Uma Breve História Sobre Brinquedos

Desde paus e berlindes a ursos de peluche e ao Rato Mickey, os brinquedos acompanharam sempre os avanços tecnológicos e humanos – embora alguns tenham permanecido notavelmente fiéis às suas raízes.

Publicado 7/12/2020, 18:16 WET
A evolução dos brinquedos tem refletido o desenvolvimento da nossa civilização e a nossa capacidade em ...

A evolução dos brinquedos tem refletido o desenvolvimento da nossa civilização e a nossa capacidade em imitar os outros, de nos instruir, reforçar (e destruir) estereótipos e usar a imaginação.

Fotografia de TIM GAINEY / ALAMY

O ato de brincar é tão antigo quanto a própria humanidade. Há até uma definição científica para isto: um comportamento agradável, praticado de forma repetida e sem razão aparente, que é semelhante, mas não idêntico, a outros comportamentos – e que também se propaga pelo reino animal. Há estudos que observaram animais a brincar, como por exemplo crocodilos, chimpanzés e vespas.

Em relação ao motivo pelo qual as espécies de todos os tipos brincam, há uma série de teorias que vão desde testes para a idade adulta, desenvolvimento de aptidões motoras e inteligência física, ao aperfeiçoamento de capacidades de comunicação. E claro, pela simples diversão, que pode ser completamente inútil, mas que mentalmente é gratificante. “Para mim, uma das qualidades mais evidentes de brincar é o facto de não ter estritamente um propósito – é isso que diferencia uma ação lúdica de outra que parece virtualmente idêntica”, diz Christopher Bensch, vice-presidente de coleções e curador do Strong National Museum of Play em Rochester, Nova Iorque. “Adoro jardinagem e considero isso uma forma de brincar, mas se alguém me mandar cavar 100 buracos, isso passaria a ser um trabalho ou uma obrigação.”

“Brincar é restaurador e cativante”, acrescenta Christopher. “Na sua forma mais imersiva, brincar leva-nos a um estado de fluxo em que perdemos a noção do tempo e de nós próprios.”

O acompanhamento natural para os dois tipos de brincadeiras humanas – imitativas e instrutivas – é o brinquedo. E embora alguns brinquedos tenham evoluído, outros permaneceram notavelmente consistentes com algumas das primeiras iterações conhecidas na história da civilização humana – quer sejam paus que eram usados como bengalas, ou a curiosidade natural por objetos rolantes que levaram à criação da bola. Desde pedaços do ambiente natural que eram arremessados, a memórias preciosas de tempos felizes passados ao longo de gerações, os brinquedos cresceram em paralelo com a civilização humana e tornaram-se num dos seus alicerces. Seguem-se alguns exemplos notáveis de brinquedos que, à sua maneira, alteraram a forma como brincamos.

Os primeiros brinquedos

Dado que os primeiros brinquedos eram provavelmente objetos naturais, as suas evidências são raras, mas especula-se que provavelmente eram paus e pedras, ossos, cordéis ou uma combinação entre estes objetos. E podem ter sido usados para imitar atividades de adultos, que usavam armas para caçar – e usados como uma espécie de treino para auxiliar na autopreservação necessária para sobreviver à idade adulta.

Uma criança tenta apanhar um pau numa floresta. Hoje, o comportamento das crianças com brinquedos ‘improvisados’ provavelmente espelha o das primeiras crianças humanas.

Fotografia de STOCKSNAP / PIXABAY

“Brincar é restaurador e cativante... Na sua forma mais imersiva, brincar leva-nos a um estado de fluxo em que perdemos a noção do tempo e de nós próprios.”

por CHRISTOPHER BENSCH, NATIONAL MUSEUM OF PLAY

As bolas criadas com o intuito de brincar provavelmente figuram entre os primeiros brinquedos feitos intencionalmente. Pedras semipreciosas em forma de berlindes, que se acredita remontarem a 3000-4000 a.C., foram desenterradas no túmulo de uma criança no Egito, e toda a civilização egípcia cresceu com uma cultura recreativa muito desenvolvida que incluía bonecas primitivas, desportos com bolas feitas de papiro e tecido, ou feno, e jogos de tabuleiro como o senet. E há jogos modernos que derivam do “jogo da bugalha”.

Brinquedos com cordéis

Não se sabe quando é que surgiu o primeiro papagaio, um brinquedo que é há muito tempo considerado um símbolo de alegria nas crianças – embora se acredite que tenha sido inventado na China ou possivelmente na Indonésia, entre 400 a.C. e 1000 a.C. Os papagaios parecem ter sido usados para diversos fins, desde ferramentas de pesca a dispositivos de comunicação e instrumentos de medição – com utilidades no campo de batalha – mas também como forma de tributo e, claro, como brinquedo. Não se sabe muito sobre os modelos antigos, pois os papagaios não são propícios à preservação durante milhares de anos; mas os primeiros modelos provavelmente eram feitos de papel ou seda, com iterações posteriores projetadas para refletir temas mitológicos.

Nas mãos de adultos, o papagaio iria transcender os fins militares para se tornar numa ferramenta científica cada vez mais elaborada, desencadeando o fascínio dos humanos pela aerodinâmica de voo – dando eventualmente origem, no sentido mais literal, às aeronaves. Mas o design simples (e provavelmente os materiais) dos primeiros papagaios perdura nos brinquedos até hoje.

‘Fazer um papagaio’, uma litografia de uma pintura de 1869, mostra um jovem americano a construir um papagaio hexagonal. O design básico dos papagaios da atualidade provavelmente é muito semelhante ao dos primeiros papagaios da China antiga – embora os primeiros papagaios não fossem só usados como brinquedos.

Fotografia de LOUIS KURZ, PINTURA D WM COGSWELL

O ioiô provavelmente também veio da China e espalhou-se de forma abrangente tanto para leste como para oeste. Na Grécia Antiga já era certamente utilizado, pelo menos em 1000 a.C., com discos feitos de pedra, e mais tarde de madeira e terracota. O ioiô já teve vários nomes ao longo da sua história, incluindo bandalore, whirligig e, em França, l'emigrette – este último significa “abandonar o país”, uma conotação sinistra que faz referência à popularidade deste brinquedo junto da aristocracia francesa que fugiu do país durante a Revolução Francesa. Este brinquedo recuperou o nome ‘ioiô’ nos EUA em 1916, quando o seu nome foi verificado num artigo publicado na Scientific American sobre brinquedos vindos das Filipinas. Algumas fontes supõem que ‘ioiô’ significa ‘venha, venha’ no idioma Tagalog.

A ilustre boneca

As bonecas estão entre os brinquedos mais antigos e culturalmente universais. Estas imitações em miniatura de humanos são símbolos poderosos e têm sido usados desde a aurora dos tempos em tudo, quer seja para fins artísticos ou religiosos, ou usados como talismãs e para a chamada magia negra. Já foram escavadas “bonecas de pás” esculpidas em madeira de túmulos egípcios que datam de cerca de 2000 a.C.. Em 2017, foi desenterrada uma boneca esculpida em pedra-sabão, com sobrancelhas e maçãs do rosto, no túmulo de uma criança na Sibéria que datava da Idade do Bronze, há cerca de 4500 anos. As bonecas também surgem no reino animal, com jovens fêmeas chimpanzés no Uganda a exibirem tendências de carinho para com pequenos ramos de árvores, e os estudos sugerem que este comportamento não é apenas lúdico, revela também preferências de género por brinquedos nos nossos parentes primatas.

As bonecas ‘bisque’ – batizadas pela sua construção em porcelana semelhante a um biscoito, que dava ao tom da sua pele um acabamento mate realista – eram muito populares na Europa no século XIX. A capacidade dos fabricantes em melhorar as bonecas com acessórios, roupas e casas de bonecas gerou um modelo de negócio expansível que mais tarde iria inspirar os conjuntos de comboios.

Fotografia de DPA Picture Alliance / Alamy

Desde então, as bonecas assumiram muitas formas: desde bonecas de palha de milho, papel e argila, a bonecas russas Matrioska, bonecas Daruma japonesas e as bonecas Layli iranianas. Em meados do século XIX, as “bonecas chinesas” com cabeças de porcelana e corpos feitos de têxteis como tecido e couro tornaram-se muito populares na Europa, sendo a Alemanha e a França os principais produtores. Muitas das bonecas foram inicialmente projetadas para se parecerem com mulheres adultas; por volta de 1850, começaram a ficar mais parecidas com crianças, geralmente com roupas e acessórios personalizáveis, bem como casas elaboradas. As bonecas 'bisque' – assim designadas devido à porcelana ‘biscoito’ que lhes conferia características com um acabamento mate realista – tornaram-se populares na segunda metade do século XIX, com os modelos mais caros a terem por vezes acabamentos com cabelo humano verdadeiro.

O fabrico de bonecas evoluiu para materiais de construção mais resistentes – com uma mistura de resinas, cola e serradura – e recebeu um design mais elaborado no início do século XX, como por exemplo a boneca querubim Kewpie e a boneca Bye-Lo, que tinha olhos de vidro que fechavam quando se reclinava. Com o avanço nos têxteis plásticos e sintéticos, as bonecas atingiram o seu auge no mercado de massas em 1959, quando a Barbie da Mattel – uma encarnação de 30 centímetros de uma ‘modelo adolescente do mundo da moda’ – fez a sua estreia em fato de banho e duas cores opcionais para o cabelo.

A boneca Barbie, abreviatura para Barbara Millicent Roberts, foi e continua a ser um fenómeno cultural: desde então já se venderam mais de mil milhões de unidades, e as suas diversas identidades incluem mais de 200 profissões.

Modelos de meados da década de 1960 de bonecos G.I. Joe da Marinha e do Exército, e da Barbie e do Ken. Embora os estereótipos de género ditassem uma preferência masculina pelos G.I. Joe, estes brinquedos eram mais próximos em espírito com o boneco Ken do que a maioria imaginava; um dos primeiros protótipos do modelo G.I. Joe da Marinha foi na realidade feito a partir de um boneco Ken modificado.

Fotografia de G.I. JOE CREDIT CHRIS WILLSON / ALAMY; BARBIE E KEN, CORTESIA MATTEL, INC.

Embora a Barbie tenha recebido o seu companheiro Ken em 1961, os estereótipos na época significavam que os rapazes teriam de esperar até que surgisse um boneco que quebrasse as barreiras de género – ou melhor, um “boneco de ação”. Em 1964, foi lançado no mercado norte-americano de brinquedos o G.I. Joe, surgindo no Reino Unido dois anos depois sob a licença Action Man. Christopher Bensch tem um protótipo da vertente G.I. Joe da Marinha na coleção do National Museum of Play, e também é um artefacto com uma peculiaridade: “Por muito masculino que o G.I. Joe seja, este protótipo é na verdade um boneco Ken padrão que foi modificado para parecer mais valente.”

“Os primeiros comboios de brincar variavam entre modelos de ferro fundido, modelos de chumbo com rodas fixas e modelos em miniatura a vapor, que tinham o hábito de incendiar os pisos e móveis dos seus proprietários.”

A revolução industrial (dos brinquedos)

As técnicas de produção em massa e o aparecimento das viagens a vapor também deram origem a novos e emocionantes brinquedos. “No século XIX, os brinquedos mecânicos de corda mudaram o paradigma”, diz Christopher Bensch. “Os brinquedos elaborados tornaram-se mais acessíveis com o advento dos processos industriais que permitiam a produção de engrenagens e mecanismos a baixo custo, resultando no aparecimento de brinquedos autónomos aos quais bastava dar corda para agirem por conta própria. Foi o nascimento de uma mecânica ‘real’ em pequena escala que iria levar à integração de inovações que iriam inspirar muitos brinquedos. Foi este tipo de inovação técnica que deu origem a brinquedos como Tickle Me Elmo e Furby – mas com mais eletrónica e pilhas no seu interior”, diz Christopher.

Em meados do século XIX, para imitar o advento das viagens a vapor que tinham tomado o mundo de assalto, começaram a surgir os primeiros comboios de brincar. As primeiras versões variavam entre modelos de ferro fundido, modelos de chumbo com rodas fixas e modelos em miniatura a vapor, que tinham o hábito de incendiar os pisos e móveis dos seus proprietários.

Inspirados pelos princípios básicos das casas de bonecas, os conjuntos de ferrovias eram um brinquedo expansível que era recompensador tanto para os seus proprietários como para os fabricantes; em vez de venderem uma só unidade, estes brinquedos inspiravam a criatividade com a adição de novos produtos. Os conjuntos de comboios ainda continuam a ser muito populares entre crianças e adultos.

Fotografia de NATURFREUND_PICS / 214 IMAGES VIA PIXABAY

Contudo, estes comboios eram inicialmente brinquedos individuais – ao invés de fazerem parte de um conjunto que podia ser expandido como um sistema de ferrovias real. Em 1891, a Marklin, fabricante de brinquedos alemã que tinha experiência com as casas de bonecas infinitamente expansíveis (e infinitamente lucrativas), começou a criar os primeiros conjuntos de ferrovias personalizáveis, completos com comboios produzidos em massa e medidores padronizados. Estes brinquedos continuam a atrair pessoas de todas as idades – com personagens como Thomas a prenderem o interesse das crianças, e os entusiastas adultos a fomentarem um passatempo que vive de detalhes intrincados.

De ursos de peluche ao Rato Mickey

Embora tenham sido encontradas esculturas de animais em túmulos de crianças no Antigo Egito, e as bonecas de pano caseiras existirem desde pelo menos os tempos romanos, os animais de peluche são uma invenção relativamente recente. Em 1880, Margarete Steiff, uma costureira alemã, começou a criar almofadas de alfinetes em forma de elefante. Depois de perceber que muitas crianças acabavam por usar as almofadas como brinquedos, Margarete começou a fazer mais animais. Em 1902, nos Estados Unidos, o então presidente Theodore ‘Teddy’ Roosevelt foi caricaturado pelo artista Clifford Berryman na sátira de uma cena que aconteceu durante uma viagem de caça onde o presidente se recusou a disparar contra um urso.

O ‘Elefantle’ feito pela costureira Margarete Steiff em 1880 foi originalmente projetado como uma almofada de alfinetes; quando soube que as almofadas estavam a ser usadas como brinquedos, Margarete começou a fazer mais animais, adicionando eventualmente um urso em 1902. O urso era descrito como ‘plusch beweglich’ (de peluche e flexível).

Fotografia de STEIFF

Esta caricatura, onde Theodore ‘Teddy’ Roosevelt se recusa a disparar contra um urso, foi publicada em 1902 no The Washington Post. A imagem gerou a criação do urso de peluche ‘Teddy's Bear’ do inventor Morris Mitchtom. Ao mesmo tempo, do outro lado do Atlântico, Margarete Steiff estava a desenvolver uma linha de animais de peluche, incluindo ursos. As duas empresas iriam alimentar a demanda pelo ‘ursinho Teddy’ que em breve iria cativar o mundo.

Fotografia de WORLD HISTORY ARCHIVE / ALAMY

A caricatura iria inspirar um inventor chamado Morris Michtom a criar um protótipo de boneco de peluche a quem Morris chamou “Teddy's Bear”. Margarete Steiff começou a fazer ursos de peluche na mesma época, e os dois brinquedos iriam tornar-se extremamente populares – com a frase “Teddy Bear” a entrar no vocabulário cultural das crianças de forma mais ou menos instantânea.

Mais brinquedos de peluche se seguiriam, com Peter Rabbit, da autora Beatrix Potter, a ser o primeiro brinquedo deste género a ser patenteado em 1903. Após a Primeira Guerra Mundial, a Grande Depressão nos Estados Unidos deu origem a uma vaga de brinquedos artesanais que assumiam a forma de “macacos feitos de meias”.

A primeira encarnação de ‘peluche’ do Rato Mickey – como este exemplo da década de 1920 – foi um brinquedo projetado pela costureira de Los Angeles Charlotte Clark. Walt Disney ficou tão impressionado que, quando a demanda pela produção aumentou demasiado, o padrão de costura deste modelo foi vendido para o público poder fazer o seu próprio Rato Mickey. Muitos destes modelos são agora itens de colecionador ou heranças de família; um dos brinquedos vintage do Mickey aparece no vídeo de Natal de 2020 da Disney.

Fotografia de PHIL REES / ALAMY

Com o advento do cinema, depois da estreia de Mickey em Steamboat Willie, a costureira Charlotte Clark de Los Angeles – com a ajuda dos esboços do seu sobrinho – criou os primeiros bonecos do Rato Mickey em 1930, sob a licença da The Walt Disney Company. (A The Walt Disney Company é proprietária maioritária da National Geographic Partners.)

Aparentemente, o próprio Walt Disney adorava as criações de Charlotte Clark, que foram originalmente distribuídas pelas pessoas que trabalhavam no estúdio. Mas a procura aumentou rapidamente – e para não alterar o design característico desenvolvido por Charlotte – a Disney permitiu que o padrão de costura do peluche se tornasse público, permitindo aos interessados em ter um Mickey fazer o seu próprio modelo. Em 1934, a Knickerbocker Toy Company assumiu a liderança e começou a produzir em massa os bonecos do Mickey e da Minnie com as indicações de Charlotte – e até hoje este brinquedo continua a ser um ícone.


Atualmente, com os avanços em segurança de material e no design, os brinquedos de peluche são tão omnipresentes quanto os cobertores para bebés, e estão entre os itens que muitos apreciam até à idade adulta.

Fomentar a criatividade

Os princípios do educador alemão Friedrich Froebel iriam inspirar uma abordagem holística à educação infantil que fomentava a criatividade e as atividades lúdicas – e mais tarde levariam Friedrich a cunhar o termo “jardim de infância”. Friedrich abriu o primeiro jardim de infância na sua cidade natal, Bad Blankenburg, em 1840. Para além de estimular atividades como origami e artesanato enquanto ferramentas educacionais, Friedrich também criou um conjunto de ‘presentes’ – blocos geométricos simples de madeira – com os quais as crianças podiam fazer estruturas durante as suas brincadeiras.

A ideia que deu origem ao brinquedo Slinky surgiu quando um engenheiro naval fez uma mola cair de uma prateleira – e depois observou a mola enquanto esta ‘caminhava’ até parar.

Fotografia de MATTHRUSC, VIA PIXABAY

Os brinquedos que inspiravam construções criativas deram um grande salto no início do século XX. Frank Hornby, um inventor de Lancashire que mais tarde também seria responsável pelos Dinky Cars e pelo conjunto de comboios homónimo, inventou os brinquedos Meccano em 1900. Neste ano também se fez a primeira produção comercial de plasticina, um material de moldagem parecido com argila que tinha sido inventado três anos antes como ferramenta de ‘expressão livre’ por um artista britânico chamado William Harbutt.

Os brinquedos posteriores iriam depender menos da arte e mais da física. O brinquedo Slinky foi desenvolvido em 1945, depois de Richard James, um engenheiro naval de Filadélfia, ter feito uma mola cair de uma prateleira e observar a mola graciosamente a “caminhar” pelo chão, onde parou na vertical. Este brinquedo improvável teve muito sucesso: feito com 24 metros de arame e enrolado 98 vezes, estima-se que o volume de brinquedos Slinky vendido desde o início da empresa circundaria o equador 121 vezes.

As primeiras iterações dos conjuntos LEGO incluíam peças maiores para as crianças mais novas, bem como as versões mais pequenas. Kjeld Kristiansen, a criança que aparecia nas imagens das embalagens, era o neto do fundador da empresa, e mais tarde viria a ser o presidente da mesma.

Fotografia de LEGO

Na Europa, um brinquedo igualmente icónico também teve uma origem improvável. Em 1932, durante a depressão económica entre guerras, um carpinteiro dinamarquês chamado Ole Kirk Christiansen, cujo negócio passava por tempos difíceis, iniciou a produção de brinquedos simples feitos de bétula. Como o negócio de brinquedos era lucrativo, as suas instalações expandiram-se – recebendo a entrega da primeira máquina de moldagem de injeção de plástico em 1947. Em 1949, a empresa começou a produzir um produto de brincar chamado “tijolo de ligação automática”. Mas por esta altura já este brinquedo tinha um nome – uma combinação entre as palavras dinamarquesas leg godt, ou ‘brincar bem’: LEGO.

Produtos licenciados

Com o avanço das séries de cinema e de televisão, surgiu outro género de brinquedo: o produto licenciado. Mas a ideia de produtos licenciados já existia há algum tempo. “Em finais do século XIX, os brinquedos Brownie inauguraram a utilização de personagens licenciadas em brinquedos, um padrão que apenas se continuou a expandir”, diz Christopher Bensch.

Baseados nos duendes escoceses com o mesmo nome, os Brownies eram figuras travessas parecidas com elfos que começaram a sua vida nos livros do autor e ilustrador canadiano Palmer Cox – mas depois transformaram-se em bonecos, puzzles e jogos de tabuleiro.

Um dos primeiros exemplos de mercadoria licenciada, os Brownies de Palmer Cox começaram a sua vida em livros ilustrados – mas o nome e a estética iria mais tarde aparecer em jogos de tabuleiro, puzzles, câmaras fotográficas e em produtos como estes bonecos de madeira litografada feitos pela McLoughlin Bros. Estes itens são muito apreciados por colecionadores; este conjunto em particular atingiu os 1159 dólares quando foi vendido em 2018 pela leiloeira Pook & Pook da Pensilvânia.

Fotografia de POOK & POOK INC., AUCTIONEERS AND APPRAISERS

“Se naquela altura já existisse televisão, provavelmente haveria uma série animada com os Brownies para rentabilizar ainda mais as personagens em todas as suas formas”, diz Christopher Bensch. Ainda assim, os Brownies iriam ter a sua imagem numa câmara fotográfica: a Brownie da Eastman Kodak – “a câmara mais barata e simples da Kodak, uma máquina que até uma criança conseguia usar”, acrescenta Christopher – e embora os desenhos na caixa fossem indiscutivelmente os Brownies de Palmer Cox, não se sabe se Palmer alguma vez recebeu dinheiro pelo licenciamento.

O conceito de produto licenciado tornou-se verdadeiramente interestelar na década de 1970, quando a empresa nova-iorquina Mego Corporation começou a produzir figuras licenciadas de super-heróis dos livros de banda desenhada da DC e da Marvel, com uma escala distinta de 20 centímetros. A partir de 1974, a empresa adicionou produtos licenciados do cinema à sua gama, produzindo figuras de filmes como Planeta dos Macacos, Star Trek e O Feiticeiro de Oz.

Um ‘R2-D2’ preservado na sua caixa original, um brinquedo da saga Star Wars produzido pela empresa Kenner em 1977.

Fotografia de CHRIS WILLSON / ALAMY

Em 1976, a Mego Corporation começou a produzir figuras mais pequenas, chamadas ‘micronautas’, com 10 centímetros, e a empresa estava contente com o seu sucesso. Contudo, os responsáveis da empresa não estavam alegadamente presentes quando um jovem executivo, que levava consigo algumas fotografias e esboços da produção de um novo projeto para um filme, estava a contactar fabricantes de brinquedos para perguntar sobre os direitos de licenciamento. Com a Mego Corporation indisponível, o jovem executivo dirigiu-se aos escritórios da empresa Kenner – cuja produção era conhecida pelos fornos Easy-Bake e pelo Spirograph – e apresentou a sua proposta para um filme de ficção científica que os especialistas da indústria especulavam ser um falhanço dispendioso. O filme chamava-se Star Wars.

George Lucas estava tão confiante na sua ideia para uma saga no cinema, e na visão de crianças a divertirem-se com os brinquedos das suas criações, que abdicou de 500.000 dólares do seu contrato de realização para ficar com os direitos de licenciamento. Com isso, Lucas garantiu um contrato de fabrico com a empresa Kenner, mas nem o próprio Lucas conseguiria prever o sucesso que se iria seguir. Em 1978 e 1979, as vendas de brinquedos Star Wars da Kenner, usando a escala de 10 centímetros, atingiram os 100 milhões de dólares. A Kenner foi comprada pela Hasbro em 1991 e os registos financeiros mostravam que, até 2007, os brinquedos Star Wars tinham gerado lucros na ordem dos 9 mil milhões de dólares e, ao longo do caminho, elevaram a fasquia para a forma como os produtos licenciados eram criados.
 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.co.uk.

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