Eis Como as Crianças Podem Fazer Voluntariado, Mesmo a Partir de Casa

Atividades simples – e divertidas – podem fomentar um compromisso duradouro na ajuda que se presta a outras pessoas.

Thursday, July 2, 2020,
Por Vicky Hallett
Fotografia de Kevin Kozicki / Getty Images

Durante gerações, as crianças que queriam angariar fundos para uma causa digna podiam usar recursos da cozinha, fazer uma limonada e montar uma banca de venda na esquina.

Mas quando a vida nos dá coronavírus, temos de nos contentar com uma abordagem diferente para ajudar os outros, uma abordagem que, em grande parte, envolve ficar em casa.


Todas as formas de voluntariado mudaram radicalmente nos últimos meses, diz Greg Baldwin, CEO da VolunteerMatch, a maior plataforma online que liga pessoas a oportunidades de serviço em organizações sem fins lucrativos. “Os pedidos de confinamento tiveram um impacto devastador nos programas de voluntariado. Muitos foram adiados”, diz Baldwin.

Embora a necessidade de ajuda nunca tenha sido tão grande, ninguém quer comprometer a saúde e a segurança de terceiros, portanto, encontrar oportunidades – sobretudo para as crianças – pode exigir mais paciência e persistência do que há uns meses. “As organizações começaram a reiniciar as suas atividades e ainda estão a tentar encontrar um caminho a seguir”, diz Baldwin, sublinhando que estão a ser adicionadas novas oportunidades ao seu site todos os dias.

Ainda assim, este território pode ser difícil de navegar, sobretudo para as famílias com crianças que já estão limitadas pelos tipos de atividades que podem desempenhar. Mas não devemos deixar que isso seja um obstáculo, recomenda Baldwin, que se lembra com carinho dos seus primeiros anos de trabalho voluntariado, incluindo o período em que ajudou o Rotary Club do seu pai a montar um acampamento de verão Easterseals. “A minha tarefa era pintar o foguetão de prata do campo de golfe Putt-Putt”, diz Baldwin. Estas experiências ensinaram-lhe como o voluntariado pode ser recompensador e ampliaram a sua visão do mundo.

O voluntariado pode ser ainda mais benéfico para as crianças neste momento, diz Amanda Zelechoski, professora associada de psicologia na Universidade de Valparaiso e diretora do Laboratório de Psicologia, Direito e Trauma, que está a desenvolver o Projeto Familiar de Impacto Coronavírus. “Aconteceu algo que está fora do nosso controlo. É muito traumatizante”, diz Amanda. “De que forma conseguimos recuperar o controlo das nossas vidas? Como é que nos conseguimos sentir fortes?” Há uma resposta: Trabalhar num serviço de voluntariado em família.

Como começar
A chave é incentivar as crianças a “sentirem que podem fazer alguma coisa”, diz Maryam Abdullah, psicóloga do desenvolvimento e diretora de programas parentais do Centro de Ciência Greater Good da Universidade da Califórnia, em Berkeley. “As crianças sentem-se competentes. Estão a contribuir. E isso é bom”, diz Maryam.

As crianças de todas as idades podem ser voluntárias – Maryam realça que até os bebés apresentam sinais de quererem ajudar os outros. Nos estudos laboratoriais, as crianças com pouco mais de um ano pegam em objetos que acham que os investigadores vão precisar.

Para fomentar estas tendências, devemos exibir um comportamento de voluntariado, para mostrar às crianças que é algo que valorizamos. Por exemplo, quando o marido de Amanda Zelechoski entrega refeições às pessoas com necessidades na sua comunidade, os seus três filhos andam sempre no carro. “Eles nunca conheceram outra realidade”, diz Amanda, acrescentando que as viagens também servem para as crianças não se esquecerem das coisas pelas quais estão gratas.

Os pais podem recear a exposição das crianças a tópicos como fome, doenças ou sem-abrigo. Mas explicar estas ideias no contexto de como podem ajudar pode facilitar a conversa. “As crianças querem compreender o mundo que as rodeia” diz Amanda. Mas devemos estar preparados para responder às perguntas que inevitavelmente irão surgir.

Depois, devemos permitir que as crianças participem no planeamento e na tomada de decisões sobre o tipo de voluntariado que se deseja fazer. E se as crianças tiverem sugestões impraticáveis? “Devemos aplaudir a ideia e, de seguida, encontrar o objetivo da mesma. Qual é o propósito? Devemos ajudar as crianças a solucionarem os problemas”, diz Maryam.

Eis algumas categorias a considerar:

Primeiros passos
Neste momento em que vivemos com uma ansiedade sem precedentes, Amanda quer lembrar aos pais que nem todas as formas de voluntariado precisam de ter um V maiúsculo. Desenhar imagens alegres com giz na calçada ou colocar desenhos nas janelas pode elevar os outros. E podemos levar estas ideias ainda mais longe transformando a calçada numa galeria de rua – podemos deixar uma caixa com giz na rua (ou decorar uma caixa de sapatos ou outro recipiente) para que qualquer pessoa possa usar o giz para desenhar as suas próprias mensagens edificantes. Ou podemos oferecer aos nossos filhos um desafio diário, pedindo-lhes para inventarem um animal feliz diferente para ilustrar na calçada.

Podemos manter uma sensação de bem-estar pedindo aos nossos filhos para escolherem brinquedos e roupas para doar, ou para escolherem uma instituição de caridade que precise mesmo do dinheiro que possam ter nos mealheiros. Maryam Abdullah sugere uma visita ao site Youth Service America, que tem guias de atividades para uma variedade de projetos domésticos simples – por exemplo, como fazer sacos com lanches para o banco alimentar local.

Há causas pelas quais os nossos filhos se interessam mais. Devemos descobrir quais são e entrar em contacto com as organizações locais que trabalham com essas questões. E provavelmente estes grupos também têm algumas ideias sobre a forma como os nossos filhos podem ajudar, seja através da sensibilização dos amigos ou angariação de donativos.

Artesãos infantis
Qualquer pessoa que consiga costurar – incluindo as crianças! – pode montar uma fábrica de máscaras de tecido em casa. As proteções faciais tem muita procura em todo o lado, sobretudo em ambientes de assistência médica. E mesmo que não conheçamos um local específico para fazer doações, podemos vender as máscaras e transferir os lucros para a caridade. (Talvez isto seja o equivalente a vender limonada em 2020.)

Se pais e filhos não se sentirem confortáveis perto de agulhas, não faz mal. Existem inúmeras opções que não envolvem costura. Nos EUA, a loja de artigos de artesanato Michaels partilha algumas ideias, como esta, que envolvem uma T-shirt velha. Ou até a criação de um design original com fios coloridos ou com qualquer outra coisa que podemos encontrar nas gavetas que costumam ter tralha. As máscaras artesanais podem ser o impulso que os nossos filhos precisam para as usarem quando saímos de casa. Mas devemos certificar-nos de que as máscaras são feitas de acordo com os padrões básicos de segurança.

E quando chegar a altura de partir para outro projeto, estas capacidades podem ser colocadas em prática com o Project Linus, uma organização com 25 anos que já enviou mais de oito milhões de cobertores caseiros para crianças doentes ou vítimas de traumas. “Os cobertores fazem com que as crianças sintam que há alguém que se importa com elas”, diz a presidente Patty Gregory. E esse alguém pode ser de todas as idades. “Temos voluntários com apenas quatro anos”, acrescenta Patty. “Qualquer pessoa pode fazer isto.”

O site do Project Linus também tem padrões mais complexos para mantas e cobertores, para além de instruções passo a passo para fazer dois “cobertores de lã não costurados” que exigem pouco mais do que tecido e uma tesoura. “Quem consegue atar os sapatos, consegue fazer um cobertor de lã”, diz Patty.

As instituições de caridade costumam ser inundadas com estes tipos mais simples de cobertores; portanto, é melhor verificar se precisam de mais neste momento. E devemos estar cientes de que muitos sites de entregas foram afetados pelas restrições e confinamentos gerais devido ao coronavírus. Patty Gregory aconselha que se continue a fazer cobertores, mesmo que tenhamos de ficar com eles durante algum tempo, ou então podemos entrar em contacto com abrigos locais nas proximidades para ver se estão a aceitar cobertores ou outros mantimentos.

Amigos por correspondência
Todas as pessoas gostam de receber uma mensagem manuscrita, sobretudo quando inclui rabiscos coloridos. Em vez de juntarmos mais um desenho à galeria de arte na porta do nosso frigorífico, podemos pedir aos nossos filhos para colocarem as suas obras de arte em envelopes com destino a idosos solitários. Muitos lares de idosos recebem estas cartas, assim como a organização Love for the Elderly, que classifica e distribui estas cartas nos EUA sempre que necessário. (Outra opção passa pela gravação de um vídeo para partilhar uma mensagem de apoio através do site Care Not Covid.)

E claro, há muitas pessoas que merecem o nosso agradecimento: professores, médicos, enfermeiros, funcionários dos correios. Podemos pedir aos nossos filhos para pensarem nas coisas pelas quais se sentem agradecidos em relação a estas pessoas, e para escreverem cartas. Depois, se conhecermos pessoas que desempenhem estas atividades, podemos pedir-lhes para passarem as cartas aos seus colegas.

Este é basicamente o modelo utilizado pela organização A Million Thanks, que já enviou mais de 10 milhões de cartas para os militares dos EUA mobilizados pelo mundo inteiro. Esta organização enche caixas com cerca de mil cartas e envia-as para um membro de um serviço específico, que depois as distribui pela sua unidade. (Neste momento, devido à COVID-19, não estão a ser enviadas cartas, mas a fundadora Shauna Fleming espera recomeçar a recolher cartas no final do verão ou no início do outono.)

Uma carta pode ser pequena, mas o seu impacto pode ser significativo. “Um militar chegou a dizer-me que preferia receber cartas diariamente do que comida”, diz Shauna.

Amigos de quatro patas
O voluntariado também pode fazer parte das nossas vidas através do acolhimento de um novo membro na família, mesmo que seja apenas de forma temporária.

Os centros de resgate de animais assistiram recentemente a um aumento no acolhimento de cães e gatos – na verdade, a Associação Americana de Prevenção Contra a Crueldade Animal (ASPCA) registou um aumento de quase 70%, em comparação com o período homólogo de 2019, nos animais acolhidos através dos seus programas em Nova Iorque e Los Angeles.

O presidente e CEO da ASPCA, Matt Bershadker, diz que, quando acolhemos um animal de estimação em casa, libertamos espaço nos abrigos para outros animais, para além de aliviarmos a carga sobre os funcionários das instalações que agora devem operar em conformidade com os requisitos de distanciamento social. Todos os abrigos têm programas de adoção diferentes, mas Bershadker diz que a maioria dos voluntários cuida de um animal em casa durante um período que pode ir desde as duas semanas até alguns meses.

As crianças que aprendem a passear os cães, a limpar as caixas de areia dos gatos e que passam tempo com os animais desenvolvem capacidades para a vida, diz Lauren Lipsey, vice-presidente de programas comunitários da Humane Rescue Alliance, organização sediada em Washington. Se as famílias não puderem adotar um animal – seja por questões de logística ou de saúde – podem ajudar de outras maneiras. Lauren Lipsey recomenda que as crianças juntem alguns mantimentos para doar, incluindo rolhas (os gatos adoram brincar com rolhas) e comida.

 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com.

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