz Sarah Solomon. “Foi uma lição [para mim] sobre resiliência e adaptabilidade.”

Os pais têm aprendido muitas coisas durante o tempo passado em confinamento com as suas famílias, seja conseguir lidar com todas as questões caseiras, ou perceber qual é o melhor ângulo do portátil para fazer uma videoconferência. Mas o que está realmente a surpreender muitos pais é o quanto estão a aprender com os seus filhos.

Mesmo em tempos normais, os pais não costumam levar muito a sério o facto de os filhos poderem ter alguma coisa para lhes ensinar. Isto não significa que, de repente, as crianças olham para cima e começam a proferir palavras de sabedoria. A chave passa por ter uma mente aberta e por estar disposto a procurar o significado nas coisas simples do dia a dia.

“É difícil aprender com uma experiência quando a estamos a viver”, diz a psicóloga infantil e consultora educacional Melinda Macht-Greenberg. “Mas, se conseguirmos dar um passo atrás e refletir sobre o que aconteceu, podemos perguntar: 'O que é que aprendi com isto?' A partir daí, as coisas começam a entranhar-se.”

Coisas surpreendentes de onde menos se espera
Estar com as crianças 24 horas por dia, 7 dias por semana, deu aos pais muitas oportunidades para fortalecerem os laços familiares. Portanto, não será de estranhar que as ordens de confinamento tenham ajudado muitos pais a olhar para os seus filhos de perspetivas novas e surpreendentes.

Por exemplo, Laurel Kellam teve dificuldades em ensinar os novos métodos de matemática à sua filha mais nova, Juliet, e precisou da orientação da única especialista que tinha em casa – a filha Eliza, do sexto ano. “Às vezes ainda penso nelas como crianças pequenas”, admite a mãe, que vive na área da Baía de São Francisco. “Aprendi que elas têm realmente mais competências do que eu pensava.”

Ter a capacidade de olhar para as crianças de uma perspetiva diferente pode ser inspirador. E tal como acontece com muitas famílias, também os Kellam estão a passar mais tempo a cozinhar em família. Depois de algum sucesso com donuts caseiros, mãe e filhas começaram uma espécie de cozinha de testes colaborativos –  as meninas são as chefs que propõem os ingredientes experimentais. E apesar de o resultado final poder ser uma receita nova e saborosa (ou não), Laurel Kellam também aprendeu mais sobre criatividade e novas experiências. “Gosto de as ver mais criativas e espontâneas”, diz Laurel. “E isso também me dá vontade de ser mais espontânea.”

Rebecca Medina Cole também sentiu vontade de experimentar coisas novas quando viu o seu filho de 13 anos e a filha de 15 a participar nas aulas virtuais. Rebecca, professora do quarto ano na cidade de Jenks, em Oklahoma, resistiu inicialmente à proposta de dar uma aula virtual (que não era obrigatória para os alunos da escola primária do seu distrito escolar). “Sou teimosa e não gosto de mudanças”, diz Rebecca. “Para mim, isso significava perder o controlo.”

Mas depois de ver a facilidade com que os seus filhos se adaptaram a esta nova forma de aprendizagem – e como eles, alunos isolados e ansiosos, ficaram felizes – Rebecca precisava de tentar. “Ver os meus filhos a participar naquilo fez-me perceber que eu também o podia fazer”, acrescentando que os filhos a apoiam a partir de casa. “A minha família deu-me confiança para sair da minha zona de conforto.”

A aula virtual improvisada por Rebecca correu tão bem que o distrito escolar lhe pediu para partilhar algumas das suas aulas com outros professores. “Não sei qual é o desafio que se segue. Mas seja ele qual for, agora sinto que conseguimos lidar com isso em família.”

Para Laurel Kellam, o contacto direto com as aulas virtuais das suas filhas ensinou-a a apreciar professoras como Rebecca Cole. Depois de perceber que as filhas tinham estilos de aprendizagem surpreendentemente diferentes – uma é ousada e confiante, enquanto que a outra é meticulosa e facilmente cede à frustração – Laurel sente que agora vai estar mais bem equipada para comunicar com os professores e para participar. “Isto fez-me valorizar ainda mais os professores. Como é que um professor com 30 crianças – cada uma com os seus estilos individuais de aprendizagem – consegue ensinar todos os alunos?”

Lições emocionais
Ao mesmo tempo que os pais tentam dar apoio emocional, sobretudo neste mundo novo disruptivo, também percebem que as emoções dos filhos os afetam. Por exemplo, quando os dois filhos mais novos de Kathryn Amatrudo começaram a chorar por tudo e por nada, Kathryn percebeu que eles estavam muito mais stressados do que ela imaginava. E isso fez com que se apercebesse do seu próprio estado emocional. “Vê-los assim tão stressados fez-me refletir. Reconheci que estava mais stressada do que imaginava e, por isso, estava a perder a paciência.”

Mas Kathryn Amatrudo, apesar de não poder resolver os problemas provocados pela pandemia – a causa subjacente às frustrações dos seus filhos – reconheceu que sentia o mesmo, e isso fê-los sentirem-se melhor. “Ouvir-me dizer em voz alta: ‘Isto também é estranho e muito difícil para mim’, ajudou muito, diz Kathryn. “Eu tenho fomentado este tipo de diálogo, seja à hora de dormir ou depois de uma birra, mas sobretudo quando eles parecem um pouco mais em baixo.”

Aprender a partilhar com os filhos a forma como a pandemia a afetava ajudou a acalmar os nervos – dela e dos filhos. “Isto ajudou-me a controlar os meus níveis de paciência”, diz Kathryn. “Ajudar os meus filhos a lidar com as emoções deles também me ajuda a lidar com as minhas.”

E apesar de os momentos de menor paciência continuarem a existir, Kathryn não tem dúvidas de que o confinamento prolongado ajudou a unir ainda mais a família. “Percebemos que estávamos todos no mesmo barco.”
 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com.

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