Assustadoramente Divertido: as Crianças Devem Brincar no Escuro

As brincadeiras noturnas podem animar as longas noites inverno – e talvez estimular a saúde mental.

Publicado 27/01/2021, 14:31
Fotografia de Imgorthand / Getty Images

Há algumas semanas, Quynh Tran, juntamente com o seu marido e as duas filhas, de 11 e 14 anos, decidiram patinar depois de escurecer debaixo de um viaduto em Castro Valley, na Califórnia. Esta família viu as suas sombras a crescer nas paredes de betão e fingiu que as formas eram monstros que se estavam a comer uns aos outros. “É muito bom poder ter esta experiência quando não há ninguém por perto”, diz Quynh. “E é uma sensação diferente quando fazemos isto no escuro.”

Desde o início da pandemia, a família de Quynh tem evitado os trilhos para caminhadas mais movimentados perto de casa. Em vez disso, aventuram-se à noite, quando há menos pessoas por perto. “Embora a pandemia tenha limitado as nossas atividades normais, ainda temos o compromisso de manter os nossos filhos ativos e ao ar livre... mesmo que seja no escuro”, diz Quynh.

Brincar no escuro pode ser uma ótima forma de aproveitar as longas noites de inverno e, ao mesmo tempo, alterar as rotinas – algo que muitos de nós precisamos desesperadamente após meses de confinamento. Diversão com as luzes apagadas pode parecer um pouco arriscado, mas é bom para as crianças. Se o fizermos ao ar livre, também podemos melhorar a nossa saúde mental.

Benefícios de brincar no escuro

Nas últimas décadas, as crianças tornaram-se menos independentes, diz Abigail Marsh, professora de psicologia e neurociências na Universidade de Georgetown e autora de The Fear Factor. Por exemplo, um estudo descobriu que, em 1971, 55% das crianças britânicas com menos de 10 anos tinham permissão para caminhar sozinhas para lugares diferentes para além da escola, mas esse número diminuiu para quase zero em 2010 – uma percentagem que Abigail confirma ser semelhante nos dias de hoje.

Na verdade, isto é um problema. “As crianças são feitas para procurar experiências novas e desafiadoras porque é assim que aprendem”, diz Abigail. E sem correrem os riscos apropriados – como caminhar sozinhas por um bairro ou patinar debaixo de um viaduto escuro – muitos psicólogos receiam que as crianças não consigam assumir os riscos maiores que surgem com a idade adulta. “Não conseguimos aprender estas coisas num livro”, diz Abigail.

Os pais podem ajudar os filhos a desenvolver estas aptidões. “Brincar no escuro é um bom exemplo de algo que as crianças têm medo. E o trabalho dos pais é dar suporte aos filhos para terem essas experiências. Ajude-os a contextualizar, ajude-os a pensar sobre o risco e torne isso divertido. Ensine às crianças que elas conseguem fazer mais do que pensam.”

Para algumas crianças, fazer coisas que sejam ligeiramente arriscadas ou assustadoras pode ser particularmente útil em tempos de incerteza, como durante uma pandemia global, diz Ashley Zucker, psiquiatra na Kaiser Permanente em Fontana, na Califórnia. “Superar desafios pode aumentar a noção de independência, a coragem e a capacidade de resolução de problemas – algo que, num mundo mergulhado no caos, pode criar segurança e sensação de realização para as crianças.”

O que acontece ao nosso cérebro no escuro

“Para a maioria das crianças, o escuro é um lugar assustador”, diz Ashley. “O escuro bloqueia as outras distrações e estímulos que nos rodeiam.” Portanto, quando as luzes se apagam, a imaginação não tem limites.

Quando a ansiedade aumenta, o cérebro ajusta a forma como gere os estímulos. “As regiões do nosso cérebro que controlam os nossos sentidos visuais e auditivos tornam-se mais ativas”, diz Ashley. Isto significa que cada rajada de vento ou piso a ranger é mais alto; cada sombra é mais pronunciada.

E como a amígdala, que regula a sensação de medo, é altamente desenvolvida quando nascemos, é muito fácil desencadear uma resposta de medo nas crianças mais pequenas. Mas, à medida que passamos da primeira infância para os anos da pré-adolescência, o cérebro muda. “As ligações entre a amígdala e o córtex frontal, que está envolvido na regulação das emoções, estão a ser criadas durante este período”, diz Abigail. Isto significa que conseguimos gerir melhor as nossas respostas às coisas assustadoras.

Portanto, à medida que o cérebro se desenvolve, brincar no escuro pode parecer muito menos assustador – e pode até desvanecer a linha entre assustador e divertido. “É muito bom variar as nossas respostas a uma ameaça com base na proximidade e seriedade dessa mesma ameaça”, diz Abigail. “Assim, quando estivermos a lidar com uma ameaça que provavelmente não seja realmente perigosa ou ambígua, obtemos uma resposta mais reduzida da amígdala.”

Mas essa resposta pode continuar a ser positiva, sobretudo quando estamos à procura de um sentimento de medo, como acontece quando estamos a jogar às escondidas no escuro. “Já estamos com medo antes de qualquer coisa acontecer”, diz Ashley. “Quanto maior for a acumulação de suspense ou antecipação, maior será a libertação quando o medo for dissipado.” Depois de um susto, o cortisol e a adrenalina aumentam, e as endorfinas e a dopamina circulam pelos circuitos do nosso corpo. Tudo isto cria sensações agradáveis, diz Abigail.

Brincar no escuro

Os pais podem testar diferentes tipos de brincadeiras no escuro para tentar perceber quais são as que combinam melhor com a idade e a tolerância ao medo dos filhos. “Se as crianças tiverem estrutura, sentem-se um pouco mais seguras”, diz Rebecca Young, professora do ensino secundário em Lafayette, na Califórnia.

Definir os limites físicos é crucial, diz Rebecca, como regras sobre até onde as crianças podem correr ou onde se podem esconder. Para as crianças mais velhas, as brincadeiras vinculadas a histórias assustadoras ou lendas urbanas podem criar uma diversão mais apropriada para a idade. Eis algumas ideias:

Marcar com lanterna: Uma pessoa é “a coisa” e usa a luz de uma lanterna para eliminar os outros jogadores. As regras podem ser alteradas para que todos os jogadores tenham uma lanterna e a pessoa que é “a coisa” tem de tocar num jogador para o eliminar.

Formas com sombras: Use uma lanterna para fazer formas com as mãos, ou com recortes, e projete as sombras numa parede. Conte histórias sobre as formas – engraçadas ou assustadoras – dependendo da idade das crianças.

Fantasma no cemitério: O “fantasma” foge para se esconder. Quando alguém encontra o fantasma, grita: “Fantasma no cemitério!” Depois, o fantasma tenta marcar um dos jogadores restantes. Quem é marcado torna-se no fantasma.

Jogos que brilham no escuro: Use tinta, canetas ou adesivos que brilhem no escuro para fazer jogos simples como brincar com um hula hoop, fazer a dança do “limbo”, uma caça ao tesouro ou jogar bowling às escuras.

Jogar às escondidas com pistas sonoras: Os jogadores que se escondem tocam em dois objetos a cada 60 segundos e quem procura tem de usar os sons para os localizar. Os jogadores que se escondem podem mudar de local durante o jogo.

Discoteca no escuro: Apague todas as luzes, coloque uma música divertida a tocar e dance! Pode adicionar uma bola de discoteca ou materiais que brilhem no escuro para animar as coisas.

Mensagens secretas: Use um guia para código Morse para ver quem consegue descodificar primeiro uma mensagem criada antecipadamente.

‘Limbo’ com lanterna: Use uma lanterna para servir de limite. Os jogadores devem passar por baixo do feixe de luz sem lhe tocar.
 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

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