O Tempo Passado em Frente aos Ecrãs Está a Aumentar – e o Cyberbullying Também

Como identificar os sinais e ajudar os seus filhos.

Thursday, October 8, 2020,
Por Gulnaz Khan
Fotografia de First Glimpse Photography / Shutterstock

A psicóloga clínica Jamie Howard lembra-se de ter conversado recentemente com uma mãe que dizia ter percebido que a sua filha estava frequentemente no quarto a chorar. A adolescente acabou por revelar que as suas amigas tinham feito um grupo online sem ela, e que tinha ficado ansiosa sobre as razões pelas quais tinha sido excluída e pelo que podiam estar a dizer nas suas costas.

“Encorajámo-la a fortalecer outras amizades e a fazer novos amigos para reconstruir  a sua autoestima, e para não se esquecer de que é boa pessoa”, diz Jamie Howard, que é especialista em ansiedade e perturbações de humor no Instituto Child Mind. “Fizemos com que ela dançasse mais, passeasse o cão – atividades que naturalmente fomentam a autoconfiança.”

O caso mencionado por Jamie não é invulgar. De acordo com os Centros de Controlo de Doenças dos EUA, cerca de 33% dos alunos do ensino preparatório e 30% dos alunos do ensino secundário já sentiram os efeitos do cyberbullying. E com os períodos de confinamento trazidos pela pandemia, as crianças estão a passar mais tempo online.

Um estudo feito recentemente pela L1GHT analisou milhões de sites e plataformas sociais durante o início da pandemia de COVID-19. O estudo descobriu um aumento de 70% no bullying e na linguagem abusiva entre crianças e adolescentes nas redes sociais e fóruns de conversa; um aumento de 40% na toxicidade em plataformas de jogos; e um aumento de 200% no tráfego de sites de ódio.

Os professores também sentem dificuldades na gestão da segurança online devido ao encerramento dos estabelecimentos de ensino, e isto inclui o aparecimento de contas anónimas no Instagram que são usadas para intimidar alunos e “invasões-Zoom” durante as aulas online, quando um utilizador indesejado interrompe uma videochamada com gestos obscenos ou insultos raciais.

“Nós tivemos sempre problemas com o bullying”, diz Jamie. “Mas agora parece diferente.”

As vítimas de cyberbullying correm o risco de depressão, ansiedade, abuso de substâncias, baixa autoestima, desempenho escolar medíocre e um risco aumentado de comportamentos suicidas. Para além disso, as informações publicadas online são difíceis de apagar e podem afetar as perspetivas futuras de ensino e emprego. Nos EUA, este mês de outubro é o Mês Nacional de Consciencialização sobre Prevenção de Bullying e surge num momento em que as crianças passaram uma quantidade de tempo sem precedentes em frente aos ecrãs – eis como reconhecer, prevenir e responder ao cyberbullying.

Reconhecer os sinais de alerta de cyberbullying
O cyberbullying pode ser difícil de detetar porque não está sempre exposto ao público. As táticas mais comuns incluem a publicação de comentários maliciosos; propagação de boatos nas redes sociais; ameaças a alguém; incitações para a automutilação; publicação de fotografias ou vídeos embaraçosos; “doxing” (partilha de dados privados como endereços e números de telefone); ou a publicação de discursos de ódio relacionados com raça, religião ou orientação sexual de uma pessoa.

Os professores e colegas estão geralmente entre os primeiros a reconhecer os sinais de bullying, mas o afastamento social durante a nova aprendizagem virtual pode dificultar esta perceção. “As vítimas de assédio virtual costumam desabafar com um amigo, um mecanismo que as ajuda a lidar com a situação. Mas agora, com o isolamento social, é mais difícil ter acesso a colegas, conselheiros escolares e professores”, diz a médica Farah Khan, fundadora e diretora da MC Free Clinic em Iowa. “Durante a pandemia, o fardo de ser extra vigilante recai sobre os pais que já estão sobrecarregados com o resto.”

Farah Khan diz que, apesar de ser normal as crianças ficarem mais irritadiças durante a pandemia, os pais devem procurar alterações no comportamento típico dos seus filhos, incluindo um mau desempenho escolar, alterações no sono ou apetite, depressão, pensamentos suicidas e automutilação.

Os efeitos do cyberbullying podem ser muito semelhantes aos da depressão, diz Megan Moreno, investigadora principal da Equipa de Pesquisa em Redes Sociais e Saúde Adolescente da Universidade Wisconsin-Madison. Uma criança pode afastar-se dos amigos e familiares, não sair do quarto, olhar obsessivamente para o telemóvel ou computador, ou esconder o que está a fazer online. Megan diz que é crucial verificar e fazer perguntas abertas sobre o que estão a fazer online e como se sentem. (“Como é que foi a tua aula por videochamada? Viste alguma coisa nas redes sociais que te aborreceu?”)

O que fazer se o nosso filho estiver a ser assediado
Se os pais estiverem preocupados porque acreditam que o seu filho está a ser vítima de bullying, Megan diz que a melhor estratégia é serem sinceros sobre o que veem. (“Parece que vais ficar acordado até mais tarde, e já reparei que ficas cansado durante o dia. Queres conversar sobre o que está a acontecer?”) Se as crianças não se sentirem confortáveis em desabafar com os pais, podem falar com outros adultos com quem se sintam à vontade, como o pediatra, terapeuta, ou outro membro da família.

Se uma criança revelar um incidente de bullying, os pais não devem entrar em pânico. Os pais devem obter os factos, tranquilizar a criança e trabalhar com ela nas estratégias de resolução de problemas. Por exemplo, se tivermos um amigo da família em idade universitária – alguém mais próximo da idade do nosso filho – essa pessoa pode conversar com a criança sobre as formas como lidou com o bullying enquanto andava na escola. “Muitas pessoas já passaram por algo assim”, diz Jamie Howard. “Pode ser reconfortante saber que não somos os únicos e receber alguns conselhos de alguém que pensamos estar mais atualizado.”

Jamie também incentiva as crianças a passarem o máximo de tempo possível com as pessoas de quem gostam e a fazerem atividades que apreciam. “Neste momento é muito difícil porque as recomendações típicas são mais complicadas de implementar [durante a pandemia], pelo que temos de ser mais criativos.” Ou seja, a criança deve participar em atividades sociais que possa fazer em segurança, como receber amigos de confiança para almoçar no quintal, atividades ao ar livre ou almoçar com distanciamento social num parque.

Jamie também diz que a solução não passa por lhes retirarmos os dispositivos. “Neste momento, há muito menos coisas para fazerem. As crianças já estão em risco de depressão porque há uma escassez de atividades de reforço, pelo que privá-las do telemóvel não é recomendado.”

Se a criança conseguir evitar a pessoa que a está a assediar virtualmente – por exemplo, bloqueando-a nas redes sociais – Jamie diz que os pais não precisam necessariamente de intervir. Mas se a criança não conseguir escapar da situação e isso estiver a interferir com as suas capacidades de aprendizagem, chegou o momento de os pais se envolverem.

“As crianças têm o direito de frequentar a escola sem problemas desnecessários. Portanto, se precisam de estar numa aula por videochamada, mas se todos estão a gozar com ela ou a fazer coisas que o professor não se apercebe, os pais precisam de avisar a escola.” Jamie diz que os pais devem perguntar à criança se podem falar com o professor de uma forma que respeite a sua privacidade, ou perguntar se querem conversar em conjunto com o professor.

Jamie salienta que as crianças que intimidam outras crianças também precisam de ajuda. Estas crianças tendem a ser mais irritadiças, podem parecer arrogantes, cooperam menos com as regras da casa e podem até tratar mal os próprios pais. “Se os pais estiverem a enfrentar problemas com os comportamentos do filho, podem dizer: Tratas os outros assim? Como é que são as tuas amizades? Não é correto fazeres isto a outras pessoas.”

Independentemente de uma criança ser vítima ou autora de bullying, se estiver a passar por níveis elevados de sofrimento emocional ou a dar muito nas vistas, Jamie recomenda que se fale com um pediatra ou terapeuta.

Como ajudar a prevenir o cyberbullying
Farah Khan diz que uma das melhores formas de ajudar as crianças a enfrentarem o bullying é ensinar um comportamento online seguro e fomentar a resiliência através de um estilo de vida saudável.

Para além dos incentivos para uma dieta saudável, exercícios físicos e um bom sono, para manter as crianças a sentirem-se bem, Farah diz que os pais devem estabelecer regras sobre uma atividade online responsável. Isto inclui dizer para não partilharem informações pessoais, clicar em links desconhecidos, tirar fotografias explícitas, conversar com estranhos ou publicar comentários de teor ofensivo. A pandemia também pode ser uma oportunidade para os pais passarem mais tempo com os filhos, para aprenderem sobre eles e promoverem valores pró-sociais, como a tolerância e o respeito pelas diferenças dos outros.

“Faça perguntas sobre as experiências dos seus filhos online, diga-lhes que se podem abrir consigo e lembre-os de que eles não irão perder os seus privilégios”, diz Farah. (“Já reparei que passas muito tempo no TikTok. Como é que vai isso? As crianças estão a portar-se bem umas com as outras?”)

Jamie Howard diz que os pais também devem monitorizar o que as crianças estão a ler e a partilhar online, sobretudo se decidiram permitir que crianças com menos de 13 anos participassem nas redes sociais. Os pais devem ser honestos e dizer quando usam os controlos parentais ou a monitorização de software para ver as atividades dos filhos online. “Assim, as crianças sabem que os pais estão alerta e aprendem desde cedo que as suas publicações irão ser vistas por alguém de quem gostam.”

Por fim, os pais devem capacitar os seus filhos para se saberem defender e discutir estratégias de intervenção. Alguns estudos revelam que os espetadores passivos podem desempenhar um papel importante nos resultados de bullying. Um estudo descobriu que em 57% dos casos em que um espetador interveio, o bullying parou em 10 segundos. As crianças que são defendidas pelos seus colegas também sentem menos depressão e ansiedade.

Se uma criança testemunhar um caso de bullying em tempo real, pode intervir e questionar esse comportamento, pode mudar de assunto, pode suavizar a situação com sentido de humor, pode fazer afirmações positivas sobre o alvo de bullying e pode até entrar em contacto com essa pessoa em particular para ela saber que não está sozinha. As crianças também podem ajudar a evitar que o bullying aconteça, sendo inclusivas e abertas umas com as outras e conversando com um adulto de confiança quando estão preocupadas com alguém.

“Capacite as crianças para se defenderem e elogie-as pelos comportamentos positivos”, diz Jamie. “Pode existir uma forte sensação de orgulho em fazer o que está correto e defender os valores em que acreditamos.”


Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com.

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