As Crianças Podem Não Estar Bem. Descubra Como Pode Verificar a Saúde Mental dos Mais Novos.

A pandemia pode estar a colocar as crianças em risco de depressão e ansiedade. Não tenha receio de falar sobre isso.

Wednesday, September 2, 2020,
Por Gulnaz Khan
Fotografia de Jose Luis Pelaez Inc / Getty Images

Quando Lynn Zakeri descobriu que neste outono os seus dois filhos iriam perder o primeiro e último ano do ensino secundário devido à pandemia, a assistente social clínica licenciada ficou preocupada, porque não sabia como é que as crianças iriam lidar com outro contratempo. O seu filho mais novo perdeu a formatura do oitavo ano na primavera, e o filho mais velho passou meses a treinar para a próxima época de futebol universitário.

Lynn ficou destroçada pelas crianças, mas quando perguntou como se sentiam em relação a estas notícias, ficou agradavelmente surpreendida com as suas atitudes otimistas. Afinal de contas, de acordo com uma revisão sistemática do Journal of the American Academy of Child and Adolescent Psychiatry, as crianças e adolescentes têm maior probabilidade de sentir solidão, depressão e ansiedade durante a pandemia de COVID-19 devido ao isolamento dos colegas, professores e familiares.


Quando se trata da saúde mental dos nossos filhos, não conseguimos realmente perceber como se sentem por dentro – é por isso que é importante perguntar e ouvir, em vez de simplesmente assumir que sabemos como se sentem, diz Lynn. “Acho que desempenhar o papel de questionador é melhor do que desempenhar o papel de definidor.”

E embora seja normal as crianças por vezes sentirem medo, ansiedade e tristeza, verificar regularmente como se sentem pode ajudar-nos a reconhecer quando precisam de algum apoio extra, sobretudo quando lidam com eventos que poucos já viveram. Eis o que os especialistas dizem sobre como se deve falar com as crianças sobre saúde mental.

Primeiro, devemos verificar como nos sentimos
As crianças e os adolescentes aprendem geralmente a identificar, a expressar e a gerir as suas emoções observando as manifestações emocionais dos pais – algo que se chama modelação.

Portanto, como é que podemos ser um bom modelo? “Uma das coisas que recomendo aos pais é verificarem primeiro a sua própria saúde mental”, diz Carla Marin, psicóloga de crianças e adolescentes que se especializou em transtornos relacionados com ansiedade na Escola de Medicina de Yale.

“É o mesmo que acontece quando estamos num avião e nos dizem para colocarmos uma máscara antes de ajudarmos outras pessoas”, diz Carla. “Quais são os motivos de stress na nossa vida? Temos um sistema de suporte com o qual possamos conversar? Conseguimos identificar sintomas de ansiedade e depressão?” Os pais precisam de controlar as suas próprias emoções antes de poderem responder às necessidades de saúde mental dos filhos.

Reconhecer sinais de ansiedade e depressão
A ansiedade é uma das condições de saúde mental mais comuns nas crianças. Para além dos sentimentos de medo e preocupação, as crianças podem apresentar sintomas físicos como fadiga, dores de estômago e de cabeça. Mas Carla diz que devemos evitar alguns comportamentos. Por exemplo, se uma criança tem medo de dormir sozinha, devemos encorajá-la a dormir sozinha na mesma. “Se os pais permitirem que a criança evite um cenário ou situação que sabem que não a pode realmente prejudicar, isso passa a mensagem tácita à criança de que é algo com que se deve preocupar. Isto coloca realmente as crianças em risco de mais tarde poderem vir a desenvolver um transtorno de ansiedade.”

As alterações de comportamento também podem ser sinais de depressão ou ansiedade, diz Kathryn Lige, assistente social do Programa de Sucesso Estudantil do Instituto Child Mind. As crianças mais pequenas podem ter acessos de raiva, chorar por tudo e por nada, ficar mais apegadas aos pais ou fazer perguntas sem parar. As crianças mais velhas e os adolescentes podem apresentar alterações no sono, no apetite, nas atividades físicas e sociais, irritabilidade, pouca motivação e falta de energia.

Os pais também devem procurar sinais de automutilação física e emocional, diz Kathryn. Algumas crianças podem arranhar a pele, arrancar os cabelos, ferir-se ou beber álcool e usar drogas. A automutilação emocional inclui conversas interiores negativas ou sentimentos de inutilidade – coisas que podem facilmente passar despercebidas se os pais não se inteirarem do que está a acontecer.

Normalize as conversas sobre emoções
Os pais também podem ajudar os filhos a aprender a articular estas emoções mais difíceis. Na verdade, outro dos componentes de uma modelação eficaz passa por ajudarmos os nossos filhos a identificar o que estão a sentir – isto começa logo com a educação em idade pré-escolar.

Kathryn Lige recomenda a utilização de recursos visuais para ajudar as crianças a desenvolverem este vocabulário desde tenra idade. Por exemplo, podemos usar emojis, imagens de livros ou filmes e, de seguida, ligar a expressão facial de uma personagem a uma emoção. (“A Cinderela fica triste quando descobre que vai perder o baile.”)

Quando as crianças não conseguem expressar verbalmente o que estão a sentir, podem fazer birra, ter acessos de raiva ou até retraírem-se. Se os nossos filhos parecem chateados ou oprimidos, Carla Marin diz que não os devemos castigar ou ignorar. Devemos verificar o que está a acontecer, ajudá-los a acalmarem-se e dar um nome às emoções que sentem. (“Parece que estás incomodado com alguma coisa. Vamos respirar fundo. Podes dizer à mãe ou ao pai o que te está a perturbar.”) Também podemos modelar isto conversando sobre as nossas próprias emoções e estratégias de resolução de problemas – e devemos usar uma linguagem apropriada para a idade das crianças.

É importante ter estas conversas com as crianças mais velhas e também com os adolescentes. “Ter conversas normais sobre sentimentos e emoções, e fazer com que isso seja apenas uma coisa normal nas conversas de família, ajuda a quebrar o estigma.” Carla também recomenda que se pergunte regularmente às crianças como se sentem, e não apenas quando pensamos que há qualquer coisa de errado.

Seja o ouvinte
Fazer perguntas é apenas o primeiro passo – os nossos filhos também querem sentir que são ouvidos.

“É importante que os pais reconheçam que os filhos se estão a sentir de determinada forma, mesmo que por vezes isso pareça um pouco irracional”, diz Carla. “Dar apoio envolve dois componentes – validar como a criança se está a sentir, mas também incutir uma noção de autossuficiência. Os pais podem dizer: ‘Acabaste de me dizer que isso te está realmente a incomodar. Eu estou a ouvir-te. Eu compreendo que isso é perturbador, mas acho que também consegues lidar com isso. Vamos falar um pouco mais sobre o assunto.’”

Kathryn Lige recomenda a utilização de aptidões de escuta ativa, ou seja, evitar distrações quando estivermos a falar com os nossos filhos e dar dicas verbais e físicas para mostrar que estamos a ouvir. Isto significa pousar o telefone, desligar a televisão, fazer contacto visual, acenar com a cabeça e fazer perguntas complementares.

O sentido de oportunidade também é importante. “Se eles estiverem com os auscultadores ou a conversar com os amigos, tudo o que vão querer é deixar os pais falar para regressarem rapidamente ao que estavam a fazer.” Lynn Zakeri sugere que se reserve um tempo para conversar com as crianças durante as atividades que elas também gostam e desejam fazer, como durante um passeio, quando se anda de carro ou enquanto se faz um bolo.

Lynn enfatiza a importância de se ouvir e validar tudo o que os nossos filhos partilham connosco, sem desdenhar ou criticar. “As crianças devem sentir segurança para dizer coisas negativas – não faz mal, todos nós temos sentimentos negativos”, diz Lynn. “Se os pais se limitarem a dizer que está tudo bem, quando os filhos dizem que não está, as crianças vão parar de procurar os pais para conversar.”

Isto também significa manter a cabeça fria durante as conversas mais difíceis. “As crianças não querem preocupar os pais. As crianças querem perceber que, independentemente do que possam partilhar, os pais conseguem lidar com isso.” Se os pais estiverem com dificuldades em controlar os seus próprios sentimentos, Lynn recomenda que se procure um terapeuta. “Coloque toda a sua angústia e ansiedade em pessoas que consigam reter isso por si – mas não nos seus filhos.”

Procure ajuda quando necessário
“É normal as crianças sentirem emoções negativas, sobretudo durante transições enormes como as que passamos neste momento com a pandemia”, diz Kathryn Lige. Porém, quando os sintomas são graves, quando interferem com a vida diária das crianças ou quando persistem durante mais do que algumas semanas, os pais devem conversar com um especialista sobre exames e tratamentos baseados em evidências.

“As preocupações mentais e emocionais podem melhorar com a ajuda profissional”, diz Carla Marin. “Tal como vamos ao médico para tratar de uma doença física, também precisamos de encarar a saúde mental como uma doença física.”

Se os pais decidirem procurar ajuda especializada para os filhos, Carla recomenda que sejam honestos com as crianças e para usaram uma linguagem apropriada para a idade. (“A mãe e o pai repararam que ultimamente andas um pouco triste, por isso, queremos que fales com alguém que te pode ajudar a sentir melhor.”) Se uma criança se recusar a participar, Carla diz que os pais não devem desanimar – um profissional de saúde mental pode trabalhar na mesma com os pais e recomendar estratégias para ajudarem os filhos.

Por fim, devemos levar em consideração que os nossos filhos estão a observar a forma como nos expressamos, como gerimos as nossas emoções e a modelar o seu comportamento através do nosso. É por isso que é igualmente importante obtermos ajuda quando nós próprios precisamos, diz Kathryn Lige. “Se os filhos estiverem com dificuldades, os pais não conseguem cuidar das crianças se também estiverem a passar pelo mesmo.”


Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com.

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