Como a pandemia está a alterar as amizades entre as crianças

As amizades parecem agora um pouco diferentes. Eis o que isso pode significar quando a crise de COVID-19 terminar.

Publicado 17/02/2021, 15:37 WET

  

Fotografia de KALI9 / GETTY IMAGES

Há pouco menos de um ano, as crianças podiam dar as mãos aos seus amigos, partilhar cobertores nas festas do pijama e reunir-se em torno de bolos de aniversário para ajudar a apagar as velas.

Mas agora não.

Muitas das coisas no nosso mundo atingido pela pandemia são agora bastante diferentes. Mas talvez a mudança mais marcante seja a forma como as crianças interagem umas com as outras. Aprender a socializar numa era de distanciamento social pode ser mais difícil de processar do que qualquer matéria dada nas aulas virtuais, e especialistas como Tracy Gleason, professora de psicologia no Wellesley College, acreditam que, se as amizades das crianças forem alteradas, isso pode ter um efeito sobre elas agora e no futuro.

De acordo com Tracy, isto acontece porque as relações para além da família são fundamentais para o desenvolvimento de uma criança. As amizades ajudam a desenvolver aptidões como negociação, cooperação e resolução de conflitos, e ensinam as crianças a dar apoio e a mostrar empatia. E também estimulam um pensamento independente e abrem as crianças para novas ideias.

Portanto, como é que as crianças estão a manter essas relações agora? A vida social de cada criança depende de uma variedade de fatores, incluindo localização e estrutura familiar, tornando impossível determinar especificamente o que a COVID-19 está – ou pode estar – a mudar no funcionamento das amizades.

“Há quase tantas coisas a acontecer nas amizades das crianças como há crianças”, diz Tracy. Mas os especialistas estão atentos aos padrões e problemas – e até mesmo aos potenciais benefícios inesperados – enquanto as crianças navegam pelos seus “novos normais”.

A nova face da amizade

No ano passado, quando a psicóloga clínica Julie Wargo Aikins não conseguia sair de casa sem pisar desenhos feitos a giz ou via grupos de crianças a andar de bicicleta pelo seu bairro, Julie percebeu que algo estava a mudar no que diz respeito a crianças e amizades. Esta professora associada da Universidade Estadual Wayne sabia que, mesmo antes da pandemia, a maioria das crianças fazia amizades na escola e através de atividades extracurriculares. Com a mudança para o ensino à distância e a presença da aplicação Zoom em tudo, as crianças do seu bairro no Michigan começaram visivelmente a aproximar-se das pessoas que viviam nas proximidades.

“As crianças estão a tentar socializar nos locais onde vivem e estão a interagir com crianças com quem não interagiam antes”, diz Julie, salientando que, “desde que usem máscaras e brinquem ao ar livre, este é um desenvolvimento saudável e bem-vindo”. Por exemplo, derrubar as barreiras da idade nas amizades entre crianças proporciona às crianças mais velhas a oportunidade de assumirem papéis de liderança e incentiva os mais novos a desafiarem-se.

Como é óbvio, nem todas as famílias vivem numa comunidade onde este tipo de interações é possível, e os momentos para brincar ao ar livre diminuíram devido ao tempo frio do inverno. Isto faz com que muitas crianças procurem contacto através de um ecrã.

As videochamadas não eram uma forma comum de as crianças interagirem socialmente, sobretudo as mais novas, mas muitas adaptaram-se rapidamente a este novo meio, diz Julie, que ficou impressionada com a facilidade com que as crianças presentes na sua investigação interagem online. “Neste momento, já estão todas habituadas a frequentar aulas virtuais e fazem-no com facilidade”, diz Julie. “As crianças são adaptáveis e resilientes.”

Mas, devido ao meio onde interagem, estas amizades não conseguem funcionar da mesma forma que funcionavam, explica Catherine Bagwell, professora de psicologia na Universidade Emory. “É um ato mais intencional, não é espontâneo”, diz Catherine. “Desta forma, devido ao planeamento adicional necessário, é mais difícil manter redes maiores de amigos.”

As crianças que continuam a frequentar as aulas presenciais também viram as suas experiências de amizade a mudar, embora talvez de formas mais subtis.

Por exemplo, Maureen Morgan, diretora do Centro de Estudos Infantis do Wellesley College, diz que as crianças na sua pré-escola laboratorial estariam normalmente juntas a brincar com blocos, lápis de cera e outros brinquedos. “Estamos habituados a falar sobre a partilha de coisas, mas agora todos têm as suas próprias coisas”, diz Maureen.

O que significa o novo normal para a amizade das crianças

Através da investigação que está a desenvolver, Hannah Schacter, psicóloga de desenvolvimento, encontrou uma série de notícias promissoras: Numa investigação com cerca de 400 alunos do nono ano que entraram para o ensino secundário no outono de 2020, cerca de 90% relataram ter amigos íntimos. De acordo com Hannah, professora assistente na Universidade Estadual Wayne, isto indica que estes jovens estão a conseguir manter ligações num momento em que o apoio extra é fundamental.

“Perante o stress – seja devido a casos de bullying ou porque estão passar por uma pandemia global – ninguém quer viver estas coisas sozinho”, diz Hannah.

“Na amizade, a qualidade pode ser mais importante do que a quantidade. Quando se trata de afastar sentimentos de solidão, a principal diferença é entre ter uma pessoa e não ter ninguém”, acrescenta Hannah.

Mas Hannah está preocupada porque a COVID-19 pode estar a afastar oportunidades para novas amizades, forçando muitas crianças a uma espécie de jogo da cadeira que as limita às relações que fizeram pouco antes da pandemia.

“Para as crianças que não têm boas amizades, é mais difícil escapar”, diz Hannah. “Não têm tantas oportunidades para criarem amizades informais, como quando se sentam perto de outro aluno na aula de matemática.”

E as amizades, sobretudo nestas circunstâncias, podem ter efeitos adversos. Um estudo feito com adolescentes canadianos durante os estágios iniciais da pandemia descobriu que o tempo que passam virtualmente ligados aos amigos estava relacionado com níveis mais baixos de solidão – mas a taxas mais elevadas de depressão.

Isto não é assim tão surpreendente, diz Hannah, explicando que em determinadas amizades – mais comuns entre raparigas – as preocupações podem tornar-se no foco de todas as conversas, o que acaba por exacerbar a ansiedade. “O que começa como uma simples conversa, pode descambar numa discussão.” (Hannah também refere que os adolescentes que se sentem mais deprimidos também podem ter mais propensão para procurar o apoio dos amigos.)

O alcance mais limitado das amizades também pode ter outras ramificações. Quando os nossos amigos incluem uma mistura entre colegas da equipa de futebol, colegas do teatro e crianças do bairro, tudo isto ajuda a moldar a nossa identidade de várias maneiras. Menos amigos equivale a menos influências.

Círculos sociais mais pequenos e menos interação com amigos periféricos também significa que as crianças estão a perder oportunidades para praticarem a forma como negoceiam as relações dentro de grupos maiores de pares, diz Catherine Bagwell. A vantagem é que as crianças que sofrem de ansiedade social podem exercer mais controlo sobre as suas interações.

Mas há outras áreas a levar em consideração: perder os aspetos físicos da amizade. “Há muitas coisas boas que surgem do tipo de interação de proximidade entre amigos”, diz Catherine, que não sabe como é que isto poderá afetar a forma como os jovens irão interagir à medida que envelhecem.

Maureen Morgan também se interroga sobre a forma como as crianças em idade pré-escolar que usam máscara vão aprender a navegar pelas situações sociais, incluindo futuras amizades. “Ler pistas faciais é uma coisa útil”, explica Maureen, e as crianças não estão a receber esse feedback visual.

Ajuda familiar

À medida que pais e filhos continuam a trabalhar, a frequentar aulas, a comer e a brincar perto uns dos outros, as famílias acabam muitas vezes por estar lá para as crianças quando os amigos não podem estar. Hannah diz que o apoio dos pais fornece um estímulo crítico. (No referido estudo com adolescentes canadianos, mais tempo de interação com a família estava relacionado com menos casos de depressão.)

Embora estas interações não consigam substituir por completo o que as crianças precisam dos amigos, oferecem oportunidades importantes para observar como as crianças estão a lidar com a situação.

“Os pais não podem intervir e assumir o lugar de um amigo”, diz Catherine. Mas os pais podem encorajar os filhos a falarem sobre o que sentem acerca das suas amizades – ou sua ausência. “Dê-lhes uma oportunidade para falarem sobre isso. Pergunte se estão a lidar com desafios. Pergunte se houve algo que os apanhou de surpresa”, diz Catherine.

Estas conversas podem permitir aos pais saber se deviam fazer algo mais proativo, como inscrever os filhos em atividades online ou atividades socialmente distantes, ou convidar os vizinhos para um convívio ao ar livre.

“Os irmãos e irmãs também se podem ajudar quando se sentem isolados”, acrescenta Catherine, “mesmo que por vezes pareça que se odeiam”. Como acontece nas relações entre pais e filhos, não podemos escolher os nossos irmãos, pelo que a dinâmica é diferente daquela que se desenvolve entre amigos. Mas aprender a ter boas relações em casa melhora as aptidões de amizade, como por exemplo respeitar compromissos e trabalhar em equipa.

“Os pais podem encorajar a união entre irmãos atribuindo tarefas que necessitem de duas pessoas, ou simplesmente sugerindo atividades que exijam cooperação, como um puzzle complicado ou um projeto LEGO”, diz Tracy Gleason. Quando a família de Tracy joga online ao jogo “Among Us”, os seus filhos adolescentes adoram formar uma equipa – juntamente com primos de todo o país – para derrotarem os adultos.

E não se esqueça dos amigos imaginários. Tracy diz que, com menos interação social entre crianças, os pais podem estar a ouvir mais histórias sobre dinossauros cor de rosa ou ratos gigantes tagarelas.

Estas “amizades” podem na verdade ser o seu filho a insinuar que quer falar mais consigo, diz Tracy. “Faça muitas perguntas sobre os amigos imaginários para as crianças conseguirem desenvolver as suas fantasias.”

Vai chegar um momento – esperamos que seja em breve – em que mais crianças vão regressar para a vida dos nossos filhos. Tracy diz que os pais podem vir a desempenhar um papel nesta transição de regresso à amizade física, intervindo para garantir que as crianças conseguem encontrar o caminho para algo que esteve temporariamente ausente. “Essas aptidões acabarão por surgir, mesmo que tenhamos perdido algum terreno.”
 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

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