Truques Para Acalmar as Crianças Mais Irrequietas

A “dieta sensorial” adequada pode ajudar as crianças a concentrarem-se em casa.

Wednesday, September 16, 2020,
Por Jamie Kiffel-Alcheh
    

    

Fotografia de Ronnie Kaufman / Getty Images

Christina Lau Billings, de Salt Lake City, tem o seu filho de 11 anos completamente preparado para o ensino à distância com um espaço tranquilo, uma secretária e... uma bola de ioga.

“Quando ele não tem de estar em frente à câmara para ter uma aula através da aplicação Zoom, usa a bola de ioga e saltita um pouco nela”, diz Christina. “Acho que é muito útil para ele se conseguir concentrar nas aulas online.” Da mesma forma, em Stamford, no Connecticut, a professora Jessica Gerson lembra-se de alunos que melhoraram a sua concentração durante as aulas apertando balões artesanais cheios de farinha.

Christina Lau Billings e Jessica Gerson estão a usar o que os terapeutas ocupacionais e neuropsicólogos chamam “dieta sensorial”. Trata-se de uma série de estímulos sensoriais de bem-estar, ou técnicas que usam os sentidos de uma criança para ajudar a regular as emoções, a aprendizagem e a memória. Os terapeutas costumam recorrer à dieta sensorial quando tentam acalmar e desenvolver capacidades de concentração nas crianças – algo que muitos jovens têm agora dificuldades em conseguir.

“As crianças passaram por muitas alterações na sua rotina – escola, uso de máscara, afastamento dos amigos”, diz Tracy Turner-Bumberry, conselheira profissional e terapeuta ocupacional em Milledgeville, no estado da Geórgia. Se adicionarmos a tensão do ensino à distância – uma ligação à internet que cai repentinamente, ou o simples ruído dos pais ou irmãos – as crianças podem ficar com uma sobrecarga sensorial, explica Tracy. “Isto leva a colapsos, agressividade, choro e muito mais. Fornecer uma dieta sensorial individualizada pode ajudar as crianças a lidarem com esta sobrecarga e a autorregularem-se.”

Como descobriram Christina e Jessica, o estímulo sensorial adequado pode ser determinante para ajudar as crianças a concentrarem-se nos estudos, mesmo quando os professores não estão fisicamente presentes. O truque passa por encontrar um exercício que se foque no comportamento específico que distrai os nossos filhos. Eis como se pode descobrir qual é esse exercício.

O que está a acontecer no cérebro
Todos nós usamos diariamente dados sensoriais para nos ajudar a compreender e interagir com o mundo. “Recebemos informações através dos nossos sentidos, e isso informa-nos sobre o ambiente”, diz Marie Briody, neuropsicóloga pediátrica da Healthcare Associates in Medicine em Staten Island. Estes estímulos são captados pelos sistemas sensoriais dos nossos corpos – audição (som), visual (visão), oral (paladar e textura), olfativo (cheiro), tátil (tato), propriocetivo (sensibilidade muscular e articular) e vestibular (movimento). A partir daí, os estímulos sensoriais seguem para o cérebro, que interpreta tudo como mensagens.

Estas mensagens podem ser alertas, como acontece quando uma ambulância passa por nós, ou quando sentimos um odor forte. “O sistema nervoso simpático, que é a nossa resposta de parar ou fugir, faz com que hormonas como a adrenalina percorram os nossos corpos”, diz Marie. “Isto dá uma sensação de desconforto porque a nossa frequência cardíaca e a nossa respiração alteram-se.”

Mas com diferentes tipos de estímulos sensoriais também pode acontecer o oposto. Um estímulo sensorial agradável – ouvir o som de um riacho, ou acariciar o pelo macio de um cão, por exemplo – pode ativar o sistema nervoso parassimpático, que comanda as condições de repouso e ajuda a conservar energia. Por outras palavras, ajuda as pessoas a manterem-se calmas.

Os cientistas não sabem exatamente porque é que os estímulos sensoriais positivos funcionam tão bem nas crianças. Alguns estudos sugerem que isto pode originar alterações microscópicas no sistema límbico frontal do cérebro, onde a aprendizagem emocional e a memória ainda estão em desenvolvimento nas crianças.

“Honestamente, estamos apenas a arranhar a superfície na compreensão destas coisas”, diz Steven B. Schwartzberg, neurologista pediatra da Healthcare Associates in Medicine. “Mas os terapeutas podem atestar que isto realmente funciona para muitas crianças.”

Como escolher o truque correto para os nossos filhos
Usar algumas destas técnicas antes de o nosso filho se sentar para trabalhar – ou mesmo quando está ansioso ou frustrado – pode fazer uma grande diferença. No entanto, nem todas as técnicas funcionam para todas as crianças.

“O cérebro de cada criança está conectado de forma diferente”, diz Judy Tran, terapeuta ocupacional em Los Angeles. “É por isso que estou sempre a pedir aos pais para procurarem os padrões pelos quais os seus filhos se sentem naturalmente atraídos.”

O objetivo, diz Judy, é encontrar o “estado correto”. As ideias que se seguem podem ajudar os nossos filhos a lidarem com alguns dos comportamentos de desconcentração mais comuns.

Questão 1: Não conseguir parar quieto
Truque sensorial:
Entrelaçar as mãos ou fazer força para as separar; puxar uma fita elástica; empurrar os pés contra um objeto estável.
Funciona porque: Todos estes exercícios fornecem “estímulos propriocetivos” que afetam os recetores sensoriais nos músculos e articulações. “Para dar um exemplo, costumo dizer às crianças para fingirem que estão a espremer uma laranja entre as mãos, para fazer sumo de laranja”, diz Judy Tran. Estas técnicas cansam os músculos, ou seja, proporcionam uma sensação de calma. “São exercícios que ajudam as crianças a sentirem-se mais calmas e estáveis”, acrescenta Judy.

Questão 2: Ficar frustrado e irritado
Truque sensorial:
Rodar lentamente numa cadeira de secretária; sentar; saltitar ou balançar suavemente numa bola de ioga; ficar de cabeça para baixo (por exemplo, sentar junto ao braço do sofá com a cabeça para baixo).
Funciona porque: Estas atividades concentram-se no sistema vestibular, que nos dá uma sensação de movimento. Esta sensação é estimulada pelo movimento do fluido dentro do ouvido interno, que se move sempre que as crianças se abanam, rodopiam, fazem movimentos repentinos ou ficam de cabeça para baixo.

“Em geral, os movimentos mais lentos são mais calmantes”, diz Judy. Estas atividades também ajudam as crianças a gastar energia e a libertar tensão – e o efeito calmante pode durar até oito horas.

Questão 3: Falta de concentração em frente ao ecrã ou papel
Truque sensorial:
Usar um chapéu ou capuz; usar óculos de sol levemente coloridos; reduzir o brilho do ecrã e usar mais luz natural.
Funciona porque: A criança pode estar a receber demasiados estímulos visuais – e as aulas online podem estar a piorar as coisas. “As crianças costumam colocar as mãos sobre as sobrancelhas, protegendo-se para se concentrarem”, diz Judy. “Ou podem baixar a cabeça de lado para que os olhos fiquem mais perto do papel.”

Reduzir o brilho do ecrã, arrumar o local de estudo ou até remover decorações distrativas pode ajudar a reduzir os estímulos visuais. “Há um motivo pelo qual uma divisão arrumada nos ajuda a concentrar”, diz Judy. Se os pais não tiverem tempo para fazer uma grande arrumação, podem colocar um lençol de cor sólida sobre os elementos distrativos enquanto as crianças estão a estudar.

Questão 4: Morder os lábios ou as unhas enquanto se tenta concentrar
Truque sensorial:
Petiscar alimentos crocantes como nozes, maçãs ou cenouras; beber por uma palhinha; comer algo com sabor azedo ou picante.
Funciona porque: “Imagine que está a comer uma refeição e só tem puré no prato. De repente, aparece uma cenoura ou outro alimento crocante”, diz Judy. Esta nova sensação vai chamar a nossa atenção. “As crianças que fazem isto estão à procura de um estímulo extra para os músculos da boca. Depois de receberem esse estímulo, conseguem concentrar-se.”

Questão 5: Perder a concentração com qualquer ruído
Truque sensorial:
Usar uma divisão tranquila; usar auscultadores que cancelem o ruído; ouvir música calma.
Funciona porque: Estas crianças são extremamente sensíveis aos estímulos auditivos e podem estar a cobrir parcialmente os ouvidos com as mãos, ou a cantarolar para si próprias, para abafarem os outros ruídos no seu ambiente. “As crianças podem estar a tentar encontrar uma ajuda para se concentrarem”, diz Judy. “Todas estas coisas reduzem os estímulos auditivos para que consigam fazer o seu trabalho.”


Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com.

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