Ficou sem Ideias Para Fazer Coisas Novas? Opte Pelo Tradicional

Limpe o pó aos jogos de tabuleiro e redescubra as atividades analógicas – as brincadeiras de antigamente podem alimentar novas interações.

Por Julie Ha
Publicado 11/08/2020, 12:51 WEST, Atualizado 5/11/2020, 05:59 WET
Fotografia de Belinda Howell / Getty Images

Graças aos pedidos de confinamento devido à pandemia, as famílias pelo mundo inteiro têm desfrutado de uma abundância de tempo em união. (Tanto tempo!) A escola – mesmo que à distância – pelo menos oferecia alguma estrutura. Mas com as atividades de verão, como acampar ou as visitas noturnas às casas de amigos, a serem demasiado arriscadas, os pais interrogam-se, e agora?

Cada vez mais pais e mães estão a responder a esta questão com as suas próprias memórias de infância. Seja para improvisar, pela nostalgia ou pelo desespero, os pais estão a afastar as crianças dos dispositivos digitais e a virar as suas atenções para as brincadeiras tradicionais – pense em jogos de tabuleiro, puzzles, construção de fortes e até andar de patins.


James Zahn, editor da The Toy Insider, observa esta tendência refletida no aumento de vendas no setor. Os puzzles têm tido muita procura desde que a pandemia colocou as famílias em confinamento em março. Os jogos de tabuleiro clássicos, como o Risco, Pictionary e Monopólio, “estão a vender como se fossem novos”, diz James. As vendas de bicicletas aumentaram, e os skates e patins também estão com muita procura.

E o que pode parecer antiquado para os pais é na verdade uma novidade para esta geração que nasceu com telemóveis, tablets e computadores. “Acredite ou não, as brincadeiras práticas são uma novidade para as crianças”, diz James Zahn.

E isto também pode ser uma coisa saudável. Os especialistas em parentalidade citam muitos benefícios para a juventude da atualidade, como a criação de laços com os pais, aprendizagem de recursos e sentir alegria em aventuras simples.

“Os pais estão demasiado habituados a estruturar o dia dos seus filhos e a levá-los para atividades”, diz Erin Leyba, autora de Joy Fixes for Weary Parents. Esta conselheira que vive no Illinois também é mãe de quatro filhos, com 2, 7, 9 e 10 anos. “A vida das crianças é muito complexa, com muita coisa a acontecer a diversos níveis. O simples ato de simplificar a infância pode ser realmente saudável para as crianças.”

Criar laços
As atividades retro não são apenas uma nova forma de manter as crianças ocupadas; também são uma maneira de as crianças criarem laços com os pais. “As crianças adoram ouvir histórias sobre os pais”, diz Sushi Frausto, terapeuta familiar que trabalha no Institute for Girls 'Development, no sul da Califórnia. Sushi Frausto é especializada na formação de pais e trabalha com crianças pequenas. “Assim, as crianças ficam a conhecer melhor os pais.”

Em São Francisco, Sara Maamouri descobriu isto depois de se tentar lembrar de atividades que seriam divertidas e educacionais para suas duas filhas. Sara lembrou-se do jogo Mastermind – e “descodificou” outro benefício: uma ligação com a sua filha de 7 anos. “Eu disse que era um jogo que eu brincava muito com o meu primo, Ilyes, na Tunísia. Jogar a isto faz-me regressar à infância”, diz Sara. “E a minha filha ficou encantada por ter um jogo novo.”

Os filhos de Anya Lee descobriram um lado diferente na mãe, quando esta se lembrou de uma experiência científica que tinha feito quando era criança. Um dia, Anya encheu um saco de plástico com água, segurou-o sobre a cabeça do marido e pegou num lápis afiado. “Perguntei aos meus filhos: ‘O que acham que vai acontecer se eu furar este saco com o lápis?’ O meu marido ficou um pouco nervoso.”

Felizmente para o marido de Anya, não foi derramada água. “Isto despertou o interesse nas crianças”, diz Anya Lee sobre a filha, de 10 anos, e o filho, de 8 anos, que pediram outra aula de ciências no dia seguinte.

E todas estas brincadeiras retro também são boas para os pais. “Nós voltamos a ser crianças novamente”, diz Erin Leyba, “e também nos divertimos um pouco”.

James Zahn conhece pessoalmente as alegrias de revisitar as brincadeiras do passado com as suas filhas de 8 e 11 anos de idade. Juntos, estão a explorar o mundo dos carros Hot Wheels, os skates clássicos de madeira os Cubos de Rubik. “É verdade que brincar é terapêutico”, diz James. “As minhas filhas e eu ficamos felizes se conseguirmos completar apenas um dos lados do cubo.”

Ignorar os revirares de olhos
Sushi Frausto diz que a Geração Z – que tem menos capacidade de atenção e expectativas mais elevadas – pode precisar de ajuda para compreender a diversão retro. “As crianças estão habituadas a ver coisas no YouTube”, diz Sushi Frausto, dando como exemplo os vídeos para aprender a desenhar. “Eles têm muitos exemplos e instruções. Quando éramos crianças, só tínhamos lápis e papel.”

Mas as crianças conseguem definitivamente adaptar-se e aprender. Anya Lee, autoproclamada “mãe helicóptero”, descobriu isto por si própria. “Os meus filhos andam sempre atrás de mim a perguntar o que vão fazer a seguir.” Mas a quarentena ajudou Anya a perceber as suas próprias limitações, desencadeando outra ideia da velha guarda: colocar os filhos no quintal e dizer-lhes para brincarem, sem instruções específicas.

Nas primeiras vezes, as crianças ainda faziam birra durante alguns minutos. Mas Anya persistiu. “Se estiverem no quintal, acabam por inventar algo. Era o que eu e a minha irmã fazíamos quando éramos crianças. Não tínhamos nada planeado. Acabávamos por inventar qualquer coisa.”

E mesmo que as atividades retro pareçam um fracasso, não vale a pena desesperar. Grace Jimenez, mãe de dois filhos que vive em Lorton, na Virgínia, estava desesperadamente a tentar despertar o interesse dos seus dois filhos por um grande clássico: dominó. Depois de colocar as peças em padrões com os filhos, para caírem numa reação em cadeia, o seu filho de 12 anos sugeriu filmar os dominós com a câmara do telefone para verem a ação em câmara lenta. “Divertimo-nos durante 20 minutos”, diz Grace Jimenez, admitindo que o interesse não se prolongou muito para além disso. “Foi do género, isto foi engraçado. OK, adeus.”

Mas Sushi Frausto elogia os pais engenhosos como Grace Jimenez e incentiva-os a continuarem a usar as suas memórias para inspirarem os filhos. Por exemplo, agora que os filhos de Grace Jimenez sabem brincar com dominós, podem brincar sozinhos a qualquer momento.

“Não temos de estar constantemente a preencher o tempo dos nossos filhos”, diz Sushi Frausto. “Eles aprendem a combater o tédio. E aprendem o que é ter iniciativa e criatividade.”

Simplicidade
Por vezes, as atividades retro não são apenas sobre jogos de tabuleiro. Trata-se apenas de canalizar um tempo mais simples – e as sensações que isso dava aos pais. “Afinal de contas”, diz Sushi Frausto, “as crianças vão se lembrar de como se sentiram”.

É a simplicidade destes momentos que faz com que Erin Leyba regresse à infância, como acontece quando ela e os seus quatro filhos visitam um riacho perto de casa. As crianças vão tentar apanhar um sapo ou saltar de pedra em pedra. “É muito diferente de ir à piscina, existe um elemento de exploração e de aventura.”

Em East Cobb, na Georgia, Jamie Salimi lembra-se de como se sentia quando era criança e construía fortes e andava de patins com os seus irmãos, e tenta passar estas boas vibrações às suas filhas de 6 e 8 anos. Nos passeios de patins, Jamie conta às filhas sobre os tempos em que era criança e passava todos os sábados a patinar no ringue perto de casa, no sul da Califórnia, e fazia festas de aniversário fabulosas no mesmo local.

“Creio que nos estamos a relacionar de maneiras diferentes, provavelmente porque estou familiarizada com estas atividades e tenho boas recordações”, diz Jamie Salimi. “E provavelmente acabam por trazer ao cima um sentimento de felicidade.”

No grupo de apoio parental que lidera online, Sushi Frausto já ouviu falar sobre corridas de estafetas no jardim, muitos passeios bicicleta e noites de cinema em que veem os filmes preferidos dos pais, como a série original do Super-Homem. Qualquer que seja o passatempo de antigamente, Sushi Frausto diz que este tempo passado em união pode ajudar a proporcionar o conforto necessário para atravessar um período que pode ser muito traumático.

“Estamos a dar a nós próprios uma explosão em todos os neurotransmissores positivos que nos ajudam a sentir coisas como afeto e amor e que fazem com que o nosso cérebro explore o seu sistema de recompensa”, diz Sushi Frausto. “E isso é um excelente anticorpo contra o stress.”

 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com.

Continuar a Ler