Os Nossos Filhos Deviam Estar a Brincar Neste Momento

Brincar ensina aptidões sociais e aumenta a capacidade intelectual, tanto de animais como de crianças – e também pode ajudar as crianças a lidarem com a pandemia.

Friday, September 25, 2020,
Por Rebecca Renner
Fotografia de MoMo Productions / Getty Images

Quando surgiu a pandemia, Katie Raspa sentiu-se presa. Em julho, esta antiga educadora de infância e o marido colocaram as filhas na sua caravana e partiram numa viagem pelo país. A missão deste casal de Maryland era dar a Imogene, de oito anos, e a Caroline, de seis, uma oportunidade para brincarem.

“As pessoas quase se esquecem que é suposto as crianças brincarem”, diz Katie. “Isso ajuda-as a aprender aptidões cruciais, como criatividade, flexibilidade e cooperação.”

Qualquer pessoa que diga que brincar é inútil está errada. É um comportamento importante que os humanos e muitas outras espécies de animais evoluíram para os ajudar a aprender novas aptidões e para se prepararem para a vida adulta. Brincar ajuda a fortalecer os laços de parentesco e as amizades, e ajuda as crianças a tornarem-se melhores a comunicar. Brincar até pode melhorar a saúde cerebral, sobretudo quando nos faz rir, já que rir liberta endorfinas que proporcionam uma sensação de bem-estar. E também pode ajudar as crianças a tornarem-se amigos mais amáveis.

Mas é difícil as crianças conseguirem brincar quando precisam de ficar a dois metros de distância umas das outras, ou quando não têm sequer o luxo de brincar durante o recreio da escola. Contudo, os especialistas dizem que é essencial brincar agora, enquanto as crianças lidam com os efeitos da pandemia de COVID-19. “Brincar ajuda as crianças a compreender o mundo”, diz Roberta Golinkoff, professora de educação da Universidade de Delaware. “Isso dá às crianças a possibilidade de inventarem cenários e de lidar com emoções difíceis.”

E brincar não é apenas bom para os filhos – também pode facilitar a vida dos pais.

Quando os animais brincam
Para compreender como é que a brincadeira pode ser importante para as crianças que se preparam para a vida, os cientistas costumam olhar para o mundo animal.

Os especialistas costumavam pensar que a brincadeira nos animais só tinha um propósito. Alguns especulavam que brincar os ajudava a treinar para se transformarem em predadores, como acontece quando as crias de chita brincam a lutar. Outros levantaram a hipótese de que brincar podia ajudar a estimular a cognição e a flexibilidade, ou promover funções motoras. (Por exemplo, uma cria de girafa saltitante também está a praticar para se evadir de predadores.) De acordo com Isabel Behncke Izquierdo, primatóloga e etnóloga que estuda o comportamento animal, brincar tem muitas funções, incluindo as já referidas e outras.

“É útil se pensarmos na brincadeira como uma experiência”, diz Isabel. “Vai ajudar um animal a adaptar-se, mas assume formas diferentes.” A forma como os animais brincam – e como usam essa brincadeira – depende da espécie, do ambiente e de muitas outras variáveis. Por exemplo, já foram registados pássaros a usarem telhados como se fossem escorregas, uma atividade que pode aguçar os seus reflexos. Os bonobos adultos costumam correr e rir com os mais jovens, fortalecendo laços enquanto ensinam aptidões sociais. E os cães e gatos domésticos envolvem-se em brincadeiras predatórias que imitam a forma como os seus antepassados caçavam.

Brincar tem funções semelhantes nos humanos – apenas brincamos de forma diferente. “Podemos dançar com os nossos amigos, e isso tem uma função de vínculo”, diz Isabel. “Podemos desenhar, brincar com palavras e fazer piadas, e isso pode ser uma função criativa. O facto de ser divertido, compele os humanos e outros animais a continuarem a desenvolver essas capacidades.”

Nos animais, a brincadeira pode começar na infância como uma ferramenta de desenvolvimento, para preparar os animais para a idade adulta, mas muitas vezes continua muito depois disso. Os cães adultos ainda se perseguem e brincam uns com os outros; os cavalos também brincam e correm atrás uns dos outros. Desta forma, as brincadeiras continuam a construir e a manter laços sociais ao longo da vida de muitos animais, diz Isabel.

As crianças precisam de brincar porque...
Com grande parte das brincadeiras e os recreios escolares limitados devido à pandemia, é crucial que os pais encontrem formas para os seus filhos brincarem, seja por conta própria, com os pais ou irmãos, ou com amigos de confiança. Assim, as crianças podem continuar a aperfeiçoar as suas capacidades motoras, seja a fazer um puzzle ou trabalhos manuais, e podem aumentar a sua capacidade intelectual e cognitiva com jogos de tabuleiro, ou refinar as aptidões de pensamento crítico com uma atividade como uma caça ao tesouro.

As brincadeiras criativas também podem melhorar a saúde mental, sobretudo quando as crianças enfrentam a ansiedade e o medo de uma pandemia. Roberta Golinkoff diz que as capacidades de argumentação, comunicação e linguagem construídas a partir de atividades lúdicas são importantes para o desenvolvimento sócio-emocional das crianças. “As crianças envolvem-se frequentemente na representação de cenários da vida adulta, ou do mundo, num ambiente seguro que facilita a compreensão do que se passa à sua volta”, diz Roberta.

E brincar também pode aliviar as preocupações dos pais sobre os desafios que os filhos podem enfrentar com o ensino à distância. Para a família de Katie Raspa, brincar abriu um mundo novo de conhecimento, porque deixaram a curiosidade das filhas guiar a sua aprendizagem, algo que as manteve mais envolvidas enquanto se divertiam.

“Normalmente, passamos uma hora ou mais por dia a ler ou a fazer exercícios mais complicados de matemática”, diz Katie. “O resto do dia é para brincar.” Mas a brincadeira costuma ser uma oportunidade de aprendizagem. Por exemplo, no último sítio onde pararam na sua viagem, a família Raspa acampou perto de um lago de água doce, que revelou às crianças um novo habitat para explorarem. “Podemos usar estas pequenas descobertas para fazer pesquisas e estudos mais aprofundados”, diz Katie.

Roberta Golinkoff também recomenda este tipo de brincadeira em que os pais atuam como ajudantes em vez de professores. “As crianças têm curiosidade sobre todas as coisas”, diz Roberta. “Se seguirmos o exemplo dos nossos filhos, percebemos o que eles querem aprender.” Por exemplo, fazer um safari no quintal, para desenhar ou fotografar insetos ou plantas, incentiva os nossos filhos a fazerem perguntas, e inspira-os a pesquisar mais, fortalecendo a proximidade entre todos.
 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com.

Continuar a Ler