Este Ano Tudo é Diferente – o Stress das Festividades Também

Como pode ajudar a sua família a lidar com a ansiedade sazonal de 2020.

Publicado 2/12/2020, 15:57
Fotografia de Ana Sladojevic / Alamy

Todo o papel de embrulho do mundo não é suficiente para cobrir o que as famílias vão enfrentar nesta época de festividades: tradições canceladas, restrições nas viagens, quarentenas, zaragatoas nasais e muitos debates sobre o uso de máscara e reuniões entre várias pessoas.

Se adicionarmos o facto de uma criança não poder abraçar a avó, podemos estar perante algo que se parece mais com a pior altura do ano.

Os dias mais pequenos e mais escuros de novembro e dezembro costumam resultar no aumento dos níveis de stress, sobretudo para as pessoas que lidam com dinâmicas familiares complexas e orçamentos mais apertados, diz a psicóloga Michi Fu, professora na Universidade Alliant Internacional da Califórnia. Infelizmente, a atual crise económica e de saúde pode exacerbar estes problemas.

De acordo com um relatório da Associação Americana de Psicologia, 67% dos americanos dizem que os seus níveis de stress aumentaram durante a pandemia. Quase um em cada cinco adultos afirma que o seu nível de stress está mais elevado agora do que no mesmo período do ano passado, com os pais, em particular, a referirem a situação escolar dos seus filhos como uma fonte relevante de stress.

Os especialistas receiam que a combinação entre o stress sentido nesta época de festividades e a ansiedade relacionada com a pandemia seja uma receita para um período muito pouco saudável, tanto para pais como para filhos. Mas, se reconhecermos que esta época tem os seus próprios desafios e se nos concentrarmos nas coisas que podemos controlar, Michi Fu diz que as famílias podem evitar que as coisas piorem.

“Tente manter as coisas em perspetiva”, diz Michi. “No grande esquema das coisas, este é apenas um Natal.”

O que o stress faz ao corpo

Quando os humanos sentem que algo não está correto, os nossos cérebros e corpos ficam alerta. “Isto desencadeia sentimentos que são normais, quase funcionais, de um ponto de vista evolutivo”, explica Michi. A “resposta de lutar ou fugir”, que antigamente nos ajudava a produzir respostas mais velozes para escaparmos de predadores, inunda os nossos corpos com adrenalina e cortisol. Estas hormonas de stress fazem com que os nossos batimentos cardíacos e a nossa pressão arterial aumentem.

Mas as respostas que funcionam bem para fugir de um leão não têm muita utilidade para, por exemplo, lidar com o stress de uma questão que se arrasta sobre viajar durante o Natal e sobre as dívidas que se acumulam no cartão de crédito. Em vez de regressarmos ao nosso estado normal, o stress perdura, desencadeando um efeito em dominó nos sintomas.

O stress persistente pode dar origem a doenças cardíacas, obesidade e outros problemas crónicos. Isto também pode fazer com que as pessoas fiquem com as costas e o pescoço arqueados, resultando em problemas musculares-esqueléticos, para além de afetar a digestão, algo que pode causar azia, inchaços e alterações de apetite. Nos homens e nas mulheres, o stress diminui o desejo sexual e a capacidade de reprodução. O stress pode até provocar erupções cutâneas e acne, e provocar a queda de cabelo.

Embora as pessoas possam encarar o stress como um problema de adultos, as crianças também o podem sentir. As crianças mais pequenas costumam regredir quando lidam com o stress – por exemplo, uma criança que já aprendeu a usar o penico acaba por regressar às fraldas. As crianças também têm tendência para fazer birras, diz a psicóloga Rachael Krahn, diretora associada de formação em psicologia no Centro Pediátrico Washburn do Minnesota. “As crianças estão exaustas, pelo que os colapsos são mais prováveis”, diz Rachael.

Para as crianças mais velhas, o autoisolamento é outro sinal de stress (e também um sintoma de depressão) que Rachael está a ver cada vez mais nos seus pacientes. “Muitos dos meus pacientes adolescentes dizem estar aborrecidos”, diz Rachael.

Lidar com o stress das festividades nas crianças

Este ano, as crianças têm vários motivos para se sentirem stressadas com as férias de Natal. As crianças podem sentir saudades das grandes reuniões familiares ou das atividades de férias. Podem estar tristes por não poderem ver os amigos e ansiosas sobre as sessões intermináveis de ensino à distância. Ou podem estar stressadas devido a questões de adultos, como questões financeiras ou de saúde.

Para a psicóloga Andrea Bonior, a empatia é a forma mais importante para ajudar as crianças a lidar com o stress nesta época sazonal.

“Devemos ter em consideração que as crianças já sofreram muitas perdas – de estrutura e de atividades”, diz Andrea, autora de Detox Your Thoughts. “Deixe que as crianças tenham os seus sentimentos. Deixe-as fazer perguntas do tipo ‘porque é que não podemos fazer isto’ 10 vezes seguidas.”

As mães e os pais sentem muitas vezes que precisam de responder de forma perfeita, mas Andrea incentiva os pais a concentrarem-se em ouvir. “Não se trata de resolver o problema. Trata-se de ouvir as crianças.”

As coisas que aprendemos a conversar ou a brincar com os nossos filhos podem surpreender-nos, diz Rachael Krahn. Talvez tenhamos pensado que todos se tinham finalmente adaptado ao “novo normal” em casa, mas a verdade é que os nossos filhos ainda estão a ter dificuldades com a ideia de que as férias de Natal deste ano não incluem uma viagem para visitar a avó. Para acalmar as crianças, Rachael sugere que se façam exercícios de respiração profunda e atividades que envolvam movimento.

Acima de tudo, diz Rachael: “Os sentimentos vêm e vão, e isto vai passar.”

Andrea Bonior diz que os pais não devem negligenciar o stress das festividades ou agir como se estivesse tudo bem; em vez disso, os pais devem dominar a situação. “Devemos reconhecer que isto é uma chatice”, diz Andrea. “E devemos ser criativos em relação ao que podemos fazer.” Andrea recomenda que se fale com as crianças para criar novas tradições familiares, como encontrar um jogo de tabuleiro que se possa jogar online com os primos, ou uma forma de fazer voluntariado em família.

Lidar com o seu próprio stress familiar

Os conflitos familiares durante as festividades não são uma novidade, mas os fatores de tensão adicionais deste ano vão ser um pouco diferentes. Os familiares podem ter opiniões diferentes sobre a segurança das reuniões em família. Podem surgir situações de culpa em relação às viagens – ou falta delas.

Para acalmar a tensão, não pense na sua família como uma fação oposta, diz Rachael. Em vez disso, culpe a raiz do problema. “Remova o lado pessoal da equação e diga que é a COVID-19 que está a dificultar tudo.”

Andrea enfatiza a necessidade de se ser proativo com a segurança familiar, para evitar que o stress atinja níveis demasiado elevados. “Se gosta de resolver os problemas em conjunto, diga que vai meditar antes de dormir, e pergunte se a sua família quer meditar consigo.”

Para se focar nas coisas positivas, Rachael diz que pode começar uma prática diária de gratidão com a sua família, como por exemplo dizer em voz alta as coisas pelas quais estão gratos todas as noites à hora de jantar, e não apenas numa só refeição em dezembro. Uma dieta saudável, bons hábitos de sono e exercícios regulares também ajudam a reduzir o stress em toda a família.

Por vezes, os pais só precisam de uma pausa, “como tomar um banho de imersão ou fazer uma maratona a ver séries ou filmes”, sugere Zoe E. Taylor, professora associada da Universidade Purdue que estuda o risco e resiliência na juventude. Mas conseguir ter “tempo pessoal” pode ser particularmente complicado para os pais solteiros ou para aqueles que dependiam dos avós, que agora são mais vulneráveis, para dividir as responsabilidades no cuidado dos filhos.

Outra solução que pode ajudar é formar uma “bolha dupla” com outra família que tenha um nível semelhante de tolerância ao risco, diz Zoe. Os adultos podem partilhar as tarefas a cuidar dos filhos, as crianças têm amigos para brincar e há mais pessoas em torno da mesa de jantar, ajudando a aliviar um pouco a solidão das festividades.

Porém, pode chegar um momento em que os níveis de stress transbordam. E isso não faz mal. Andrea diz que esta situação pode oferecer uma oportunidade para os pais modelarem um bom comportamento – pedindo desculpa por reagirem impulsivamente. “Precisamos de ter graciosidade e compaixão por nós próprios”, diz Andrea. “Os nossos filhos precisam de nos ver a falhar e de perceber como é que lidamos com as conversas desconfortáveis quando falhamos.”

Isto inclui admitir de forma sincera quando estamos stressados, e o que é melhor para nós e para os nossos filhos. “As emoções podem ser contagiosas”, diz Rachael.

Zoe Taylor acrescenta: “Devemos reconhecer que estamos a fazer o melhor que conseguimos. A mensagem mais importante é a de que devemos ser bons para nós e uns para os outros.”
 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com.

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