A pandemia tem provocado muitas preocupações nas crianças. Não deixe que a vacina seja mais uma.

Como acalmar a ansiedade nas crianças sobre poderem infetar outras pessoas ou simplesmente porque pensam que podem ser “deixadas para trás” na vacinação.

Published 17/02/2021, 11:43 WET

    

Fotografia de XESAI / GETTY IMAGES

Quando Nicole Brito, enfermeira no condado de Contra Costa, na Califórnia, levou a vacina contra a COVID-19, a sua filha de seis anos perguntou-lhe se também podia levar uma. Quando Nicole explicou que ainda não havia vacinas para as crianças, a menina ficou preocupada. “Mamã, e se eu apanhar COVID?” perguntou ela. “Não posso levar a vacina para não apanhar COVID? Eu não quero ficar doente.”

Nicole confortou a filha explicando a situação. “Falámos sobre como os cientistas precisam de estudar mais a vacina e que, quando a vacina for aprovada para as crianças, vamos certificar-nos de que ela vai estar na lista”, diz Nicole. “Mas, enquanto isso não acontece, a mãe e o pai estão a trabalhar para vacinar todos os adultos que ela conhece, para conseguirmos mantê-la segura também.”

À medida que mais adultos se alinham para levar a vacina e ficam protegidos da COVID-19, há um grupo que fica de fora: as crianças. Nenhuma das vacinas atualmente em utilização nos Estados Unidos foi aprovada para menores de 16 anos. Tanto a Pfizer como a Moderna estão a fazer ensaios clínicos para verificar a segurança e eficácia das suas fórmulas em crianças a partir dos 12 anos, e os médicos esperam que nos EUA o lançamento pediátrico completo de vacinas aconteça até ao final de 2021.

Enquanto isso não acontece, algumas crianças podem estar preocupadas por poderem infetar outras pessoas, contraírem o vírus sozinhas ou sentirem-se desvalorizadas porque pensam que foram colocadas de parte. Mas os pais podem ajudar.

“A maioria das crianças com quem falámos não tem estado muito nervosa”, diz Vanessa LoBue, professora associada de psicologia e diretora do Centro de Estudos Infantis da Universidade Rutgers. “As que estão preocupadas, estão a pensar sobretudo na possibilidade de perderem familiares, ou ansiosas por poderem propagar o vírus pelas pessoas que amam, porque têm de esperar pela vacina”.

A combinação entre confiança e informação que Nicole Brito deu à sua filha é exatamente o que as crianças precisam, diz Vanessa LoBue. “Se os pais estiverem assustados e derem informações assustadoras aos filhos, é mais provável que as crianças fiquem com medo. Mas se os pais agirem racionalmente e partilharem informações sobre a forma como as vacinas são produzidas e distribuídas, as crianças vão ficar muito menos assustadas.”

O que pode estar a preocupar as crianças

Algumas crianças – sobretudo as mais velhas, cujas vidas foram mais perturbadas pela pandemia – podem ter mais receio de esperar pela vacina do que as outras, diz Vanessa.

“O medo é uma resposta negativa a uma ameaça iminente. Para sentirmos medo, precisamos de compreender que algo no nosso ambiente é ameaçador. Portanto, as respostas das crianças à COVID e à vacina serão vinculadas ao quão bem compreendem o que é a COVID e a ameaça que esta representa.”

As crianças que tiveram uma experiência direta com a doença, sobretudo se perderam um membro da família ou alguém que lhes era próximo, podem ficar mais ansiosas para serem vacinadas e, portanto, podem sentir mais ansiedade enquanto aguardam pela sua vez.

“As crianças aprendem a ter medo ou ansiedade através de três formas básicas”, diz Vanessa. “Uma é através da experiência direta. As outras duas formas, as vias indiretas, acontecem através de informações verbais e observando as reações das outras pessoas.”

Mas não são simplesmente os comportamentos aprendidos que fazem com que as crianças fiquem ansiosas. Também há coisas que estão a acontecer no cérebro.

“A aparência de uma emoção no nosso cérebro depende do que o cérebro se está a preparar para fazermos”, diz Lisa Feldman Barrett, professora conceituada de psicologia na Universidade Northeastern e especialista em neurociência da emoção. A preparação para responder a uma ameaça desencadeia respostas de lutar ou fugir no cérebro. O sistema nervoso prepara-se para libertar hormonas como a adrenalina, que pode fazer o nosso coração acelerar, preparando o corpo para corrermos mais rápido, quase como acelerar o motor de um carro antes de podermos arrancar.

A ansiedade, por outro lado, é um pouco mais complicada. Alguns cientistas acreditam que o lobo frontal – a parte do cérebro diretamente atrás das nossas sobrancelhas – é o centro dos nossos pensamentos conscientes. A amígdala, no centro do cérebro, coordena as respostas às emoções. Os investigadores especulam que a ansiedade acontece quando o cérebro emocional domina o cérebro pensador. É por isso que os nossos receios e ansiedades podem por vezes ser irracionais.

Ajudar as crianças a lidar com as preocupações em torno das vacinas

“Se as crianças estiverem preocupadas porque têm de esperar pela vacina, há a possibilidade de não dizerem isso imediatamente aos pais”, diz Vanessa. “Se os pais estiverem preocupados, devem observar o comportamento das crianças para tentar identificar mudanças repentinas. Problemas em adormecer, perder a paciência com mais facilidade, comer menos do que o normal ou distraírem-se facilmente podem ser sintomas de ansiedade. Mas os pais não se devem preocupar se repararem nestes sinais. Em vez disso, devem tranquilizar os filhos como Nicole Brito o fez.”

“Controlar as informações que as crianças recebem é uma das melhores formas de ajudar a lidar com as notícias que aparentemente estão sempre a mudar sobre as vacinas”, aconselha Vanessa. “A maneira como as crianças reagem depende das informações que recebem, de que fontes e de como os pais estão a reagir a essas mesmas informações.”

“Os pais devem considerar desligar as notícias em detrimento de conversas informadas e calmas sobre as vacinas. As crianças mais velhas podem ter perguntas sobre notícias que ouviram noutro lugar, pelo que a voz dos pais pode ser uma forma tranquilizadora para verificar a realidade.”

“Ter uma conversa sobre germes e sobre como os germes se transmitem de uma pessoa para a outra pode ajudar”, diz Vanessa. Lembre as crianças sobre a realidade da COVID-19: que as crianças e adolescentes contraem e propagam o coronavírus cerca de metade das vezes do que acontece com os adultos e que, mesmo quando contraem o vírus, a maioria dos casos pediátricos documentados não são muito graves.

Os pais também podem salientar todas as formas pelas quais as crianças se têm mantido seguras e lembrá-las de que, apesar de terem de esperar pela vacina, continuam a poder prevenir a infeção e a disseminação do vírus.

“Falar sobre as razões pelas quais está a demorar mais tempo para desenvolver uma vacina para as crianças também é importante”, diz Vanessa. “Os seus filhos podem estar a pensar que são os últimos da fila porque os adultos pensam que as crianças são menos importantes. Lembre-os de que isso não é de todo verdade. Diga-lhes que os corpos das crianças podem não reagir à vacina da mesma forma que os corpos dos pais. A vacina está a demorar mais porque os cientistas estão a reservar um tempo extra para testar as vacinas em crianças, para terem a certeza de que são seguras e eficazes especificamente para os mais novos.”

“Mas os factos não são a única solução para a ansiedade nas crianças. Para as crianças de todas as idades – e até mesmo para os outros adultos que vivam connosco – a melhor maneira de os ajudar a manter a calma é dando o exemplo. Os nossos filhos aprendem a agir seguindo a nossa liderança. Entrar em pânico porque o nosso filho está à espera da vacina também o vai deixar em pânico.”

“Acredito que pode ser muito útil modelar respostas calmas e ter conversas abertas sobre o que está a acontecer, enquanto permitimos que os nossos filhos façam perguntas e recebam respostas lógicas”, diz Vanessa LoBue.
 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

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