O Tédio Trazido Pelo Coronavírus Pode Ser Bom Para as Crianças

Eis uma resposta surpreendente para a próxima vez que uma criança disser que não tem nada para fazer: deixe que ela se aborreça.

Friday, June 5, 2020,
Por Jamie Kiffel-Alcheh
Fotografia de Terry Vine / Getty Images

Depois de vários dias de atividades programadas em confinamento para os seus filhos de oito e seis anos, Cindy Zibel, de Bedford, em New Hampshire, precisava de fazer algum trabalho a partir de casa. Não sabia como é que as crianças iriam lidar com os tempos livres sem estrutura.

Passados cerca de 15 minutos em que as crianças ficaram por conta própria, Cindy foi ver o que se passava. “Encontrei-os no quintal com as bicicletas. O mais velho tinha tirado as rodinhas da bicicleta do mais novo e ensinou-o a andar sem as rodas de apoio.”

Desde que o período de confinamento começou nesta primavera, muitos dos pais tornaram-se monitores de atividades a tempo inteiro. É provável que esta função não termine assim tão depressa, sobretudo com o início do verão, com o distanciamento social ainda em vigor e com as atividades de tempos livres em grande parte indisponíveis. Quando os adultos não têm um dia inteiro de atividades programadas, as crianças não perdem tempo em dizer que estão aborrecidas. Mas será que é assim tão mau se as deixarmos simplesmente... entediadas?

As atividades aparentemente infinitas – sobretudo agora com a telescola e com as atividades digitais – provavelmente salvaram muitos pais da loucura. Mas todos estes estímulos pré-programados podem ter efeitos negativos nas crianças. As crianças com tarefas infindáveis podem sentir-se oprimidas e ficar irritadas, diz Shannon Barnett, professora assistente de psiquiatria e ciências comportamentais na Faculdade de Medicina da Universidade Johns Hopkins, em Baltimore. “As crianças podem não estar a dormir bem ou podem sentir-se um pouco ansiosas. E podem ter dores de estômago ou outras queixas físicas. Vemos adolescentes que tiveram sempre boas notas e que, de repente, não conseguem estar à altura das expectativas.”

Apesar de os estudos demonstrarem que a sensação de tédio pode muitas vezes levar a comportamentos de risco nas crianças, existem estudos que também indicam que, por vezes, a sensação de aborrecimento pode ser benéfica.

Um estudo de 2014 publicado na Creativity Research Journal descobriu que, quando os participantes faziam uma atividade aborrecida seguida de uma tarefa, mostravam mais criatividade na conclusão da tarefa. E um estudo de 2019 publicado na Academy of Management Discoveries descobriu que os indivíduos que faziam primeiro uma tarefa aborrecida, conseguiam depois ter ideias mais criativas do que as pessoas que faziam primeiro uma tarefa estimulante.

“Receamos que os nossos filhos se virem para nós e digam: ‘Mãe, estou aborrecido’”, diz Sandi Mann, professora de psicologia na Universidade de Lancashire, em Inglaterra, que foi coautora do estudo de 2014. “Na verdade, devíamos dizer: ‘Bom trabalho!’ Porque precisamos que as crianças fiquem entediadas. Precisamos de despertar a sua criatividade e deixá-las serem criativas.”

O que o cérebro faz quando está aborrecido
Estar aborrecido é diferente de estar relaxado, diz Mann, que também escreveu The Science of Boredom. “Se não tivermos estímulos, mas mesmo assim estamos felizes, isso significa apenas que estamos relaxados. Mas se não nos sentirmos estimulados e queremos mais estímulos, isso é estar entediado.”

Quando os nossos filhos se queixam e dizem que precisam de algo para fazer, o mesmo se passa nos seus cérebros. “O cérebro das pessoas está à procura de um determinado nível básico de estímulo; portanto, quando estamos aborrecidos, o cérebro tenta criar estímulos”, diz Sara L. Dolan, professora associada de psicologia e neurociências na Universidade Baylor, em Waco.

Um artigo de 2018 publicado na National Academy of Sciences revelava que, quando o cérebro de uma criança começa a “vaguear”, as partes do cérebro envolvidas na resolução de problemas começam a comunicar entre si. E a sensação que resulta do aborrecimento pode ser uma coisa boa.

“As pessoas encontram novas soluções para não estarem aborrecidas, é o que chamamos de ‘ser criativo’”, diz Michael Scullin, também ele professor associado de psicologia e neurociências na Universidade Baylor.

“Quando os meus filhos se queixam e dizem que estão aborrecidos, eu digo-lhes que fico feliz por ouvir isso, e que isso é bom para o seu cérebro”, diz Shannon Barnett. “O tédio dá-lhes a oportunidade de serem criativos e de se envolverem na resolução de problemas.”

Ultrapassar o tédio de forma correta
Como podemos ajudar os nossos filhos a ficarem um pouco menos entediados?

Para começar, se uma criança estiver habituada a estar sempre entretida, cortar com isso de repente pode não correr bem. “As crianças vão ficar frustradas”, diz Shannon, acrescentando que a capacidade de nos entretermos é uma capacidade que se aprende, pelo que algumas crianças podem demorar algum tempo nesse aspeto.

Mas a boa notícia é a de que isto pode ser ensinado. Shannon recomenda que se comece com um cronómetro – o cronómetro que ela usou com os seus filhos tocava uma música até o tempo acabar. “Fazer com que as crianças percebam que existe um período de tempo em que não estão entretidas pode ajudar a aliviar a frustração.”

Shannon sugere que se comece com um período de 30 minutos em que as crianças não têm nada para fazer, mas acrescenta que esse tempo varia de criança para criança. “Se a criança não conseguir tolerar esses 30 minutos, o tempo deve ser reduzido e depois gradualmente aumentado.” Eventualmente, as crianças mais novas conseguem passar 90 minutos em que se entretêm a elas próprias; e as crianças mais velhas conseguem fazer isto até 3 horas por dia.

Para as crianças mais novas, Barnett sugere que se ofereça uma recompensa pelo tempo que passaram entretidas por elas próprias. “Pode ser uma atividade divertida com os pais, jogar qualquer coisa em família, ou fazer um telefonema para alguém com quem queiram falar.”

Shannon Barnett e Sandi Mann também concordam que se devem fazer algumas sugestões para as atividades. Para as crianças que gostam de construir, Shannon sugere que os pais ajudem as crianças a encontrar algo que possam usar. “Isto pode incluir brinquedos, caixas, tubos de rolos de papel higiénico, ou coisas que se encontram na rua.” Os pais de jovens artistas podem fazer uma caixa para os seus trabalhos artísticos. “Coisas que possam ser coladas no papel, incluindo esparguete ou massas, folhas e flores.” Os “materiais” podem até ser imaginários. “Para as crianças que gostam de fingir, ajude-as a começar uma história que elas consigam continuar por conta própria. Ou talvez enviar as crianças numa aventura mágica.”

“Ainda assim, não devemos esperar que as crianças se fiquem pelas nossas ideias, mas sim que as usem como um ponto de partida”, diz Shannon.

Sandi concorda. “Tente encontrar materiais interessantes para construírem uma tenda ou um forte, mas deixe que sejam as crianças a fazer as coisas, porque assim criam a sua própria diversão e estímulo.”

Este tempo sem diretrizes até se pode tornar num alívio para os pais. E quem sabe quais serão os resultados quando as coisas regressarem ao normal. Shannon diz: “Os pais até podem chegar a um ponto em que dizem... será que queremos realmente voltar atrás?”

 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com.

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