Como a ‘TV Pandemia’ estimula o QI emocional das crianças neste momento crítico

Os novos programas ajudam as crianças a lidar com os seus sentimentos – e a ligarem-se a outras pessoas – enquanto estão socialmente distantes.

Por CAROLINE KNORR
Publicado 2/03/2021, 15:05
SUPERAR PROBLEMAS COM A TV
A série My Stay-at-Home Diary apresenta crianças reais em confinamento, como Ephraim, ...

SUPERAR PROBLEMAS COM A TV
A série My Stay-at-Home Diary apresenta crianças reais em confinamento, como Ephraim, de 11 anos, que vive em Kitchner, no Canadá, que aparece nesta imagem a participar no seu desafio de fazer algo novo todos os dias.

Fotografia de LOPII PRODUCTIONS

Poucos meses depois de estar em confinamento em Toronto, Sarah Hammond começou a procurar algo para preencher as necessidades sociais dos seus filhos, enquanto estes estavam fechados em casa. Foi quando Sarah, professora do ensino público e mãe de dois filhos, descobriu a série Lockdown, uma série YouTube Originals sobre um grupo de amigos que usa o Zoom, textos e webcams para resolver um mistério, apesar de estarem socialmente distantes. Bingo.

“Os meus filhos adoram isto porque lhes ensina que, embora estejamos separados, ainda existem formas de interação social e ligação – algo que agora as crianças precisam desesperadamente”, diz Sarah.

De acordo com o site de notícias Axios, o tempo que as crianças passam em frente aos ecrãs aumentou 50% em relação ao período pré-pandemia. Para evitar atrasos ao nível escolar – e talvez até para aliviar o seu próprio sentimento de culpa – muitos pais têm procurado programas educativos projetados para manter os níveis de aprendizagem nas crianças, ou até mesmo vídeos criados por professores.

Mas as crianças no ensino à distância perdem mais do que se estivessem fisicamente na sala de aula; na verdade, a ausência de ligações sociais provocada pelos confinamentos é alarmante tanto para pais como para os especialistas em desenvolvimento infantil. É por esta razão que alguns criadores de programas de televisão infantis estão a desenvolver uma nova geração de programas de televisão online, programas especificamente projetados para apoiar o bem-estar emocional das crianças durante este período stressante. Fundamental para este projeto é o lançamento de programas quando as crianças mais precisam (agora) e onde as crianças passam mais tempo (nos seus telemóveis e noutros dispositivos móveis).

“Estamos de regresso ao futuro”, diz David Kleeman, vice-presidente de tendências globais da Dubit Limited, um estúdio de pesquisa e desenvolvimento digital. “A televisão é um meio antiquado, mas está a ressurgir, em parte, porque os serviços de streaming aprenderam a ser ágeis e responsivos ao que está a acontecer atualmente na vida das crianças.”

Uma nova forma de TV educativa

Embora possa parecer estranho que as crianças obtenham a sua dose de televisão onde veem os seus TikToks, estes novos programas não são iguais aos do costume. Considerando que os vídeos produzidos para as redes sociais tendem a idealizar, a distorcer ou a manipular a realidade, estes novos programas filmados e lançados durante a pandemia retratam verdades evidentes – e por vezes as duras realidades – do mundo da atualidade. E como são feitos por produtores de programas de televisão infantis responsáveis por alguns dos maiores sucessos na televisão tradicional, estes vídeos incorporam conteúdos apropriados para a idade e vertentes educativas – ao contrário de muitas das coisas que as crianças podem encontrar na internet.

Para além da série Lockdown, estes chamados programas de “TV Pandemia” incluem a série My Stay-at-Home Diary (da PBS), um documentário de várias partes sobre a forma como as crianças pelo mundo inteiro estão a lidar com a pandemia; a série NBC Nightly News Kids Edition (da NBC News), um resumo para crianças dos eventos da atualidade que é apresentado por Lester Holt; e Noggin Knows (aplicação da Noggin), um programa pré-escolar para complementar o ensino à distância.

Os especialistas dizem que este tipo de televisão, quer seja transmitido na televisão grande da sala ou num ecrã minúsculo debaixo das mantas, pode ser eficaz para responder às necessidades emocionais das crianças. De acordo com Michael Levine, chefe de aprendizagem e impacto da Noggin, “existem centenas de estudos que remontam até ao início da década de 1970 e que indicam que as crianças conseguem aprender aptidões académicas, de saúde e de desenvolvimento social com os programas projetados para a sua idade e estágio de desenvolvimento”.

Ajudar as crianças a lidar com os sentimentos

Fomentar uma ligação emocional durante estes tempos de incerteza foi um dos objetivos importantes para J.J. Johnson, da Sinking Ship Entertainment, que criou a série Lockdown. Embora tenha trabalhado em produções de grandes orçamentos e conte com alguns prémios Emmy no seu currículo, Johnson filmou Lockdown com webcams e smartphones para respeitar as restrições impostas pela pandemia e criar um ambiente com o qual o seu público jovem se consiga identificar.

“Orgulhamo-nos de conseguir falar com as crianças ao seu nível e de lidar com os tópicos de forma honesta”, diz Johnson. “Portanto, sabendo que todas as crianças estavam a passar por este trauma durante a sua formação, parecia adequado abordá-lo de frente.”

Personagens da série Lockdown, uma série YouTube Originals, tentam resolver um mistério enquanto estão socialmente distantes.

Fotografia de SINKING SHIP ENTERTAINMENT

Para alcançar o mesmo tipo de relação com a sua série documental My Stay-at-Home Diary, as irmãs Rennata e Georgina Lopez, da Lopii Productions, em Toronto, adotaram uma abordagem semelhante e trabalharam com famílias de todo o mundo para as ajudar a gravar vídeos das suas vidas diárias durante a pandemia.

“Queríamos criar um programa para crianças sobre a COVID-19 que fosse honesto e que lidasse com as emoções genuínas que as crianças pelo mundo inteiro estão a enfrentar”, diz Rennata.

Os seus esforços foram recompensados de duas formas. Amanda Driscoll, de Toronto, diz que a série My Stay-at-Home Diary ajudou os seus filhos, Logan, de nove anos, e Clark, de seis, a sentirem-se menos sozinhos, apesar das suas férias escolares prolongadas. “Mesmo que as crianças no programa sejam de países diferentes, os meus meninos sentem que estão a ver os amigos na televisão”, diz Amanda. E a série ganhou recentemente o prémio 2021 Kidscreen para melhor série original na internet para crianças.

Fomentar resiliência através da TV

Embora os pais possam ficar preocupados em permitir que os filhos enfrentem uma realidade nua e crua através de programas como Lockdown e My Stay-at-Home Diary, as investigações mostram que assistir a coisas difíceis através de um ecrã pode aumentar a resiliência emocional das crianças.

“As informações que as crianças obtêm – quando compreendem as suas próprias experiências e as de outras pessoas – oferecem as aptidões que as crianças precisam para lidar com estes momentos, e isso vai ser benéfico quando tudo isto passar”, diz Ellen Wartella, professora na Escola de Comunicação da Universidade Northwestern e investigadora conceituada sobre o impacto dos meios de comunicação nas crianças.

Sarah Hammond observou este efeito na sua filha, Emma. Quando os adolescentes em Lockdown usam a tecnologia para resolver um mistério, isso é uma demonstração de perseverança perante a adversidade. “E mostrou à minha filha que ainda há coisas que podemos fazer se formos criativos e usarmos a nossa imaginação”, diz Sarah.

Ellen Wartella também acredita que estes tipos de programas representam uma oportunidade para os pais falarem com os filhos sobre os tópicos abordados nos episódios, porque levantam questões que normalmente não acontecem no nosso quotidiano.

“Isto abre uma forma de compreensão sobre as preocupações e receios das crianças, coisas sobre as quais, de outra forma, as crianças poderiam não querer falar”, diz Ellen.

Lidar com o tempo passado em frente ao ecrã

Apesar dos benefícios, os programas de “TV Pandemia” podem resultar em horas acumuladas em frente a um ecrã, alimentando a preocupação de as crianças ficarem ainda mais isoladas e desligadas. Mas direcionar as crianças para os tipos de programas que as envolvam emocional e intelectualmente pode neutralizar alguns dos aspetos negativos do aumento do tempo passado em frente a um ecrã

“Concentre-se em como a experiência vai melhorar ou piorar as relações humanas”, diz Michael Levine. “Observe de que forma é que este meio pode abrir as portas para uma comunidade maior – família, amigos e colegas – que deve nutrir uma criança em desenvolvimento.”

Por exemplo, a série My Stay-at-Home Diary inspirou os filhos de Amanda Driscoll a refletirem mais profundamente sobre as suas próprias vidas e sobre a importância das relações e rotinas familiares. “Mesmo que seja apenas a ver outras crianças a cozinhar ou a passear o cão, eles percebem que também fazem isso, ou que podem fazer isso quando a pandemia acabar”, diz Amanda.

Assistir a estes programas com os filhos também pode ajudar. “Os pais podem ver exatamente o que os filhos estão a ver e quais são as coisas a que respondem”, diz David Kleeman.

Enquanto as famílias enfrentam uma quantidade desconhecida de tempo fechadas em casa, Ellen Wartella concorda que usar a televisão como uma forma de os pais se ligarem às crianças é uma maneira perfeitamente boa de passar o tempo. Ellen diz que o vínculo que se cria quando os pais sabem o que os filhos estão a ver, e quando debatem os tópicos observados, isso dá origem a uma relação mais próxima – e também afasta o sentimento de culpa.

“Quando os pais percebem que estes programas estão a revelar alguns dos problemas profundos que são importantes para as crianças, podem ligar-se de forma mais significativa aos filhos”, diz Ellen. “E quando percebem a utilidade destes programas, isso pode ajudar os pais a sentirem-se menos ansiosos em relação ao tempo que as crianças passam a vê-los.”
 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

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