A Música Pode Ser a Ferramenta Perfeita Para Mitigar os Efeitos de Stress nas Crianças

Não deixe que o cancelamento das aulas de música afete a melhoria da saúde das crianças.

Thursday, November 12, 2020
Por Gulnaz Khan
Fotografia de Jose Luis Pelaez Inc / Getty Images

Quando a COVID-19 forçou as escolas a encerrar na primavera passada – e manteve muitas escolas fechadas neste outono – Susan Darrow temeu que o ensino musical fosse deixado para trás.

“Muitas escolas ainda abordam as artes e a música como um extra”, explica Susan Darrow, CEO do programa Music Together, programa que se destina às crianças na primeira infância. “O ensino musical é [frequentemente] a primeira coisa a ser cortada.”

Quando Susan começou a receber pedidos para providenciar recursos musicais, tanto de pais como de escolas, ficou animada por passar as aulas do seu programa para a vertente online – sobretudo porque acredita que, agora mais do que nunca, as crianças precisam de música.


“A música pode ajudar-nos a aliviar o stress naturalmente”, diz Susan. “Se pensarmos sobre o que acontece quando cantamos uma música no carro, ou quando dançamos na cozinha, sentimo-nos logo melhor. Isto acontece porque as substâncias químicas que nos fazem sentir bem são libertadas quando cantamos e dançamos, e a música liga-nos a outras pessoas. São estas as coisas de que todos precisamos agora”

Apesar de as aulas de música presenciais, os ensaios das bandas e dos grupos de canto poderem ter sido cancelados ou limitados devido à pandemia, os pais ainda podem incorporar música nas rotinas diárias das crianças. Estes conceitos simples podem proporcionar muitos benefícios.

Espécie musical
Nós já nascemos criaturas musicais. “Fazer música é uma das poucas coisas que aparece em todas as culturas, regiões e atividades ao longo da história”, diz Susan. “O que isto nos deve dizer é que ser musical faz parte do que é ser humano.”

De facto, os estudos demonstram que a música desempenha funções semelhantes em diferentes culturas pelo mundo inteiro – usamos música para acalmar bebés, para dançar, para sarar e expressar amor. Um estudo descobriu que os canadianos conseguem identificar com precisão a tristeza, a alegria e a raiva nas ragas clássicas indianas, sugerindo que a música é uma espécie de linguagem transcendente.

De uma perspetiva evolucionária, os primeiros humanos usavam a música como uma atividade que criava laços e promovia a coesão social – o tipo de cooperação em grupo que nos permitiu sobreviver e prosperar enquanto espécie. Portanto, não é surpresa para ninguém que estamos programados para responder à música.

Música e saúde cerebral
A música oferece benefícios que vão para além dos laços sociais – afeta-nos a nível biológico.

Por exemplo, o envolvimento em atividades musicais agradáveis liberta hormonas estimulantes e de bem-estar, como endorfinas e dopamina, o que pode explicar as razões pelas quais os adultos que se movem em sincronia com a música alegam gostar mais uns dos outros e confiar mais uns nos outros. Nos estudos feitos com bebés prematuros nos cuidados intensivos, ouvir música estabilizou as suas frequências cardíacas e respiratórias, melhorou a alimentação e o aumento de peso, e levou a padrões de sono mais tranquilos. As pessoas que fazem musicoterapia com profissionais licenciados mostraram melhorias no humor e na concentração, e redução da dor, ansiedade, fadiga e da produção de cortisol, a hormona do stress – sem recorrerem a medicamentos.

Nas crianças, tocar um instrumento musical está associado a uma melhor organização e ao crescimento das áreas do cérebro responsáveis pelo raciocínio, memória, regulação de emoções e coordenação motora. “Aprender música auxília todas as formas de aprendizagem”, diz Susan. “Não há praticamente nada que possamos fazer que consiga iluminar tantas partes do cérebro como a música.”

Estes benefícios não se limitam apenas aos ambientes pedagógicos. As investigações demonstram que o simples ato de ouvir música envolve ambos os hemisférios do cérebro, ativa o sistema de recompensa do corpo e facilita o desenvolvimento cerebral, independentemente de as crianças receberem treino formal ou não.

Criar um ambiente familiar musical
Considere incorporar música na vida quotidiana do seu filho como parte de uma intervenção de bem-estar, podendo assim fomentar a resiliência num momento em que as crianças estão a passar por um stress significativo. “E se prescrevêssemos música, exercícios, nutrição, sono saudável e [técnicas] de respiração?” diz James Hudziak, professor de psiquiatria, pediatria e medicina na Universidade de Vermont. “Em vez de serem coisas más a afetar negativamente o cérebro, podem ser coisas boas a fazê-lo.”

Independentemente de os seus filhos terem aulas de música presenciais ou estarem apenas a começar a sua jornada musical, Susan Darrow diz que os professores mais importantes são geralmente a mãe e o pai. “Deixe que o seu filho o veja e ouça a cantar, deixe que eles o vejam a dançar”, diz Susan.

Os pais devem fazer da música um hábito natural e diário. “Eu conheço famílias que fazem festas de dança todas as noites depois de jantar – basta pôr música a tocar e todos desfrutam na sala de estar. Também se pode fazer uma sessão musical na cozinha em família, com panelas, frigideiras e espátulas. Os pais também podem estabelecer um ritual noturno e cantar para adormecer os filhos.”

Para os pais que não têm uma inclinação musical, Susan Darrow tem boas notícias: “Não importa o quão bem o conseguimos fazer. Enquanto pais, se não conseguimos cantar no tom correto ou acompanhar o ritmo, os nossos filhos não aprendem a cantar connosco, mas aprendem a gostar de cantar connosco.”

James Hudziak incentiva as famílias a dedicarem alguns minutos à apreciação de música todos os dias, seja a praticar com um instrumento ou a assistir a uma transmissão ao vivo na internet. Pode ser tão simples quanto ouvir uma música e bater o pé, ou acompanhar uma música a cantar. James também recomenda estas atividades de envolvimento musical do Centro de Vermont para Crianças, Jovens e Famílias.

Apresente uma variedade de géneros musicais às crianças e tente ouvir música sem outras distrações, para as crianças se habituarem a prestar atenção à música. Há muitos recursos online gratuitos que podem ajudar. A Metropolitan Opera tem transmissões de ópera gratuitas e a Berliner Philharmoniker tem uma lista de reprodução digital gratuita.

A chave, diz James Hudziak, é garantir que as crianças não se sintam pressionadas a atuar como profissionais – deve ser uma coisa divertida. “Devemos fazer da aprendizagem musical uma alegria, um benefício”, diz James. “Isto chama-se treino comportamental baseado em incentivos e podemos usar técnicas como recompensar uma hora de prática musical com tempo extra para jogar um videojogo. Isto não só reforça um comportamento positivo, como também pode fazer com que as crianças se envolvam em atividades saudáveis por conta própria, porque as próprias atividades se tornam intrinsecamente gratificantes.”

“Se acredita que as coisas más levam a resultados negativos, então tem de acreditar que as coisas boas também podem levar a resultados positivos”, diz James. “Se não tivermos música, exercício, e uma boa respiração e higiene de sono, estamos na realidade a contribuir para... problemas emocionais e para o declínio académico. Não há maior alegria do que introduzir alguém ao mundo da música e ver isso a transformar a sua vida.”


Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com.

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