Aulas ao ar livre podem ser benéficas para as crianças

Algumas escolas estão a adotar este método durante a pandemia – e os pais também o podem fazer.

Publicado 11/02/2021, 15:18 WET
Em resposta à pandemia de coronavírus, os alunos de uma escola de Peterborough em Ontário, no ...

Em resposta à pandemia de coronavírus, os alunos de uma escola de Peterborough em Ontário, no Canadá, estão a ter algumas das suas aulas ao ar livre.

Fotografia de FATCAMERA / GETTY IMAGES

Numa recente manhã ensolarada de dezembro, um grupo de alunos do jardim de infância da Escola Mangrove do Sarasota reuniu-se em bancos de madeira numa floresta da Flórida para almoçar. Eles sentaram-se numa cabana de madeira com telhado de palha, uma réplica de uma casa usada pelos indígenas Seminoles no início do século XIX que faz parte de uma exposição do museu local. Os alunos passaram a manhã a brincar aos doces ou travessuras entre as assustadoras árvores sem folhas.

Antes de surgir a pandemia, a escola destes alunos, uma escola particular do ensino básico, mantinha cerca de 70% do ensino ao ar livre. Mas, recentemente, o ensino desta escola passou a ser quase completamente ao ar livre. “Os pais dizem que os filhos regressam para casa felizes e cansados”, diz Erin Melia, diretora da Escola Mangrove e professora do 8º e 9º ano.

Com base nas recomendações dos Centros de Controlo de Doenças dos EUA e da Academia Americana de Pediatria, recomendações para se usar o espaço ao ar livre tanto quanto possível para ajudar a conter a disseminação de COVID-19, as escolas públicas e privadas nos Estados Unidos estão a fazer experiências com o ensino ao ar livre. Christy Merrick, diretora da organização sem fins lucrativos Natural Start Alliance, que defende uma educação infantil baseada na natureza, estima que o número de programas escolares ao ar livre passou de cerca de 250 em 2017 para 600 em 2020.

“Percebemos que conseguimos usar qualquer espaço ao ar livre e transformá-lo numa ‘sala de aula’”, diz Olivia Santos, diretora da Escola Preparatória Solar para Raparigas, uma escola pública em Dallas que tem dado mais aulas ao ar livre desde que surgiu a COVID-19.

Mas as crianças não estão apenas mais protegidas contra a COVID-19 por terem aulas ao ar livre. “Por alguma razão, estar ao ar livre aumenta a concentração das crianças sobre as tarefas em que estão a trabalhar”, diz Olivia. “Percebemos que, à medida que os alunos ficam mais interessados, conseguem reter melhor o que aprendem.” Mas mesmo que as crianças não tenham acesso a escolas que consigam dar aulas ao ar livre, os pais podem explorar este tipo de ensino e promover uma aprendizagem extracurricular em casa.

A Escola Lá Fora, com sede na Quinta das Conchas, em Lisboa, disponibiliza um conjunto de iniciativas de aprendizagem e lazer em contexto de floresta baseadas no modelo pedagógico Forest School com o objetivo de reforçar a ligação das crianças com a natureza, tornando-as mais resilientes, confiantes, independentes e criativas. Portugal participa também na iniciativa mundial do Dia de Aulas ao Ar Livre que se assinala a 17 de maio. O Dia de Aulas ao Ar Livre já existe desde 2012, mas só chegou a Portugal no ano de 2017. A sua história teve origem a partir do Dia de Esvaziar a Sala de Aula, criado por Anna Portch, uma ambientalista britânica.

Benefícios da aprendizagem ao ar livre

Como é óbvio, a aprendizagem ao ar livre não é uma coisa nova. Acredita-se que a primeira escola florestal – onde os alunos passam a maior parte do tempo ao ar livre – tenha surgido na Dinamarca no início dos anos 1950. Este tipo de ensino popularizou-se na Alemanha no início da década de 1960 e, mais recentemente, no Reino Unido. As escolas particulares Montessori e Waldorf também costumam incorporar bastante tempo de aulas ao ar livre nos seus currículos.

Os defensores da aprendizagem ao ar livre afirmam que aprender na natureza ajuda as crianças a desenvolverem capacidades de resolução de problemas, pensamento crítico, resiliência, capacidade de trabalhar em equipa e apreciação pela natureza. Uma revisão de uma investigação feita em 2019 confirma estas ideias. Investigadores na Dinamarca também concluíram que aprender na natureza melhora as capacidades de leitura e aumenta a motivação.

Este tipo de aprendizagem não se trata apenas de passar as aulas tradicionais para o exterior, também é uma abordagem mais holística à forma como as crianças são educadas.

“Todos nós aprendemos com a prática”, diz Jeanne McCarty, CEO da Out Teach, uma organização sem fins lucrativos que faz parceria com escolas para lhes apresentar recursos de aprendizagem ao ar livre. “Não se trata apenas de ensinar ao ar livre, mas sim de usar o ar livre para ensinar de forma prática e real. Torna a educação mais relevante para a vida dos alunos. Quando eles experimentam algo, é mais significativo.”  

O que as escolas têm observado

A pandemia foi um “catalisador para a inovação”, diz Ann Byrne, vice-diretora da Escola Florestal Crossway Montessori em Kensington, no estado de Maryland, que se dedicou recentemente à aprendizagem ao ar livre. Esta escola já está a observar benefícios.

Como as crianças têm mais espaço de manobra, os conflitos entre elas parecem ter desaparecido, diz Ann. As crianças rotuladas de hiperativas também estão a obter melhores resultados ao ar livre. “Toda a atividade física exige um grande trabalho muscular, algo que atua como calmante para as crianças.”

Emma Howell, professora na Escola Guilford Central, diz que um dos seus alunos mais complicados se transformou num líder respeitado desde que a escola mudou para a aprendizagem ao ar livre. Desde o outono que os alunos desta pequena escola pública no sudeste de Vermont passam pelo menos metade do dia ao ar livre.

“Estar ao ar livre é simplesmente mais confortável para aquele aluno. Na natureza, ele tem todos os tipos de ideias incríveis”, diz Emma.“Todas as crianças o seguem.”

O receio de que as crianças não aprendem fundamentos importantes nos programas ao ar livre parecem infundados, diz Marie Robinson, diretora das Escolas Katahdin em Stacyville, no Maine. As Escolas Katadhin também aumentaram o número de aulas ao ar livre desde que a pandemia começou.

“Mesmo com dias escolares mais curtos devido à pandemia, continuamos a observar melhorias académicas que não são muito diferentes das de qualquer outro ano escolar”, diz Marie. “Estimular todos os sentidos das crianças está a fazer uma diferença enorme na sua aprendizagem.”

Por exemplo, quando os alunos descobriram uma toca de castores perto da escola, aprenderam um novo vocabulário e a fazer observação científica, para além de aprenderem sobre a biologia e ecologia de vida selvagem ao estudarem estes animais e as suas represas.

“A excitação e o entusiasmo das crianças a estudar esta família de castores impulsionam a sua aprendizagem”, diz Marie.

Estar ao ar livre também tem ajudado na saúde mental das crianças. “A pandemia evocou muitos sentimentos diferentes que muitos de nós nunca tínhamos sentido antes”, diz Marie. “Sabemos que estar ao ar livre reduz o stress e melhora o bem-estar. Só isso já é uma boa razão para o fazer.”

Como os pais podem encorajar uma aprendizagem ao ar livre em casa

É definitivamente necessário empenho para fazer com que a aprendizagem ao ar livre resulte, sobretudo durante o inverno, diz Emma Howell.

“Pode ser desconfortável se estiverem 4 graus e chuva ou vento”, diz Emma. “Portanto, trabalhamos em estratégias para mantermos as mãos quentes. De manhã, coloco um litro de água a ferver dentro de um recipiente numa mala térmica para as crianças colocarem lá luvas a aquecer enquanto comem.”

“Outro passo importante é simplesmente sair de casa. Não se preocupe se ao início as crianças não tiverem a certeza sobre o que fazer por não terem uma brincadeira estruturada ao ar livre. É normal as crianças sentirem incerteza e tédio antes de descobrirem o que fazer.” Eis algumas ideias:

Construa um kit de ferramentas. Capacitar as crianças com utensílios domésticos velhos pode ajudá-las a entrar – literalmente – no mundo natural. “Coisas como panelas velhas, colheres, pás e ancinhos podem ajudar a inspirar a criatividade”, diz Emma.

Procure lesmas. Holly Roger, cofundadora da Wild Whatcom, uma organização sem fins lucrativos que defende a educação ao ar livre no condado de Whatcom, no estado de Washington, sugere que as crianças explorem ambientes húmidos à procura de lesmas e caracóis. Os pais podem ensinar sobre o que as lesmas gostam de comer, onde gostam de estar e observar como se movem, diz Holly. Enquanto estiver a mexer nas folhas, leve algumas para casa para fazer desenhos de folhas com relevo.

Procure ninhos. É inverno e todas as árvores estão sem folhas, pelo que é uma boa altura para brincar ao “contar ninhos”, diz Holly. “Para distinguir entre ninhos de esquilos e de pássaros, lembre-se de que os esquilos precisam de se manterem quentes e secos, portanto, deve procurar por ‘bolhas de folhas’ que são tão altas quanto largas.”

Caminhe e aprenda. Brinque durante as caminhadas para as tornar mais interessantes, diz Emma Howell. Esconda guloseimas no trilho para as crianças encontrarem, brinque às escondidas ao longo do caminho ou tente identificar cores e letras na paisagem.

Descubra “lugares especiais”. Os alunos de Emma Howell têm locais especiais – como uma árvore, pedra ou tronco – que visitam durante alguns minutos por dia ou algumas vezes por semana. “É divertido reparar nas mudanças ao longo do tempo e conhecer realmente um local em específico”, diz Emma.

O mais importante de tudo? Não desistir.

“Não fique desanimado se as crianças disserem que não querem sair. Persista, mesmo que seja apenas durante alguns minutos para começar. Em breve, as crianças vão encontrar todos os tipos de coisas maravilhosas para explorar, desde que tenham tempo e espaço para o fazer.”
 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

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