O tempo que as crianças passam em frente aos ecrãs acabou – eis como regressar à leitura

Ficção escrita por fãs e outras formas surpreendentes de fazer com que as crianças regressem aos livros.

Publicado 11/03/2021, 12:43 WET
Descubra dicas para fazer com que os seus filhos ou netos retomem a leitura.

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Fotografia de IMGORTHAND / GETTY IMAGES

A filha de 6 anos de Marisa Johnson estava a aprender a ler de forma independente quando a sua escola em Alameda, na Califórnia, encerrou no ano passado. Sem aptidões sólidas de literacia e com demasiado tempo fechada em casa, a criança começou a passar mais tempo a jogar videojogos e a ver televisão do que a ler livros.

“Ela está definitivamente a ler menos”, diz Marisa. “A única maneira de estarmos em sossego é com ecrãs.”

Como muitos pais sabem, o tempo passado em frente aos ecrãs aumentou bastante durante a pandemia. De acordo com um estudo publicado na revista Nature, durante o confinamento na Alemanha o tempo passado com dispositivos recreativos aumentou 67% entre as crianças dos 4 aos 17 anos. A Dubit Limited descobriu um aumento de 11% no tempo que as crianças nos EUA com idades entre os 2 e os 15 anos passam em frente aos ecrãs; e o uso de computadores portáteis aumentou 52%, provavelmente devido ao ensino à distância.

Embora nenhum estudo tenha demonstrado que o aumento do tempo passado em frente a um ecrã tenha resultado numa diminuição do tempo de leitura recreativa, é possível que isso esteja a acontecer, diz Christine Elgersma, editora de recursos de aprendizagem da Common Sense Media. E a combinação entre perda de aprendizagem devido ao encerramento das escolas e a diminuição do tempo de leitura pode ter consequências.

As investigações têm vinculado de forma consistente as atividades de leitura e a proficiência ao sucesso académico, ao aumento da empatia e a uma compreensão mais aprofundada do mundo – coisas que a maioria dos pais deseja para os seus filhos. Mas, apesar de os ecrãs terem assumido o controlo da vida das crianças, os pais ainda vão a tempo de os direcionar novamente para os livros, diz Maria Russo, ex-editora de livros infantis do New York Times e coautora de How to Raise a Reader.

“Se os pais querem que os filhos se tornem leitores, precisam de os ajudar a encontrar livros de que gostem”, diz Maria. “Isto significa que o trabalho dos pais não consiste em forçar que os filhos leiam ou retirar-lhes os dispositivos – o trabalho dos pais é ajudá-los a descobrir os tipos de livros que os entusiasmam.”

Maria admite que agora pode ser mais difícil fazer isso, mas os métodos que os pais podem usar para incentivar a leitura nas crianças não mudaram devido à pandemia. Eis algumas dicas para começar:

Explore os interesses das crianças. Combine os livros com os interesses das crianças – quer sejam animais, história ou Minecraft – e as crianças vão ficar interessadas. “São coisas que as crianças mal podem esperar para ler”, diz Maria. “As crianças anseiam por estes tipos de livros.”

Tenha em consideração a personalidade da criança. “Algumas crianças querem apenas procurar informações”, diz Maria. “São crianças que não estão necessariamente a ler porque gostam da narrativa, mas sim porque procuram respostas para as suas perguntas.” Maria sugere atlas ou almanaques, como o 'Livro de Recordes do Guinness'.

Limite o acesso a dispositivos e disponibilize livros. As tentações digitais podem ser difíceis de resistir até mesmo para os adultos, diz Christine Elgersma. Estabelecer algumas regras pode ajudar. “Definir horários e zonas da casa sem ecrãs incentiva as crianças a encontrar outras coisas para fazer.” Por exemplo, antes da hora de dormir ou numa tarde de fim de semana.

E devemos facilitar a leitura: “Devemos ter alguns livros espalhados pela casa que possam atrair as crianças que estão à procura de algo para fazer”, diz Christine.

Preencha as lacunas. Para as crianças que vivem em comunidades homogéneas, a leitura de livros de autores que possam oferecer uma visão realista de um mundo diferente – quer seja racial, regional ou socioeconómica – pode ajudar as crianças a desenvolver empatia e compreensão. “Este é o mundo que as crianças vão herdar”, diz Maria Russo.

Crie hábitos de leitura. Visite livrarias ou faça visitas regulares à biblioteca para ajudar a criar o hábito de procurar livros novos, diz Maria. Depois, quando as crianças crescerem, também vão entrar nas livrarias. “As crianças descobrem-se inconscientemente imitando a forma como os pais vivem.”

Ler por prazer em frente aos filhos também ajuda, diz Theresa Yang, bibliotecária escolar e mãe de quatro filhos que recentemente realizou uma noite de alfabetização virtual a partir da antiga escola dos seus filhos em nome da sua empresa, a Graphic Campus. “Fizemos uma sondagem e perguntámos às crianças se tinham pais que liam por prazer. Todas tinham uma resposta”, diz Theresa. “As crianças são muito observadoras dos hábitos de leitura dos pais.” Theresa diz que reparou numa correlação entre as crianças que disseram que os pais liam e alunos que eram leitores assíduos.

Explore géneros diferentes. Romances gráficos, poesia e romances em verso podem ser maneiras mais fáceis para as crianças se interessarem por livros. “Assim, não se deparam com uma parede de texto”, diz Gene Yang, marido de Theresa e autor de várias novelas gráficas, incluindo o livro vencedor do prémio Printz, American-Born Chinese.

Não se deixe intimidar pelos temas mais difíceis. À medida que as crianças crescem, alguns pais podem recear que alguns dos tópicos nos livros para jovens adultos sejam demasiado pesados. Mas Maria diz que, se as crianças estiverem interessadas, é pouco provável que lhes seja prejudicial. “Não prefere que o seu filho aprenda sobre estas coisas através de um livro em vez de procurarem a internet?” pergunta Maria.

Para além disso, os tópicos difíceis podem ajudar a contextualizar o que está a acontecer no mundo das crianças. “Os pais podem achar que as crianças não estão preparadas para ler sobre toxicodependência ou brutalidade policial”, diz Maria. “Mas, se for sobre isso que os seus amigos estão a falar, elas vão querer participar na conversa.”

Incentive o seguimento de uma série. Mergulhar nas comunidades de fãs e criar e publicar “fan art”, ou vestir-se como as personagens favoritas (cosplay) pode ajudar a manter as crianças animadas com os livros, diz Gene Yang, que atualmente está a escrever um romance gráfico sobre Batman/Super-homem para a DC Comics. Escrever ficção em plataformas online pode ser uma forma divertida de misturar leitura e escrita. “Creio que a ficção escrita por fãs e o cosplay oferecem às pessoas em geral – e às crianças em particular – uma maneira de participar naquilo que estão a ler”, diz Gene.

Crie comunidades e ligações. Ler não precisa de ser uma experiência solitária, diz Christine Elgersma. “Ler um livro em conjunto – em voz alta ou ao estilo de um clube de leitura – pode adicionar um elemento social e de união.” E isso é algo que os pais podem fazer com os filhos, ou podem ajudar a organizar sessões virtuais com os amigos das crianças. (Descubra como começar um clube de leitura em família.)

Nos intervalos da noite de alfabetização organizada pela família Yang, os professores levaram as crianças numa caça ao tesouro de livros: pediram às crianças para encontrarem livros diferentes – um livro favorito, um género específico, um livro com uma capa de determinada cor – e pediram para os mostrarem no ecrã. “Esta atividade criou uma noção de comunidade, mesmo que virtualmente”, diz Gene.

Leia histórias sobre a sua família. Gene Yang mostrou recentemente aos filhos um texto que um jovem primo tinha escrito para a escola sobre os avós de Yang. “Eles ficaram muito encantados”, diz Gene, acrescentando que adoraram ler sobre a história da família sob a perspetiva de outro membro familiar. Gene sugere aos pais para pedirem aos avós ou irmãos para procurarem coisas antigas que possam estar esquecidas em sótãos ou garagens. “Todas as famílias têm o seu corpo literário”, diz Gene.

Ceda – um pouco – ao meio digital. As investigações sobre os benefícios dos livros em papel versus e-books são inconclusivas, mas Christine diz que se os e-books (ou até mesmo os áudio-livros) forem aquilo que deixam o seu filho animado com a leitura, não faz mal. Basta evitar a leitura em aplicações que tenham demasiados recursos interativos, que reduzem comprovadamente a retenção de informações.

Não se preocupe. Para os pais cujos filhos eram leitores, mas que agora passam os tempos livres agarrados a uma Xbox, não se preocupem, diz Maria. À medida que se aproximam da adolescência, as crianças podem estar apenas a fazer uma pausa e a tentar definir as suas próprias identidades. “A realidade é a de que os livros e a palavra escrita são realmente uma ótima forma de contar histórias e transmitir informações. E quando as pessoas estão à procura disso mesmo, gravitam novamente para os livros.”

E se a leitura simplesmente não estiver a acontecer agora, não seja tão duro com as crianças (ou consigo próprio). “Tive bastante mais dificuldades em conseguir concentrar-me na leitura durante a pandemia”, diz Gene Yang. “Portanto, eu acredito mesmo que as pessoas devem ser mais permissivas consigo próprias – e com os filhos.”
 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

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