A Pandemia Pode Estar a Mudar a Forma Como as Crianças Oferecem Presentes

Os especialistas dizem que as férias de Natal podem ser um bom momento para redefinir as expectativas dos jovens em relação a oferecer e a receber presentes.

Publicado 10/12/2020, 17:02 WET

   

Fotografia de Westend61 / Getty Images

Nos últimos anos, durante as férias de Natal, a família Lewis ansiava pela sua viagem anual para ver a família no Utah. Mas isso não vai acontecer este ano. “A minha mãe tem muito medo do vírus e pediu-nos para não a visitarmos, o que é perfeitamente compreensível”, diz Ashley Lewis, cujos filhos têm 7 e 10 anos.

Em vez disso, esta família vai ficar em casa e vai tentar adicionar algumas atividades extra nas férias. E os presentes?

“Provavelmente vamos comprar mais presentes, porque não temos nenhum tipo de diversão a viajar”, diz Ashley.

Os planos da família Lewis podem refletir as expectativas que muitas famílias têm para este ano. Os especialistas em vendas a retalho prevêem muito menos gastos em viagens, o que significa que as famílias podem ter mais dinheiro para gastar em presentes físicos. E os especialistas da indústria, como Rod Sides, vice-presidente da Deloitte, e Natalie Kotlyar, associada da BDO USA (ambas empresas de consultoria que monitorizam as tendências de consumo durante as férias de Natal), prevêem que os gastos cairão ligeiramente devido ao declínio da economia, mas acreditam que os consumidores vão comprar muitos brinquedos, tecnologia, jogos de tabuleiro, puzzles e bicicletas – coisas para usar enquanto estamos confinados em casa.

Contudo, este foco maior em presentes físicos pode fazer com que os pais se interroguem sobre como devem abordar a época de férias de Natal de uma forma que maximize a diversão, mas que também ensine às crianças lições positivas sobre dar e receber presentes. Felizmente, alguns especialistas, como a psicóloga infantil Lisa Damour, dizem que alguns dos “benefícios” inspirados pela pandemia – tempo extra passado em casa e uma ênfase renovada na família – oferecem aos pais a oportunidade de abordar as coisas de uma forma diferente e desenvolver algumas aptidões importantes.

“Há aspetos de redefinição na pandemia que nos podem impedir de fazer as coisas de determinada maneira, porque sempre as fizemos dessa forma”, diz Lisa Damour, que também faz o podcast Ask Lisa: The Psychology of Parenting. “Pode existir o risco de sentirmos que cada ano tem de ser maior e melhor do que o anterior, sobretudo à medida que as crianças envelhecem, e é por isso que, se os pais sentirem que se devem redefinir as coisas de forma saudável, então não devem desperdiçar esta oportunidade.”

Os benefícios de oferecer presentes para a saúde mental

O processo usado por uma criança para oferecer presentes pode ser por vezes um pouco, digamos, egoísta. (“Eu adoro basquetebol, portanto é óbvio que a avó vai gostar de uma camisola da minha equipa.”) Mas como a pandemia provavelmente fez com que as crianças refletissem mais sobre o que é realmente importante – por exemplo, a saúde do avô, ou passar mais tempo com o melhor amigo – os pais podem ajudar as crianças a redefinir o seu processo de foco sobre o que é importante para quem recebe, e não para quem dá.

E isto é importante para o desenvolvimento das crianças, diz Deborah Pontillo, psicóloga pediátrica e diretora da San Diego Kids First / San Diego Therapy First.

“É algo que desenvolve uma aptidão social crucial chamada tomada de perspetiva”, diz Deborah. “Trata-se de aprender sobre o destinatário, e de aprender que aquilo que a mãe gosta é diferente daquilo que o pai gosta, e isso ajuda as crianças a estabelecerem ligações, porque aprendem sobre as perspetivas e preferências das outras pessoas.”

Por exemplo, Deborah diz que ensinar as crianças a pensarem sobre o que um indivíduo pode gostar – que o pai gosta de bolachas, mas a mãe não, ou que a avó não pode receber flores porque é alérgica – ajuda as crianças a compreenderem as perspetivas de outras pessoas. E isso, acrescenta Deborah, pode ajudar as crianças a tornarem-se pessoas mais atenciosas.

Pensar nos tipos de presentes que se devem oferecer também pode resultar em novos e criativos projetos de artesanato. “Tente ligar os pontos”, diz Deborah. “Perceba os interesses das crianças e ajude-as a sintonizarem-se com os interesses e preferências das pessoas a quem querem oferecer algo. Se a avó gosta de flores e o seu filho tiver jeito para desenhar, talvez a avó fique feliz com um desenho de flores.”

Oferecer presentes também ajuda as crianças a praticarem e a desenvolverem empatia. “As crianças são instintivamente empáticas”, diz Lisa Damour. “Devemos desenvolver estes instintos, pedindo-lhes para imaginarem o que faria outra pessoa feliz.” Assim, as crianças podem ter prazer em ser generosas e pensar nas outras pessoas.

Oferecer de forma menos materialista

A pandemia também pode ajudar os pais a redefinirem as expectativas de uma criança, seja para comprar ou receber presentes caros. Mesmo que a sua família não esteja a lidar com problemas financeiros, este pode ser um bom momento para lembrar às crianças que muitas pessoas estão a passar por isso e que é importante concentrarem-se no processo de oferecer presentes com significado, em vez de coisas materiais.

“Não queremos passar a mensagem de que a felicidade depende de posses materiais”, diz Lisa.

De facto, há vários estudos que dizem que colocar demasiada ênfase nos bens materiais durante a infância acaba por dar origem a adultos mais insatisfeitos. Um estudo de 2015 publicado na Journal of Consumer Research revelava que as crianças educadas com um foco no materialismo acreditavam que possuir coisas dispendiosas significava que elas eram mais bem-sucedidas e atraentes. E um artigo de 2017 publicado na Journal of Consumer Psychology sugeria que, para as crianças, construir a sua identidade com base na posse de bens tangíveis podia resultar numa identidade menos estável e numa criança menos confiante em geral.

Envolver as crianças no processo de oferecer presentes pode ser uma ótima forma para modelar qualidade e consideração em detrimento de quantidade ou custo, diz Lisa. Isto pode ajudar os seus filhos a procurarem na internet e a escolherem um presente para comprar para os avós, sem valorizarem despropositadamente os itens mais caros.

“Não quero sugerir que é errado gostar de coisas mais caras”, acrescenta Lisa. “Os pais podem dizer que essas coisas são boas, mas que as coisas mais importantes para a felicidade das crianças serão sempre as relações que mantêm com as outras pessoas.”

Presentes DIY

Este ano, incentivar as crianças a fazerem presentes atenciosos para os amigos e familiares pode ajudar a exercitar os músculos que ajudam a colocar as coisas em perspetiva, bem como mostrar às crianças que se devem concentrar em presentes menos materialistas. Deborah acrescenta que isso pode resultar em novas memórias e tradições.

“Os trabalhos manuais que se podem fazer em casa dão origem a presentes que podem criar um novo conjunto de memórias positivas para as crianças”, diz Deborah.

Por exemplo, Ashley Lewis está a pedir ao seu filho Xavier – que tem jeito para desenhar – para oferecer desenhos feitos por ele. Devido à pandemia, as crianças também podem experimentar ideias que não exijam uma viagem aos correios: por exemplo, gravar uma música, dançar, tocar, escrever um poema ou fazer um “concerto” e enviar esses presentes pela internet para a família e amigos.

“Eu pedi aos meus filhos para gravarem vídeos deles a tocar piano e a dançar, para enviar para a minha mãe”, diz Ashley. Seguem-se algumas ideias para a criação de presentes artesanais e personalizados que pode fazer em casa:

- Anéis para guardanapos feitos com arame e contas coloridas;
- Marcadores para livros pintados com aquarela;
- Suportes para canetas feitos com peças LEGO;
- Tigelas feitas de argila para modelar;
- Apoios de teclado para o pulso feitos com sacos de refrigeração enchidos com arroz e envoltos em tecido;
- Revestimentos de feltro para latas, copos e garrafas;
- Cachecóis decorados com tinta para tecido;
- Molduras de fotografias pintadas.
 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com.

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