Dar demasiadas coisas às crianças pode fazê-las infelizes

As coisas novas podem fazer com que as crianças se sintam melhor – mas não por muito tempo.

Publicado 24/03/2021, 16:14
criança

As crianças sabem que o dinheiro compra coisas – mas essas coisas nem sempre as fazem felizes.

Fotografia de JOSE LUIS PELAEZ INC / GETTY IMAGES

Quando o filho de Choncé Maddox estava no primeiro ano, ela já sentia que se estava a afogar em coisas – ele tinha tantos brinquedos e jogos que Choncé já não conseguia acompanhar.

“Comprar um monte de coisas só vai fazer com que as crianças queiram ter ainda mais coisas”, diz Choncé, escritora e blogger de finanças pessoais. “Isso não vai melhorar o humor das crianças a longo prazo ou impedir que se sintam entediadas aos fins de semana. Eu queria ensinar isso ao meu filho desde muito cedo, para que ele não crescesse a pensar que a felicidade é algo que se pode comprar.”

Foi por essa razão que Choncé começou a enfatizar o fazer mais em vez de comprar mais.

As investigações sugerem que uma ênfase no dinheiro e nos bens materiais durante a infância pode moldar os nossos valores materialistas enquanto adultos. E embora as crianças precisem de compreender de onde vem o dinheiro e como o ganhamos, a ideia de que adquirir mais coisas é a chave para a felicidade pode ser prejudicial para o desenvolvimento infantil.

“Nós gravitamos para as coisas materiais porque elas dão-nos um impulso de felicidade”, diz Lan Nguyen Chaplin, professora-adjunta de marketing na Universidade de Illinois, em Chicago. “Mas somos apanhados num ciclo onde pensamos que, se pudéssemos ter aquele brinquedo ou aquela camisa, seríamos mais felizes.”

Com todas as preocupações económicas em torno da pandemia, esta pode ser uma ótima oportunidade para se iniciar uma conversa com as crianças sobre valores financeiros. Descubra como o materialismo pode impactar negativamente as crianças e como os pais podem ensiná-las a dar valor às coisas.

Materialismo e felicidade

O materialismo juvenil está fortemente associado à baixa autoestima, bem como à depressão, ansiedade, pouca motivação e comportamentos egoístas. Da mesma forma, os adultos materialistas tendem a ser mais inseguros, menos generosos e têm um bem-estar subjetivo mais inferior.

Os investigadores sugerem que esta relação é circular. Por outras palavras, os sentimentos de baixa autoestima podem alimentar o desejo por bens materiais que pensamos que nos podem fazer felizes e que simbolizam o sucesso. Mas quando esses bens não correspondem às nossas expectativas, ficamos ainda mais insatisfeitos e o padrão de querer comprar continua.

Inicialmente isto dá-nos uma injeção de alegria – até que ansiamos pela coisa seguinte.

De facto, as investigações de neuroimagiologia sugerem que comprar pode ativar os sistemas de recompensa do nosso cérebro e libertar a dopamina química do bem-estar – mas esses efeitos são apenas temporários. A dopamina também está associada à aprendizagem; quando algo nos faz sentir bem, temos mais probabilidades de repetir esse comportamento.

O cérebro em desenvolvimento dos mais jovens pode ser mais sensível a estes tipos de recompensas. Por exemplo, o nucleus accumbens, ou centro de prazer do cérebro, mostra um pico de atividade durante a adolescência.

Como ajudar as crianças a dissociar o materialismo da felicidade

As boas notícias: os pais podem neutralizar algumas das mensagens materialistas que os filhos recebem através dos colegas e da publicidade. “O segredo está em passar tempo com os filhos, comunicar com eles e fomentar uma sensação positiva de identidade”, diz Lan Chaplin.

Evite usar bens materiais como castigo ou recompensa. Os pais podem inadvertidamente reforçar mensagens materialistas através de algo que se chama paternidade material, ou quando usam bens materiais como recompensa por um bom comportamento e privando as crianças dessas mesmas coisas como uma forma de castigo. Esta é uma estratégia bastante comum, explica Lan Chaplin. “Mas, a longo prazo, existe um foco maior sobre as coisas materiais, e as crianças crescem a dar mais ênfase às coisas materiais como um sinal de sucesso e conquista.”

Num dos estudos, Lan Chaplin e os seus colegas pediram a adultos para se lembrarem se os seus pais usavam bens materiais como uma forma de recompensa ou punição por diferentes comportamentos. Os participantes cujos pais usavam esta estratégia tinham mais propensão para julgar o sucesso de outras pessoas com base nos produtos que possuem e respetiva quantidade.

Fale sobre publicidade. Um estudo feito pela Associação Americana de Psicologia descobriu que, em média, uma criança assiste anualmente a mais de 40.000 anúncios publicitários, o que muitas vezes sugere que as posses estão diretamente relacionadas com a felicidade, beleza e sucesso. Isto pode fazer com que o comportamento materialista seja usado como um mecanismo de defesa quando as crianças não vivem de acordo com os ideais dessa mesma publicidade.

“As crianças nem sequer sabem o que é um anúncio quando são muito novas –apenas veem algo e acham que é ótimo”, diz Marsha Richins, professora de marketing na Universidade do Missouri.

Os estudos revelam que alertar as crianças para os conteúdos de propaganda manipuladora pode aumentar o seu ceticismo e reduzir o desejo por um determinado produto. Lan Chaplin diz que os pais podem ajudar as crianças a verificar os factos e mostrar-lhes como podem pensar criticamente sobre os produtos. Por exemplo, se estiverem a ver um programa juntos e virem um anúncio sobre um novo telefone, é a oportunidade perfeita para dizer: eu não compraria este telefone porque tenho um que funciona perfeitamente bem.

Concentre-se em fomentar a autoestima. Em vez de se focar nos bens materiais como indicadores de sucesso, ajude as crianças a concentrarem-se na construção de algo que Marsha Richins chama de “recursos intangíveis”. Incentive as crianças a desenvolverem amizades e a procurarem interesses que aumentem a sua autoestima sem dependerem de bens materiais – isso mostra que o sucesso e a realização não dependem necessariamente da compra de coisas.

O materialismo está altamente correlacionado com a baixa autoestima, acrescenta Lan Chaplin. Uma ótima forma de promover a autoestima é passar tempo de qualidade com as crianças e participar nas atividades que elas adoram. “Assim, não vão sentir que precisam se agarrar a objetos fugazes para aumentarem a sua autoestima, porque já se sentem bem consigo próprias.”

Encontrar melhores maneiras de ser feliz

Em geral, o salário não é um forte indicador de felicidade, mas sabemos, através de estudos feitos com adultos, que podemos gastar o nosso dinheiro extra de formas que têm mais probabilidades de nos fazer felizes. Portanto, embora as crianças provavelmente ainda não tenham a sua própria fonte de rendimento, os pais podem começar a desenvolver esses hábitos agora.

Explique a diferença entre desejo e necessidade. Ajude as crianças a compreender o valor dos produtos e, por consequência, como devem priorizar os gastos, diz Lan Chaplin. Por exemplo, quando uma criança pede algo, devemos iniciar uma conversa sobre desejos e necessidades. Devemos explicar que o que elas querem é único, quanto custa e quanto do seu próprio dinheiro precisariam de economizar para o conseguirem comprar. “Os pais ficariam surpreendidos com o quão cuidadosamente as crianças pensam sobre necessidades e desejos quando se trata do seu próprio dinheiro”, diz Lan Chaplin. As crianças geralmente acabam por ver mais valor em economizar para algo que realmente queiram.

Fomente gratidão e generosidade. Níveis mais elevados de gratidão estão associados a níveis mais baixos de materialismo. Os investigadores sugerem que isto acontece porque a gratidão aumenta os sentimentos de segurança, bem-estar e generosidade, o que, por sua vez, reduz a ênfase nos bens materiais como meio de conforto e felicidade. Para além de diminuir o materialismo, a gratidão está associada a um melhor desempenho escolar, a níveis mais baixos de depressão e a ligações sociais mais fortes.

Num dos estudos, Lan Chaplin e os seus colegas pediram a adolescentes para anotarem todos os dias num diário as coisas pelas quais estavam gratos. “Após cerca de duas semanas, eles sentiram que precisavam de menos coisas nas suas vidas”, diz Lan Chaplin. “E não foi só isso, também sentiram que precisavam de partilhar o que tinham com os outros.”

Os pais também podem fomentar os sentimentos de gratidão no seu estilo de vida familiar, fazendo coisas como doar brinquedos com os quais as crianças já não brincam. “As crianças percebem que têm todos estes bens materiais em excesso e que podem partilhá-los com pessoas que não têm o suficiente.”

Invista em experiências – e ajude as crianças a lembrarem-se delas. Os estudos feitos com adultos mostram de forma consistente que as compras experienciais levam a uma felicidade mais duradoura, porque as pessoas tendem a ligar-se mais através de experiências partilhadas – não através de bens materiais. Dito isto, as crianças mais pequenas normalmente obtêm mais felicidade com coisas materiais. Portanto, quando é que as crianças mudam? É algo que tem que ver com o desenvolvimento do cérebro.

“Muitas vezes ouço pais a queixarem-se de que não deviam ter levado os filhos para a Europa porque eles não gostaram”, diz Lan Chaplin. “Mas as aptidões de memória das crianças são ineficazes numa determinada idade.” Ao contrário dos objetos tangíveis, as experiências tendem a ser fugazes e abstratas – e as crianças simplesmente não se lembram muito bem delas.

Conforme as crianças ficam mais velhas, a sua memória e recordação melhoram, e conseguem lidar melhor com informações abstratas. É quando aprendem a apreciar melhor as experiências. “As crianças começam a compreender que as pessoas não gostam muito de conversar sobre uns ténis novos, por exemplo, mas gostam de saber o que fizemos no fim de semana”, explica Lan Chaplin.

Os pais podem ensinar os filhos mais novos a valorizarem as experiências, ajudando-os a lembrarem-se. Os souvenirs ou presentes são objetos concretos que podem ajudar as crianças a lembrarem-se das férias em família, mas também podemos criar memórias de forma gratuita, diz Lan Chaplin. Os pais podem tirar fotografias e captar vídeos das festas de aniversário, das férias e de momentos em família para que possam olhar para trás e recordar juntos. Porque quando as crianças se começam a lembrar de experiências agradáveis, têm mais propensão para fazer escolhas semelhantes no futuro que aumentem a sua felicidade.
 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

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