A Paciência dos Pais Está a Esgotar-se – Mas a dos Filhos Também

Eis como ajudar toda a família a ser mais paciente durante a pandemia.

Wednesday, July 15, 2020,
Por Jamie Kiffel-Alcheh
Fotografia de PeopleImages / Getty Images

Erica Medine, mãe que vive em Los Angeles, pensava que a vida iria ficar mais fácil quando o ensino à distância terminasse no verão. Em vez disso, as coisas ficaram ainda mais difíceis.

“A escola dava-nos algo para fazer, mas agora não há estrutura”, diz Medine, que tem uma filha de oito anos. “A minha paciência está a esgotar-se porque a minha filha está sempre aborrecida, e a paciência dela está a esgotar-se porque não sabe quando é que isto vai passar.”


Muitos pais identificam-se com esta situação. As coisas já eram complicadas o suficiente quando os pais se tornaram “professores” e trabalhavam a tempo inteiro, mas muitas crianças parecem ainda mais irrequietas agora que a escola terminou. Os especialistas dizem que ainda vai demorar algum tempo até que as coisas regressem ao normal. Como é que podemos dizer aos nossos filhos para serem pacientes quando todos estamos perto do limite?

A impaciência das crianças é normal
Primeiro, temos de compreender que é normal as crianças fazerem birras durante este período. “Estas emoções negativas são apropriadas”, diz Sarah A. Schnitker, professora associada de psicologia e neurociências na Universidade Baylor. Os próprios adultos não sabem quando é que a pandemia vai acabar. “Para as crianças, um período de tempo tão longo pode parecer uma eternidade”, diz Sarah.

E agora, sem os trabalhos escolares para manter as crianças ocupadas, a impaciência pode começar a acumular. “Normalmente, quando uma criança se está a adaptar a uma mudança, esperamos lidar com emoções negativas durante pelo menos um dia”, diz Romie Mushtaq, neurologista sediada em Orlando e especialista em mindfulness. “Mas se estas emoções persistirem, isso significa que a resposta ao stress das crianças – a reação de ‘lutar ou fugir’ – não foi desativada.” Enquanto esta espera continua, as hormonas de stress, como o cortisol, continuam a ser libertadas no cérebro das crianças. “As crianças não conseguem desligar para ficar num estado de espírito calmo”, diz Romie.

Mas há boas notícias – a paciência é algo que se pode aprender e os benefícios também podem ser enormes.

O que a ciência diz sobre paciência
Já sabemos que a paciência pode ajudar a impedir que o estado emocional da nossa família atinja níveis insuportáveis. Mas provavelmente não sabemos que essa paciência também tem outros benefícios.

Os estudos feitos por Sarah Schnitker revelam que a paciência está correlacionada com o aumento da esperança, autoestima, menos depressão e solidão – todas estas coisas podem ajudar as crianças a atravessar este período de tensão. Para além disso, há benefícios a longo prazo – algo pode ajudar os nossos filhos a alcançarem objetivos futuros. “Descobrimos que, quando as pessoas são pacientes na conquista dos seus objetivos, conseguem esforçar-se mais”, diz Sarah.

E mesmo que pareça impossível ter paciência, podemos lembrar aos nossos filhos que saber esperar também tem valor.

“Esperar desbloqueia novas formas de pensar”, diz Jason Farman, autor de Delayed Response: The Art of Waiting From the Ancient to the Instant World. Jason refere uma rede cerebral chamada “rede da imaginação”. “Esta rede só fica ativa quando estamos entediados ou sonhamos acordados. É algo que desbloqueia realmente a criatividade quando não o conseguimos fazer de outra forma.” (Eis um artigo sobre os benefícios do tédio nas crianças.)

Como estimular a paciência
A paciência é algo que as crianças podem aprender aos poucos. Mas é preciso levar em consideração um ponto crucial: para ensinar a ser paciente, os adultos também devem aprender a ser pacientes.

“Eu digo sempre aos pais que os três primeiros passos são os seguintes: os pais devem aprender a manter a calma, aprender a manter a calma e aprender a manter a calma”, diz Romie Mushtaq. “Cerca de 80% da nossa comunicação faz-se através de linguagem corporal não verbal.” Romie recomenda que se inicie uma prática simples de mindfulness com “pausas mentais”; as aplicações de meditação para telemóvel também podem ajudar. Não sente os efeitos? “Fingir até conseguir” pode ser um mantra útil para acalmar a família.

Sarah Schnitker diz que o passo seguinte é dar às crianças um motivo para tentarem ser pacientes. “Isto passa por colocar o ‘porquê’ ao lado do ‘como’”, diz Sarah. “Tenho um filho de quatro anos e tentamos falar intencionalmente sobre os grandes objetivos das nossas vidas, como por exemplo importarmo-nos com outras pessoas.” Podemos dizer às crianças impacientes que, embora compreendamos as razões pelas quais estão entediadas ou frustradas, às vezes também precisamos de trabalhar e de cuidar de nós.

Outro passo útil é esclarecer quando é que os eventos do quotidiano começam e terminam. “A minha investigação revelou que fornecer um circuito de ação/reação às pessoas ajuda a controlar a ansiedade durante os tempos de espera”, diz Jason Farman. Isto pode passar por informarmos as crianças sobre o tempo de início e fim das nossas videoconferências ou fornecer um horário diário – ainda que sem grandes restrições – em torno de coisas como as refeições e o tempo que se pode estar na piscina ou ar livre. Jason compara isto ao tempo de espera que um site demora a carregar. “Se tivermos uma barra de percentagem, este nível de ação/reação mantém-nos envolvidos, acalma-nos e dá-nos algum controlo sobre como podemos usar o nosso tempo.”

Permitir que as crianças expressem as suas emoções também é importante. “Com que frequência é que dizemos coisas como: ‘Tens de te acalmar?’”, pergunta Romie. De facto, isso só prolonga as emoções negativas, tanto para os adultos como para as crianças. “Quando permitimos que uma emoção esteja presente, essa emoção prolonga-se apenas durante 90 segundos.”

Atividades para facilitar os tempos de espera
Pais e filhos podem fazer várias coisas para parecer que o tempo passa mais depressa. Eis alguns conselhos dos especialistas.

Ligação social. Apesar de o ensino à distância não conseguir substituir as aulas presenciais, as crianças conseguiam ver-se regularmente e agora podem estar a sentir falta dessa ligação social. “As crianças dependem de três coisas: tempo, contacto e atenção”, diz a especialista em desenvolvimento infantil Roni Cohen Leiderman, reitora do Centro para o Desenvolvimento Humano Mailman Segal da Universidade Nova Southeastern. Roni Leiderman aconselha os pais a fazerem as coisas em conjunto com as crianças – preparar refeições, passear o cão, ler ou fazer puzzles. “Trata-se de garantir que nos desligamos do trabalho para estarmos em contacto com a nossa família”, diz Roni, mesmo que isso signifique fazer uma pausa a cada poucas horas para passarmos alguns momentos com os nossos filhos.

Brincar com os amigos. À medida que as coisas ficam mais seguras, podemos deixar as crianças brincar com os amigos – com as devidas precauções. “Para as crianças que já têm idade para compreender e respeitar as regras de segurança, podemos considerar um encontro com distanciamento social e uso de máscaras”, diz Roni. “As crianças podem manter o seu espaço de segurança, mas interagem com outras crianças.” Erica Medine tem tentado fazer isto com a sua filha e duas amigas de confiança.

Começar um projeto. Ter tempo livre para preencher pode significar uma oportunidade para as crianças começarem projetos mais longos que nunca iriam fazer. “Este é um bom momento para os pais observarem os seus filhos e descobrirem quais são as suas paixões”, diz Roni. “A minha neta descobriu a culinária e o meu neto está a aprender a tocar piano.” Aprender um idioma, cuidar de um jardim, escrever ou até mesmo começar a desenvolver um fato para o Halloween pode ajudar o tempo a passar e a dar forma aos dias.

“Pausa mental”. Romie Mushtaq ensina esta prática de mindfulness para as crianças mais pequenas: tente observar uma coisa durante três a cinco minutos, como nuvens no céu. (A observação de nuvens ensina lições científicas e fomenta a criatividade.) “Chamamos a isto ‘pausa mental’”, diz Romie. Para os alunos a partir do terceiro ano, Romie Mushtaq ensina “respiração quadrangular” – inspirar durante uma contagem de até quatro segundos, reter a respiração durante quatro segundos, exalar durante quatro segundos e esperar o mesmo tempo para repetir o processo. "Quando fazemos isto durante três minutos, reduzimos os nossos níveis de stress e estimulamos as hormonas que nos ajudam a sentir mais calmos.”

Erica Medine está a adotar estas práticas de mindfulness com a sua filha nos passeios que fazem diariamente. Ainda assim, é normal existirem alguns dias piores. “Ser paciente não significa que as crianças já não vão sentir emoções negativas”, diz Sarah Schnitker. “Mas as crianças podem sentir estas emoções, fazer uma pausa, e fazer algo de construtivo com isso. E nós, enquanto adultos, também podemos fazer o mesmo.”

 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com.

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