Como Fomentar Uma Atitude de Gratidão nas Crianças

Eis as razões pelas quais as crianças gratas lidam melhor com os desafios – incluindo os desafios enfrentados durante este ano inteiro.

Wednesday, November 11, 2020
Por Heather Greenwood Davis
Uma demonstração de gratidão para com os profissionais de saúde em Ontário.

Uma demonstração de gratidão para com os profissionais de saúde em Ontário.

Fotografia de f:nalinframe / Alamy

O ano começou de forma muito promissora. Mas em abril já poucas pessoas sentiam razões para estarem gratas.

O desemprego afetou os planos de viagens. As preocupações com a saúde invalidaram as resoluções de Ano Novo. Pais e filhos isolaram-se. Agora, uma vaga de infeções por COVID-19 no inverno ameaça arruinar tudo, desde planos de festas de aniversário a tradições de festividades.

É o suficiente para fazer com que qualquer pessoa – sobretudo as crianças – se sinta desamparada. Mas os especialistas dizem que ensinar as crianças a ter uma mentalidade de gratidão pode ajudá-las a enfrentar este desafio e os que ainda estão por vir.

“A gratidão é como um ingrediente secreto para a felicidade, ou um superpoder para fomentar sentimentos positivos”, diz a pediatra Hina Talib, que se especializou em medicina para adolescentes no Hospital Infantil em Montefiore, Nova Iorque. “Nunca houve um momento mais importante para os jovens exercitarem os seus músculos de gratidão.”

As recompensas vão muito para além de uma sensação momentânea de felicidade. Segundo os especialistas, as pessoas gratas tendem a ser mais resilientes, mais empáticas e compassivas.

“Expressar gratidão liberta oxitocina no cérebro, o que promove um sentimento de empatia, calma, confiança e uma sensação de segurança”, diz Elaine Uskoski, escritora e formadora de pais. “Para além disso, ter a capacidade de procurar uma perspetiva positiva durante tempos difíceis dá à criança a oportunidade de controlar a sua resposta emocional. Uma criança terá portanto menos probabilidades de sentir medo, ansiedade e uma sensação de impotência”.

De acordo com Andrea Hussong, psicóloga clínica e professora na Universidade da Carolina do Norte, em Chapel Hill, os benefícios sociais e cognitivos proporcionados pela gratidão podem ser a razão pela qual os jovens que vivem mais momentos de gratidão sentem menos depressão, têm relacionamentos mais satisfatórios e maior satisfação na vida.

Está pronto para fomentar uma atitude de gratidão no seu filho? Eis o que os especialistas sugerem.

Ajude as crianças a demonstrar uma apreciação genuína
Por exemplo, a mãe está correta quando pede ao filho para escrever um bilhete de agradecimento à tia Audrey pela camisola que ele detestou. Mas o grande objetivo é fazer com que a criança expresse gratidão que vem de um lugar de apreciação genuína.

Num estudo feito recentemente por Andrea Hussong, a psicóloga clínica descobriu que a gratidão era genuína quando alcançava quatro objetivos principais:

- Se expressar gratidão ajudou as crianças a dar valor a um presente que queriam, incluindo coisas que já possuem, experiências e relações.
- Se isso as ajudou a pensar sobre o motivo pelo qual receberam determinado presente, e o que foi necessário para alguém lhes dar isso, ou o que fez com que recebessem esse presente.
- Se associaram os sentimentos positivos sobre um presente às pessoas e experiências por trás desse presente.
- Se encorajou atos genuínos de agradecimento a quem lhes ofereceu um presente.

Navegar por entre estes quatro objetivos ajuda o seu filho a expressar gratidão de forma sincera e honesta, e ajuda a obter os referidos benefícios físicos e emocionais. Por exemplo, o seu filho pode reparar que a camisola oferecida pela tia Audrey tem borboletas, que ela sabe que o seu filho gosta; pense sobre o facto de a tia Audrey ter reservado tempo para escolher um presente pessoal; saliente como é boa a sensação de se receber este tipo de atenção; depois, reserve um tempo para telefonar ou escrever um bilhete de agradecimento pelo presente. Tudo isto contribui para criar uma sensação genuína de gratidão, explica Andrea.

Isto não significa que o seu filho tem de ficar feliz com a camisola. Elaine Uskoski sugere que se dê um momento às crianças para expressarem o seu desalento, antes de se passar à fase em que se fomenta a gratidão. “É normal que as crianças se sintam tristes ou zangadas com a deceção, e é importante os pais permitirem que os filhos expressem essas emoções e que as reconheçam”, diz Elaine. “Só depois é que a conversa sobre gratidão deve começar.”

Modele a gratidão
Os pais que se habituaram a expressar a sua própria gratidão provavelmente irão ver os seus filhos a fazerem o mesmo. Pode ser tão simples quanto partilhar o que as crianças desejam todas as manhãs, ou verbalizar por que razão vão enviar uma carta pelo correio.

As mães e os pais também podem reforçar uma atitude de gratidão quando alguma coisa não corre conforme planeado. Está a chover no dia em que a família tinha planeado fazer um piquenique? Tente fazer uma festa com comida em casa. O professor foi substituído à última da hora por alguém que o seu filho ainda não conhece? Reformule a situação como uma oportunidade para o seu filho conhecer uma pessoa nova. (Talvez este professor também goste de Star Wars!) Elaine diz que, quando as coisas não correm conforme planeado – e isso vai acontecer – uma criança grata conseguirá descobrir algo de positivo nisso.

“Nestas situações, é importante conversar com as crianças e dizer que elas podem não gostar de determinadas condições meteorológicas, ou que nem sempre irão ter o professor que esperavam”, diz Elaine. “Mas podem aprender a adaptar-se e a continuar a estar gratas por coisas como a natureza, comida na mesa e educação.”

Reconheça a gratidão do seu filho
Se observar o seu filho a fazer algo de bom para um amigo, reconheça isso. Mas mantenha sempre a conversa a fluir. “As conversas também são uma ferramenta poderosa”, diz Andrea Hussong. “Os pais podem perguntar se as crianças repararam em alguma coisa, o que sentiram, o que pensaram e fizeram nos momentos em que um amigo foi para além de um simples ‘obrigado’ e revelou uma apreciação mais profunda.”

Nos casos em que se perde uma oportunidade de gratidão, fale sobre isso também. Isto pode ajudar os pais a compreenderem quaisquer barreiras que uma criança precise de superar para sentir gratidão. “Os pais podem oferecer aos filhos outras formas de encarar estes momentos e ajudá-los a aprender aptidões nestas situações mais difíceis”, acrescenta Andrea.

Pratique a gratidão como uma forma de retribuição
Expressar gratidão como uma forma de retribuição também pode ajudar uma criança a tornar-se num melhor membro da comunidade, alguém que se preocupa com os outros e que deseja que também tenham as mesmas experiências pelas quais a criança está grata. Isto é algo que Andrea chama “gratidão virtuosa”.

“Devemos expressar gratidão de formas que vão para além de um simples ‘obrigado’ a alguém que nos ofereceu alguma coisa”, diz Andrea. As crianças podem contribuir para um banco alimentar porque estão gratas por terem acesso a comida saudável, mesmo que nunca tenham necessitado dos serviços de um banco alimentar; ou podem apanhar lixo no parque local porque estão gratas pela existência de espaços como estes na sua comunidade – um sentimento que, por exemplo, pode ter sido inspirado por uma caminhada que fizeram durante as férias.

“Quer se trate de injustiça social, alterações climáticas ou de uma pandemia, a forma como nos ligamos aos outros, a forma como compreendemos e apoiamos os outros, é a forma como cultivamos as comunidades que nos protegem e cuidam de nós”, diz Andrea. “Estas ligações estão no cerne da importância da gratidão.”

Fomente rotinas de gratidão
Escrever um diário e meditar são boas opções para ajudar as crianças a identificar e expressar as coisas pelas quais estão gratas, diz Hina Talib. Para as crianças mais velhas, Hina recomenda uma abordagem de “três coisas boas”.

“Todas as noites, as crianças podem escrever três coisas que correram bem, coisas que as fizeram sorrir ou pelas quais estão gratas naquele dia. Bastam alguns detalhes e a forma como isso as fez sentir.”

Mantenha as coisas simples, mas certifique-se de que o seu filho está a escrever – e não apenas a pensar nisso, diz Hina. Com a prática, os resultados podem aparecer numa semana. De acordo com Hina, os estudos demonstram que, com este processo, podemos ficar 2% mais felizes numa semana, 5% num mês e 9% em seis meses. (Descubra como pode ajudar as crianças a começarem a escrever um diário.)

As crianças mais novas podem tentar encher um “frasco de gratidão” com coisas simbólicas ou com pequenas anotações que servem como um lembrete visual para praticar gratidão. Independentemente do que os pais escolham fazer, devem certificar-se de que esta rotina é algo com que os filhos concordam. Se eles gostarem de o fazer, é mais provável que continuem.

Depois, os pais devem continuar a reforçar as razões pelas quais os filhos o estão a fazer. “Ouçam com atenção para lhes mostrarem que se preocupam – com a gratidão e com eles”, diz Andrea Hussong. “Porque, ao final do dia, a gratidão tem o objetivo de nos ligar, e quando os pais estabelecem uma ligação com os filhos, a gratidão certamente aparecerá.”


Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com.

Continuar a Ler