Os Nossos Filhos Querem Socializar. A Ciência Diz que É Uma Necessidade.

A razão pela qual é tão difícil manter as crianças separadas pode estar no seu ADN.

Tuesday, October 27, 2020,
Por Rebecca Renner
Fotografia de mikimad / Getty Images

Nicholas Barnes, de 11 anos, foi sempre uma criança social. Antes da pandemia, a sua agenda preenchida incluía a escola, os escuteiros, os treinos de basquetebol, a igreja e as brincadeiras com os amigos no seu bairro em Winter Park, na Flórida.

Agora, as únicas pessoas que Nicholas vê pessoalmente são os seus pais e os dois irmãos mais velhos. Mas mesmo antes de começar a ter aulas online, as suas interações com outras pessoas já eram extremamente limitadas. Em julho, durante uma pequena festa de aniversário para o seu irmão mais velho que envolveu apenas a sua família, Nicholas teve problemas em conseguir descrever o que sentia em relação a esse encontro. “Gostei de ver as pessoas da minha família a desfrutar de estar perto umas das outras.” É um sentimento complexo sobre o qual ele nunca tinha pensado antes. Mas também é um sentimento que está profundamente enraizado nos nossos genes e que ajuda a explicar porque é que o isolamento social devido à pandemia é particularmente difícil para as crianças.

Os humanos evoluíram para precisarem uns dos outros. Em parte devido a muitas destas razões, as crianças também precisam umas das outras. Os nossos antepassados primatas eram criaturas solitárias que raramente interagiam para além das suas pequenas unidades familiares, como acontece com os bebés humanos da atualidade. Mas depois, há milhões de anos, os primeiros humanos começaram a unir-se, o que levou ao desenvolvimento de capacidades de comunicação e linguagem. Da mesma forma, assim que as crianças passam da primeira infância, as suas brincadeiras tornam-se mais cooperativas e as suas capacidades linguísticas aumentam.

Para os nossos antepassados primatas, o desenvolvimento da linguagem significou um aumento nos seus cérebros, que evoluíram para recompensar o comportamento social. E também observamos estas recompensas nas crianças. A interação com outras crianças permite que aprendam novos comportamentos, inspirando a sua curiosidade, criatividade e dando-lhes a oportunidade de descobrirem quem são. As crianças precisam de socializar. A biologia compele-as a agirem desta forma.

“A interação social é motivacional”, diz Lori Markson, professora-adjunta de ciências de psicologia na Universidade de Washington, em St. Louis. “É algo que potencia e impulsiona a nossa capacidade de aprendizagem. Olhamos para os outros como recursos, e as crianças prestam atenção às interações sociais desde muito cedo.”

Para a maioria das crianças, isto significa que a aprendizagem de comportamentos sociais, ou o envolvimento em trabalhos escolares mais difíceis, costuma ser muito mais fácil em grupos do que individualmente, diz Lori. Mas neste momento isso pode ser difícil, dado que muitas crianças estão a ter aulas online ou a lidar com interações físicas que estão limitadas por protocolos de distanciamento social.

“As videochamadas, onde se recebem algumas sensações sociais ou feedback social, não são a mesma coisa.”

Mesmo que algumas crianças consigam obter bons resultados nas aulas virtuais, Lori salienta que muitas perdem a motivação para participar em atividades que costumavam gostar, porque não as podem fazer com os amigos. Mas se os pais conseguirem compreender a ciência que faz com que os seus filhos precisem de socializar, isso pode ajudá-los a lidar com estes desafios – e descobrir novas formas de socialização.

Estamos programados para sermos sociais
Uma das formas pelas quais as crianças se desenvolvem socialmente é trabalhando em conjunto. Não se trata apenas de uma capacidade de vida que aprendem no infantário: é algo que os nossos antepassados primatas desenvolveram há milhões de anos. Para sobreviver, os nossos antepassados tiveram de aprender a cooperar para desenvolver ferramentas e caçar.

“Somos intensamente sociais, assim como os macacos”, diz Robin Dunbar, antropólogo evolucionário da Universidade de Oxford. “Dependemos da cooperação ao nível de grupo para resolver problemas de sobrevivência do quotidiano e para uma reprodução bem-sucedida. Esta é, acima de tudo, a adaptação primata.”

Embora as crianças não estejam a aprender a caçar, estão a desenvolver aptidões sociais vitais de cooperação através de brincadeiras. Isso, por sua vez, faz com que se sintam bem, porque este tipo de socialização liberta endorfinas, as hormonas do sistema nervoso que nos fazem sentir alegres ou relaxados.

“Estamos programados para procurar este envolvimento e interação social, porque isso preenche muitas das nossas necessidades e impulsiona o desenvolvimento”, diz Lori. “Mas, ao mesmo tempo, começamos a desejar e a querer isso, e esses sentimentos positivos motivam-nos a interagir.”

Socializar ajuda o desenvolvimento infantil
Desde que Nicholas viu os seus amigos pela última vez, começou a usar óculos novos, tem um novo corte de cabelo e novos passatempos. A sua mãe, Nicole Barnes, acredita que Nicholas está na idade em que as crianças começam a descobrir o que vão ser quando forem adultos.

“As crianças da idade de Nicholas estão a passar por uma transformação”, diz Nicole, professora de inglês do ensino secundário. “Mas, para ele, esta transformação vai acontecer dentro da nossa casa. Portanto, a sua procura por identidade e lugar no mundo estão em suspenso.”

Nicole toca num conceito que os antropólogos evolucionários estudam há décadas: o conceito de que a socialização ajuda as crianças a formarem-se enquanto adultos.

Na verdade, alguns antropólogos acreditam que a aprendizagem social é a única razão pela qual existe infância, o período de crescimento onde os jovens são cuidados e aprendem com os mais velhos. Na época do Pleistoceno (também conhecida por Idade do Gelo), o Homo habilis, um dos nossos antepassados hominídeos mais recentes, tornou-se no primeiro a passar pelo estágio de vida distinto a que chamamos infância. Antes disso, os cientistas especulam que os descendentes de hominídeos juntavam-se aos seus grupos de parentesco em papéis de adultos, pouco tempo depois de terminarem o período de amamentação.

Agora, este estágio social de infância está programado nas crianças. O nosso código genético faz com que as crianças mais novas explorem o mundo que as rodeia e faz com que aprendam como se devem comportar. As crianças mais velhas e os adolescentes usam a aprendizagem social para navegarem pelas suas emoções, personalidades e desejos. Por outras palavras, para as crianças, socializar ensina-lhes quem são.

“À medida que as crianças se desenvolvem, olham para os outros e começam a fazer comparações entre essas pessoas e elas próprias”, diz Lori. “Estes tipos de comparações sociais influenciam a forma como desenvolvem o seu sentido de eu e a sua identidade.” Esta noção de identidade e pertença é vital para o desenvolvimento porque ajuda as crianças a cultivarem a estabilidade emocional e a resiliência, duas das coisas de que os adultos precisam para serem bem-sucedidos, independentemente do que queiram fazer na vida.

Manter as vidas sociais das crianças intactas
Apesar de grande parte da vida normal estar neste momento em suspenso, o isolamento social total não é realista – ou sequer natural – para a maioria das crianças. Para garantir um bom desenvolvimento social de uma criança, ela precisa de brincar e interagir com os seus colegas, assim como os nossos antepassados fizeram ao longo de milhões de anos.

Quando os nossos antepassados primatas se começaram a reunir em grupos cada vez maiores, precisaram de desenvolver mecanismos que recompensassem o comportamento de parentesco, semelhante ao que acontece quando cuidam dos pelos uns dos outros. Da mesma forma, quando as crianças interagem virtualmente, os seus cérebros libertam mais substâncias neuroquímicas que as fazem sentir ligadas aos amigos, isto se estiverem a fazer algo juntos, em vez de estarem apenas a conversar.

Por exemplo, Ozlem Ayduk, professora de psicologia na Universidade da Califórnia, em Berkeley, incentiva os seus filhos a fazerem regularmente jantares por videochamada com os amigos. A junção de comida e gargalhadas aos rituais online ajuda as crianças a imitarem as interações pessoais – pelo menos para os seus cérebros.

Criar um ritual social regular é outra forma de desencadear a libertação destas substâncias químicas de ligação e bem-estar. Para Nicholas, isto significa manter um encontro diário ao telefone com o seu melhor amigo para conversar e jogar Minecraft durante duas horas.

Para além disso, se for feita corretamente, uma “bolha” de quarentena com uma ou duas outras famílias também pode dar às crianças a oportunidade de socializar e desenvolver ferramentas de aprendizagem social. (Bónus: Estas “bolhas” também podem dar aos pais um alívio muito necessário do isolamento!)

“Mesmo que as crianças estejam a perder um dos aspetos críticos do seu desenvolvimento, é importante ter em mente que isto é apenas temporário”, diz Lori. “Os humanos, sobretudo as crianças, são muito resilientes e vamos ultrapassar isto. Vamos ficar todos bem.”


Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com.

Continuar a Ler