Falar Com as Crianças Sobre Raça

Os recentes protestos estão a despertar questões nas crianças. Não evitar estas conversas é o primeiro passo na educação de uma criança antirracista.

Thursday, June 4, 2020,
Por Heather Greenwood Davis
  

  

Fotografia de Yellow Dog Productions / Getty Images

Durante o fim de semana, realizaram-se inúmeros protestos pelo mundo inteiro provocados pela morte de um homem afro-americano às mãos de um polícia branco em Minneapolis. Não importa o quanto desejamos proteger os nossos filhos destas imagens perturbadoras, as crianças provavelmente vão ouvir conversas sobre raça, sobre diferenças raciais e racismo – e vão fazer perguntas. Os especialistas dizem que a forma como respondemos pode moldar os sentimentos dos nossos filhos em relação às diferenças raciais durante os anos vindouros.

“Este momento oferece uma oportunidade única às pessoas”, diz Candra Flanagan, diretora de ensino e aprendizagem no Museu Nacional de História e Cultura Afro-Americana (NMAAHC). “Os adultos podem querer desligar a televisão ou ficar em silêncio. Mas as crianças obtêm informações de outros lugares. Isto faz com que seja muito mais importante ter estas conversas agora, para que as crianças não recebam mensagens do exterior que sejam diferentes das que [os pais] lhes querem transmitir.”

Para alguns pais, os protestos que têm acontecido depois da morte de George Floyd podem resultar nas primeiras perguntas dos seus filhos sobre raça e racismo. Estas conversas iniciais podem ser complicadas, mas os educadores pedem que os pais não se afastem, mesmo que as crianças sejam muito novas. Subestimar a capacidade de compreensão das crianças sobre questões relacionadas com raça e injustiça é um erro, diz Caryn Park, professora na Universidade Antioch, em Seattle, cuja investigação se concentra na perceção das crianças sobre raça e etnia.

“As crianças de três anos já têm noção da raça e da cor da pele, e não têm medo de fazer perguntas”, diz Park. “As identidades são realmente importantes para as crianças, e a identidade racial é uma parte significativa dessa identidade total. E as crianças também compreendem o poder em falar sobre raça e racismo, e sabem que, quando tocam nestes assuntos, podem chamar a atenção dos adultos e de outras crianças.”

A raça é um tópico relativamente simples de se falar quando uma criança se apercebe da cor da pele pela primeira vez. Mas o racismo é compreensivelmente mais difícil de abordar. Há poucos pais que se consideram a si ou aos seus filhos racistas, mesmo que tenham conotações de comportamento intencionais, sejam mesquinhas ou de raiva contra diferentes grupos de pessoas. Mas, de acordo com Ibram X. Kendi, diretor executivo do Centro de Pesquisa e Política Antirracista da Universidade Americana, em Washington D.C., a intenção nem sempre faz parte do racismo.

O que isto significa, diz Kendi, é que, embora a maioria das pessoas não queira magoar ninguém, continuam a fazer julgamentos com base na raça. E, de acordo com Maggie Beneke, professora assistente de educação na Universidade de Washington, muitas vezes estes julgamentos vêm de preconceitos raciais implícitos, algo que podemos interiorizar através de interações do quotidiano e mensagens sociais, resultando em crenças que talvez nem nos apercebamos, mas que podem provocar inadvertidamente comportamentos racistas. “Por exemplo, depois de vermos filmes com princesas maioritariamente brancas, uma criança pode dizer algo do género: ‘Só gosto de princesas que se parecem com a Elsa e não gosto do cabelo e do tom de pele da Moana’”, diz Beneke, que estuda a equidade na educação.

Kendi diz que o objetivo passa pela educação de crianças antirracistas. “Enquanto pais”, diz Kendi, autor do livro Antiracist Baby e coautor com Jason Reynolds do livro para jovens adultos Stamped: Racism, Antiracism and You, “devemos educar os nossos filhos para que consigam expressar noções de igualdade racial, para que consigam ver as disparidades raciais como um problema e que consigam desempenhar o seu papel na luta contra este problema enorme que é o racismo.” Isto significa reconhecer as ideias racistas que as crianças podem ter interiorizado – involuntariamente ou não – e redirecioná-las para um comportamento antirracista.

Fomentar a empatia, a compaixão e um sentimento de justiça desde tenra idade ajuda as crianças a tornarem-se adultos que desejam ajudar a tornar o mundo num lugar melhor. Para os pais, isto geralmente significa respirar fundo e ter conversas difíceis sobre raça e racismo. “Independentemente de como a conversa começa, os pais devem passar a mensagem de que é bom e importante falar sobre o assunto”, diz Beneke. Eis o que os especialistas dizem sobre uma educação antirracista.

Esteja preparado para falar sobre eventos raciais e as emoções que despertam
Se os recentes motins levarem os seus filhos a fazerem perguntas sobre raça e sobre estas manifestações, aproveite a oportunidade como um ponto de partida para ter uma conversa mais ampla, diz Flanagan. Parte destas conversas exige uma reflexão profunda por parte dos adultos.

“Não se trata apenas da criança, mas também do trabalho que os adultos precisam de fazer”, diz Anna Hindley, diretora de educação infantil no NAAMHC. Compreender a história das relações raciais de um país e a variedade de formas pelas quais as manifestações podem acontecer facilita o debate destes assuntos com as crianças.

Por exemplo, o NAAMHC lançou recentemente o Talking About Race, um portal online com recursos para ajudar pais e professores a navegarem por este tema com ferramentas adequadas. O site introduz a noção de que “a opressão é uma combinação de preconceito e poder institucional que cria um sistema que discrimina de forma regular e severa alguns grupos em detrimento de outros”. É um bom estímulo para as crianças pensarem sobre o que pode ter dado origem a estes protestos globais – para além da morte de um homem – e que os afro-americanos são desproporcionalmente mais pobres do que os outros grupos de americanos, que este grupo foi mais afetado pela COVID-19 devido à falta de acesso a cuidados de saúde e outras razões, e que as pessoas negras são assassinadas (ou “magoadas”, para quem tem filhos mais novos) por polícias com uma taxa muito mais elevada do que acontece com os brancos.

Hindley e Beneke dizem que ocultar estas informações das crianças pode prejudicar a sua capacidade de processar os problemas em torno da raça e da opressão.

“Sabemos que as crianças conseguem [compreender], mas podem precisar de algum apoio tendo em conta a quantidade de mensagens que recebem sobre elas próprias e sobre os outros”, diz Beneke.

No entanto, Flanagan lembra aos pais que as crianças – tal como os adultos – estão a ser emocionalmente afetadas por eventos como a morte de George Floyd e pelos protestos que se seguiram. As conversas devem ter estes sentimentos em mente.

“Respondemos de forma emocional a muitas das injustiças que vemos ao longo do tempo e em todo o mundo”, diz Flanagan. “Devemos dar espaço às crianças para que façam as suas próprias jornadas emocionais e a sua própria descompressão emocional.”

Esteja atento a afirmações que vinculam a raça a julgamentos de valor
Se o seu filho disser: “Aquela senhora é escura!” e se ela for realmente negra, então limite-se a concordar. “Não é racista reparar na raça de alguém”, diz Park. “A falta de vontade em reconhecer a observação da criança pode passar a mensagem errada.”

O que os pais precisam é de estar atentos aos julgamentos de valor que as crianças podem estar a abordar, mesmo que não consigam discernir as diferenças, e depois corrigi-las com cuidado. “Responda com questões abertas e livres de julgamento para compreender as razões pelas quais o seu filho pode estar a fazer algum tipo de suposição”, diz Beneke. “Perguntas simples como ‘por que é que pensas isso’, ou ‘o que te leva a dizer isso?’” E explique o que são estereótipos e incentive o seu filho a pensar em exemplos que mostram como esses estereótipos não são realmente verdadeiros.

Ajude os seus filhos a reconhecerem o mal de um preconceito racista
Se ouvir o seu filho a expressar uma ideia, ainda que inadvertidamente, sobre um grupo de pessoas de forma prejudicial, envolva-o numa conversa apropriada para a idade. Para as crianças mais pequenas, pode centrar a conversa em torno do motivo pelo qual as palavras são prejudiciais e sobre o impacto que podem ter em alguém. E embora a maioria das crianças mais velhas tenha aprendido a evitar comentários descaradamente racistas, estes podem surgir na mesma. Park incentiva os pais a ajudarem as crianças a examinarem não só a intenção, mas também o impacto não intencional das suas palavras. Por exemplo, se o seu filho disser que “as pessoas de cor também podem ser racistas”, é uma oportunidade para ter uma conversa sobre isso. “Pergunte à criança se aconteceu alguma coisa que a fez sentir assim e fale sobre o que ela estava a sentir quando fez esse comentário”, diz Park. “Quem é que saiu a ganhar ou a perder com esse comentário? Preste atenção aos sentimentos de mágoa, de rejeição ou de exclusão e pense num plano para contornar esses sentimentos.”

Quanto mais velha for a criança, mais sofisticada a conversa pode ser. “Mas nunca devemos deixar de assinalar os preconceitos racistas aos nossos filhos”, diz Kendi. “E devemos proteger os nossos filhos com conceitos antirracistas.”

Atualize a sua biblioteca
Observe atentamente os livros, os filmes e programas de televisão que o seu filho consome, e provavelmente vai reparar num padrão sobre os grupos que estão mais representados. Considere apresentar a sua família a formas de entretenimento que alterem as noções sobre a aparência que um herói, um vizinho ou um amigo pode ter.

“Sabemos que a maioria dos livros com desenhos se concentram em personagens brancas, e que as personagens humanas negras ou morenas são ainda menos representadas dos que os animais ou outras personagens de desenhos animados”, diz Beneke. Procure livros que apresentem personagens negras, morenas ou indígenas em situações normais, não apenas livros que se concentrem na escravatura ou na injustiça.

Procure livros com ilustrações e histórias que celebrem a diversidade, e exponha o seu filho a perspetivas diferentes. Se encontrar algo excelente, considere comprar uma cópia extra para doar à biblioteca da escola do seu filho.

Introduza diversidade em diferentes aspetos da sua vida
Para que as crianças adotem ideais antirracistas, precisam de ter contacto com pessoas diferentes delas. Se um grupo de amigos for demasiado semelhante, talvez esteja na hora de incentivar um pouco de diversidade.

E também pode ser uma oportunidade para os pais incluírem mais diversidade na sua rotina do dia a dia. Manka Varghese, professora especializada em educação multilíngue na Universidade de Washington, sugere que os pais expandam a sua própria rede social para incluir raça, género e religião. Isto modela um comportamento antirracista nos seus filhos e oferece uma oportunidade para falar sobre os valores da diferença. “É algo que tem um efeito gradual nas crianças, porque os pais sugerem que a diferença é uma coisa boa”, diz Park. “Isto dá às crianças acesso a uma variedade de perspetivas, histórias e pontos de vista.”

E claro, o objetivo não é simplesmente fazer amigos porque a pessoa é de uma raça diferente. Em vez disso, examine o que pode estar a fazer inconscientemente e que limita com quem a sua família interage. “Enquanto pai ou família, pense onde está a investir o seu tempo e recursos”, diz Beneke. Considere uma atividade extracurricular noutra zona da cidade para explorar um pouco mais além das atividades normais de fim de semana, e para permitir que as relações se desenvolvam naturalmente.

Procure outras atividades que possam expor os seus filhos a perspetivas diferentes. Tente participar em eventos na sua biblioteca local, visite exposições de museus que tocam na questão racial, ou participe em eventos culturais que são realizados nos centros comunitários durante o ano inteiro. Este contacto pode ajudar a fomentar a ideia de inclusão.

Evite que a conversa sobre raça seja um evento único
Não é preciso marcar uma data para se ter uma “conversa sobre raça”. Estas conversas podem acontecer naturalmente se prestar atenção às declarações do seu filho e se estiver ciente das formas pelas quais o preconceito se pode instalar inconscientemente.

Por exemplo, se o seu filho reparar que uma determinada publicidade não tem diversidade cultural, converse com ele sobre como o anúncio podia ser mais inclusivo. Se o seu filho pré-adolescente se interrogar sobre a ausência de negros na série Friends, tente debater as questões que poderiam tornar o programa mais representativo. “Incentive um pensamento crítico e peça aos seus filhos para conversarem sobre a perceção que tiveram”, diz Park. A conversa pode levar a uma “auditoria de diversidade” sobre os media que pais e filhos consomem, de forma a que consigam procurar pessoas de cor em papéis de liderança, de apoio, figuras de autoridade, heróis e vilões. Depois, podem comparar as diferenças. Com base nas conclusões, considere fazer alterações na sua “dieta” de entretenimento.

Os pais também podem tentar encontrar formas de chamar a atenção para as disparidades. Se o seu filho disser que grande parte dos jogadores profissionais de basquetebol são afro-americanos, não há problema em mostrar que a maioria dos proprietários dessas equipas são brancos, e pergunte ao seu filho o que pensa que isso pode significar. Varghese sugere que se façam perguntas como “O que te diz esta situação? Dizes isso porquê? Quem beneficia com esta situação? O que podemos fazer sobre isto?” As respostas podem levar a discussões frutíferas sobre privilégios, raça e desigualdades – e ajudar o seu filho a desenvolver ideais antirracistas.

Não finja estar na posse de todas as respostas
Acima de tudo, lembre-se de que não existe uma fórmula “correta” para estas questões. Tal como acontece com outros debates que são importantes e desconfortáveis, é normal que um pai ou uma mãe se arrependam de uma determinada resposta. É preciso assumir estas coisas.

“Isto leva tempo”, diz Beneke. “Lembre-se de que, apesar de sermos crescidos, também estamos a navegar por estas ideias enquanto adultos. É preciso mostrar às crianças que estas conversas não são fáceis, mas também é preciso mostrar que são importantes.”

 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com.

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