As Notícias Podem Ser Confusas Para as Crianças. Saiba Como Torná-las Peritas em ‘Fact-checking’.

As notícias credíveis e as histórias falsas andam de mãos dadas na internet. As dicas que se seguem podem ajudar as crianças a discernir a verdade.

Monday, October 26, 2020,
Por Robin Terry Brown
Fotografia de Image Source / Getty Images

Com uma das eleições presidenciais mais polémicas da história dos EUA a aproximar-se rapidamente, ambas as campanhas estão a tecer histórias fortemente contrastantes sobre a América. Por vezes é difícil acreditar que ambas falam sobre o mesmo país.

Todos os dias, os órgãos de comunicação social comparam factos e mentiras que surgem durante a campanha. E os nossos feeds de redes sociais provavelmente estão inundados com notícias reais e informações incorretas que parecem exatamente iguais.

Portanto, o que é exatamente a verdade? Esta questão já é por si só difícil de responder para os adultos – e ainda mais difícil para as crianças compreenderem. Uma experiência conduzida pelo Instituto de Tecnologia de Massachusetts descobriu que cerca de 20% das vezes os adultos acreditam em “notícias” falsas. E numa sondagem feita pela Common Sense Media, menos de metade das crianças não conseguia distinguir entre histórias falsas e verdadeiras.

É difícil para as crianças perceber o ambiente confuso dos órgãos de comunicação da atualidade, sobretudo quando os próprios adultos também têm dificuldades na sua compreensão. As dicas que se seguem, retiradas do novo livro Breaking the News da National Geographic, oferecem passos simples que as crianças podem seguir para perceberem a diferença entre notícias autênticas e desinformação. Estas dicas ajudam as crianças a pensarem de forma independente e a tornarem-se cidadãos digitais responsáveis – para que não sejam apenas responsáveis por si próprias, mas também pelo que partilham com os outros.

Pare antes de clicar. Os estudos demonstram que as pessoas têm muito mais probabilidade de clicar num título ou partilhar uma publicação se isso as fizer sentir felizes, com raiva ou entusiasmadas. Isto é particularmente verdadeiro entre os jovens, que têm mais propensão para ler os chamados títulos clickbait. No entanto, os títulos mais sonantes também se costumam revelar os mais enganadores.

O melhor conselho para crianças e adultos, quando sentimos uma forte reação instintiva, é resistir ao impulso de partilhar de imediato essa publicação. Pare, respire e pense sobre o que o faz sentir-se assim. É um título ou uma imagem chocante? A linguagem usada faz declarações descabidas sem quaisquer factos para as suportar? Estes são os sinais indicadores de que a publicação pode ser falsa.

E como os títulos podem ser enganadores, as crianças devem lembrar-se de ler a publicação ou o artigo completo antes de o partilharem.

Verifique a fonte. As crianças podem não estar atentas às notícias diariamente, mas provavelmente absorvem algumas informações que se contrariam. Se o seu filho ficar confuso – e quem não ficaria? – incentive-o a interrogar-se sobre a única questão que o irá conduzir à verdade: qual é a fonte da informação?

As notícias verdadeiras incluem fontes para todas as informações apresentadas. (Se a notícia contém fontes anónimas, o artigo deve explicar as razões pelas quais o nome de determinada pessoa foi omitido.) Explique que uma notícia fidedigna fornece fontes para diferentes lados de uma questão e, de seguida, ajude o seu filho a identificar as fontes presentes na história; pesquisando os nomes das pessoas citadas, bem como as organizações que fornecem os factos e números.

E se uma notícia não oferecer quaisquer fontes? É um sinal de alarme de que essa notícia não é legítima.

‘Fact-checking’ de artigos suspeitos. Os mais novos nem sempre sabem que não devem acreditar em tudo o que leem. Eis alguns truques fáceis que as crianças podem usar para determinar se uma história rebuscada pode ser uma farsa, uma teoria da conspiração descabida ou simplesmente desinformação.

- Faça uma pesquisa na internet sobre o título do artigo ou da publicação para perceber se a história já foi identificada como sendo falsa. Se a história for verdadeira, outras organizações credíveis de notícias provavelmente escreveram artigos sobre o mesmo assunto.
- Se a publicação incluir uma fotografia, verifique se há sinais de que a imagem pode ser falsa: A imagem está esborratada em algumas zonas? Alguma das sombras parece fora do sítio? Há imagens duplicadas no fundo, ou parece uma colagem de diferentes imagens? As crianças também podem fazer uma pesquisa de imagens online para ver se a fotografia foi identificada como falsa.
- Se a publicação incluir um vídeo, pesquise o título do vídeo para perceber quem o criou. Essa pessoa parece legítima?
- Se o artigo vier de uma organização ou de uma conta de uma pessoa famosa nas redes sociais, verifique se a conta é real. Por exemplo, o Facebook e o Twitter colocam marcas de verificação a azul ao lado das contas que pertencem realmente a pessoas conhecidas.
- Verifique a data do artigo. Se não for recente, as informações podem estar desatualizadas.
- Em todos os casos, regresse à pergunta inicial: Qual é a fonte das informações?
- E o mais importante, se algo parecer demasiado descabido para ser verdade, ou parecer simplesmente errado, não partilhe.

Aprenda a identificar propaganda. Ao longo da história, as ações de propaganda têm seguido uma fórmula testada e comprovada que é surpreendentemente simples, mas extremamente eficaz – e por vezes muito destrutiva. Perceba se o seu filho consegue identificar algumas destas técnicas comuns de propaganda que são usadas por pessoas ou organizações nas notícias.

- Mensagens que usam as emoções das pessoas – como as suas esperanças, receios, raiva ou simpatia – em vez de dependerem de factos.
- Mensagens curtas e apelativas que usam slogans sonantes.
- Mensagens dirigidas a um público em específico. Os políticos elaboram as suas mensagens para atrair as pessoas cujo apoio desejam conquistar.
- Mensagens que culpam outras pessoas pelos problemas. Uma das formas mais nocivas de propaganda acontece quando se usam indivíduos ou grupos como bode expiatório – muitas vezes pessoas de cor ou imigrantes – culpabilizando-os pelos problemas da sociedade. Isto desperta o receio nos eleitores, propaga o racismo e pode colocar membros desses grupos em perigo. O uso de bodes expiatórios também pode ser uma forma eficaz para fazer com que as pessoas apoiem um determinado candidato.
- Mensagens repetidas até à exaustão. Quanto mais as pessoas ouvem estas mensagens, mais probabilidades têm de acreditar nelas.

Admita se cometer um erro. Uma sondagem descobriu que cerca de um terço das crianças já partilhou uma história que mais tarde descobriu que era falsa ou imprecisa. Se o seu filho partilhar acidentalmente uma história falsa, não precisa de se sentir envergonhado. Afinal de contas, os adultos (e talvez nós próprios) também fazem isso! Mas a atitude responsável é tentar impedir a divulgação de informações falsas com a publicação de uma nota a explicar que determinada publicação era falsa. O seu filho também pode encorajar os amigos a fazerem o mesmo, caso tenham partilhado essa informação falsa com outras pessoas.

ROBIN TERRY BROWN é autora de Breaking the News: What’s Real, What’s Not, and Why the Difference Matters. Após uma carreira de 17 anos enquanto editora sénior da National Geographic, Robin Terry Brown trabalha agora como escritora, editora e defensora da verdade.


Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com.

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