Os Rituais na Hora de Dormir São Importantes Para as Crianças – e Para os Pais

Como as tradições noturnas durante uma pandemia podem oferecer conforto e estabilidade.

Por Cassandra Spratling
Fotografias Por Hannah Reyes Morales
Publicado 3/12/2020, 15:01
Erin Maltbie lê uma história de embalar para o seu filho Sam e complementa a leitura ...

Erin Maltbie lê uma história de embalar para o seu filho Sam e complementa a leitura com língua gestual. Sam tem problemas de audição e a família Maltbie usa uma combinação entre fala e gestos para comunicar com o filho, que usa um aparelho auditivo e consegue ouvir moderadamente.

Fotografia de Hannah Reyes Morales

Enquanto médica de emergência, Jacinta Cooper nem sempre chegava a casa a tempo de participar nos rituais noturnos com as suas duas filhas. Jacinta decidiu usar o FaceTime o máximo possível antes de dizer boa noite às filhas.

Mas depois da chegada da pandemia, nas primeiras vezes que Jacinta usou o FaceTime, a sua filha Ruby, de um ano de idade, não reconheceu a mãe atrás de uma máscara. “Ela geralmente começava a rir e tentava pegar no telemóvel, mas não o fez”, diz Jacinta. “Isso deixou-me um pouco triste. Já é difícil o suficiente estar longe delas e ainda ter de lidar com esta pandemia.”

Ruby já percebe agora que é a mãe que está atrás da máscara, e quando Jacinta não está em casa, em Atlanta, o importante ritual no FaceTime continua. Mas há um ritual na hora de dormir que nunca muda. Depois de as crianças comerem, tomarem banho e lerem uma história para dormir, o pai, Jeremy Reneau, pede a Liyla, de quatro anos, para repetir ou recitar uma afirmação que ele criou quando ela tinha cerca de dois anos:

“Eu sou inteligente.”
“Eu sou forte.”
“Eu sou corajosa.”
“Eu sou linda.”
“Eu consigo fazer tudo.”

Jeremy Reneau quer que as filhas cresçam a saber que são importantes para a sua família e para o mundo exterior. “Eu queria algo que a ajudasse a saber o que ela tem de valioso e o quão valiosa é”, diz Jeremy.

Os rituais – quer sejam canções ou histórias de embalar que digam simplesmente “amo-te” antes de as crianças dormirem – são importantes para as crianças e para quem cuida delas, e proporcionam benefícios para a saúde física e mental. Mas estes rituais são particularmente importantes durante os tempos de stress como os que estamos a viver.

“As crianças e os adultos dependem de rotinas e consistências”, diz a pediatra Ari Brown, porta-voz da Academia Americana de Pediatria. “E com a atual pandemia, isso é ainda mais importante do que nunca, pois faz com que as crianças se sintam bem por terem uma rotina estável para descansar.”

Esquerda: A enfermeira Allison Conlon visita o seu filho Lucas e lê histórias através de uma porta de vidro na sua casa, em Massachusetts. Allison, que cuida de pacientes com COVID-19, tomou a difícil decisão de se isolar da sua família durante o aumento de casos em Massachusetts. À medida que a pandemia de COVID-19 altera a vida pelo mundo inteiro, ceifando mais de 100 mil vidas nos EUA, os profissionais de saúde que cuidam das suas comunidades na linha da frente enfrentam o desafio adicional de cuidar das suas próprias famílias em casa.
Direita: Jason Harris em casa com o seu filho Jay Jay (Jason Jr.) em Saugus, Massachusetts. A música é uma parte muito importante da sua relação; embora não cantem canções de embalar, estabelecem uma ligação através da música. À noite, pai e filho leem histórias de embalar juntos.

Fotografia de HANNAH REYES MORALES

Num momento em que os adultos têm muito com que se preocupar – desde a saúde a preocupações financeiras, por exemplo – as crianças podem sentir que estão a ficar para segundo plano durante a pandemia. Mas os rituais na hora de dormir acalmam essas preocupações, diz Ari Brown.

“Estes rituais passam a mensagem aos nossos filhos de que nada é mais importante do que eles”, diz Ari. “Todo o trabalho e tarefas do quotidiano ficam de parte e esses preciosos momentos de silêncio mostram aos nossos filhos que eles têm toda a nossa atenção.”

Benefícios dos rituais na hora de dormir

Mesmo em “tempos normais”, os rituais na hora de dormir são um fator importante para a manutenção da saúde física das crianças. Ari Brown, coautora da série de livros Baby 411, diz que esta rotina ajuda a preparar o cérebro e o corpo para o sono, resultando numa noite de sono mais tranquila.

“Uma noite de sono revigorante ajuda o cérebro e o corpo a funcionarem de forma ideal no dia seguinte”, diz Ari, salientando que este é o benefício mais óbvio do sono. O menos óbvio? É durante o sono que o corpo de uma criança cresce. “Portanto, um sono tranquilo é sinónimo de um crescimento ideal. E... quando o cérebro está cansado, fica mais distraído. Algumas crianças com privação de sono são erradamente diagnosticadas com PHDA (Perturbação de Hiperatividade e Défice de Atenção).

Esquerda: Jazzy Villaruel em casa com a sua mãe, Amy, durante a hora de dormir em Bataan, nas Filipinas. O pai de Jazzy, Norberto, (carinhosamente apelidado de Umbing pelos seus familiares) depende da pesca para o seu sustento, mas deseja que os filhos tenham um futuro diferente, já que Norberto tem testemunhado uma diminuição na pesca na última década.
Direita: Xavier Zakrajsek em casa da sua família em Ayer, no Massachusetts. Xavier é surdo e usa implantes cocleares que o ajudam a ouvir. Com a condição de Xavier, é possível que os implantes deixem de funcionar no futuro. Quando chega a hora de dormir, Jessica, a sua mãe, canta e usa língua gestual para o adormecer. Jessica canta “és o meu raio de sol” e diz que o ama todas as noites. “Faço questão de lhe dizer isto, caso seja a última coisa que ele consiga ouvir”, diz Jessica.

Fotografia de HANNAH REYES MORALES

Estas rotinas também podem ajudar as crianças a aprenderem a se acalmarem, algo que diminui a respiração e a frequência cardíaca.

“Uma criança precisa de saber quando deve passar do ritmo acelerado da sua vida diária para... um estado mais calmo”, diz Dennie Palmer Wolf, investigadora em educação.

Isso é algo particularmente importante agora, pois as crianças lidam com o stress da pandemia. Mas há outros benefícios derivados destes rituais na hora de dormir que também podem ajudar com as tensões da COVID-19.

“Os rituais adicionam previsibilidade e uma sensação de estabilidade em tempos inesperados”, diz Tiffany Ortiz, diretora de programas para a primeira infância do Instituto Musical Weill de Carnegie Hall, que desenvolveu o Lullaby Project, uma iniciativa internacional que promove a escrita e o canto de músicas de embalar para apoiar a saúde materna, o desenvolvimento infantil e o vínculo entre pais e filhos.

Os rituais também podem passar uma mensagem de resiliência, diz Dennie Wolf, sobretudo as canções e tradições passadas ao longo de gerações.

“Os rituais possuem a mensagem subtil de que temos uma história mais longa do que a que estamos a viver neste momento”, diz Dennie. “Nós vamos continuar. Nós temos continuidade. Esta é a música que a minha avó cantava para a minha mãe, e eu partilho-a contigo. Nós persistimos.”

Tiffany Ortiz concorda: “As esperanças e os sonhos são muito importantes neste momento porque estamos a lidar com esta realidade e a pensar no futuro dos nossos filhos.”

Quem cuida das crianças também beneficia

Embora as pessoas pensem geralmente nas vantagens para as crianças, os benefícios dos rituais na hora de dormir para quem cuida dos mais novos também são igualmente importantes. Por exemplo, Tiffany diz que os momentos de inatividade em que conseguimos estar com as crianças podem reduzir o stress para os pais que estão exaustos após inúmeras reuniões seguidas via Zoom.

“O stress é contagioso, portanto, se formos um pai que está a passar por uma situação complicada, ou a lidar com demasiados stresses, isso traduz-se na criança”, diz Tiffany. “Muitas vezes, encorajamos os pais a encontrarem momentos em que consigam usar exercícios de respiração, momentos para cantar e/ou ouvir música para se acalmarem. Cantar em conjunto é uma ótima forma de pais e filhos se unirem.”

De facto, um estudo feito pelo Projeto Lullaby, projeto que também oferece um catálogo de canções de embalar de todo o mundo, descobriu que as mães sentiam mais ligação, realização, propósito e emoções positivas quando cantavam músicas de embalar com os filhos.

Dennie Wolf, uma das investigadores principais do estudo, diz que estes rituais servem de pausa para o stress do quotidiano, tanto para a criança como para quem cuida dela. “É uma espécie de oásis”, diz Dennie.

Criar o seu próprio ritual em família

As canções e histórias de embalar são rituais comuns na hora de dormir, mas os pais acabam muitas vezes por inventar os seus próprios rituais. E estas rotinas não precisam de acontecer apenas durante a hora de dormir para que as crianças usufruam dos mesmos benefícios. O mais importante, diz Dennie, é a consistência, para que a criança aprenda a esperar e dependa da regularidade e do conforto derivados de determinado ritual.

Por exemplo, em Southfield, no Michigan, na casa de Autumn e Justin Price, quando a pandemia alterou os horários normalmente rígidos para dormir, esta família criou um novo ritual matinal: chocolate quente para os seus três filhos, de 7, 9 e 13 anos.

“Neste momento, estou empenhada a tentar confortá-los”, diz Autumn Price, que é fonoaudióloga. “Sinto que preciso de os compensar porque há muitas coisas que eles já não podem fazer.”

Porquê chocolate quente? “Logo no início da pandemia, ouvi dizer que as coisas quentes matavam o vírus. Por isso, comprei uma embalagem enorme de chocolate em pó”, diz Autumn. “Eu sei que não mata o vírus. Mas eles adoram e nós limitámo-nos a manter esta rotina.”

Danielle Rice, instrutora de ioga e especialista em saúde mental infantil em Detroit, faz regularmente alguns momentos de poses matinais de ioga com o seu filho Elijah de 3 anos.

“Isto ajuda-nos a estarmos mais sintonizados um com o outro”, diz Danielle. “Dá-nos a oportunidade de nos unirmos e deixar o mundo exterior de parte. Isto faz-me sentir menos pressionada e mais envolvida com ele, melhorando a minha eficácia enquanto mãe.”

“Também é divertido para ele. Dado que agora não podemos ir ao Chuck E. Cheese ou à Legoland, esta é uma forma de nos divertirmos em casa.”

Danielle também tem um ritual noturno onde permite que Elijah escolha um brinquedo para brincar durante cinco minutos antes de fazerem uma oração noturna, seguida de uma noite de sono.

Anthony Hallett e Jessica Blass-Hallett fazem uma oração com a sua filha, Ava, na sua casa em Brockton, no Massachusetts.

Fotografia de Hannah Reyes Morales

Para a família Hallett, de Brockton, no Massachusetts, o seu ritual noturno inclui uma festa de dança. Depois de arrumarem a loiça do jantar, colocam uma boa música de dança a tocar e improvisam.

Não se trata apenas de diversão – dançar e ouvir música também é uma forma de partilharem a sua cultura, quer seja a ouvir R&B da velha guarda que o pai Anthony Hallett gosta, ou a ouvir música Kompa – um género musical semelhante ao reggae que é popular no Haiti, a sua terra natal – de que Jessica Blass-Hallett gosta mais. Mesmo que os seus dois filhos não compreendam a língua cantada nas músicas, compreendem o significado, diz Jessica.

“Podemos ter momentos de diversão, independentemente do que esteja a acontecer fora das nossas quatro paredes”, diz Anthony, professor do segundo ano. “Para além da simples diversão, isto ajuda-nos a criar laços familiares.”
 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com.

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