Sabemos que a pandemia está a afetar as mães que trabalham – mas como é que isso afeta as crianças?

Uma mudança nos papéis de género pode estar a afetar as crianças e os pais.

Publicado 9/03/2021, 18:24

   

Fotografia de MASKOT / GETTY IMAGES

Com dois mestrados, incluindo um MBA da Universidade de Colúmbia, Sarah Shtutin valorizou sempre a sua carreira de consultora de saúde. Mas no ano passado, quando surgiu a pandemia, Sarah e o seu marido decidiram que, como o marido tinha o salário mais elevado e o horário menos flexível, Sarah iria reduzir em metade as horas de trabalho para cuidar dos seus três filhos, todos com menos de seis anos, e que agora estão todos em casa.

Ao início, sem a pressão de despachar as crianças de manhã e com mais tempo para brincar ao ar livre, as coisas estavam ótimas. “Mas nunca pensei que chegássemos a fevereiro e ainda estivéssemos assim”, diz Sarah. “Neste momento, sinto-me completamente exausta.”

Com o arrastar da pandemia, a experiência de Sarah Shtutin já não é praticamente uma novidade: nos EUA, quase um milhão de mães abandonaram o mercado de trabalho desde o início dos confinamentos, e muitas outras mães reduziram o seu horário de trabalho para tratar de responsabilidades domésticas. As mulheres que trabalham também estão a assumir mais responsabilidades com os cuidados dos filhos, pois as escolas e creches continuam encerradas.

De acordo com o Departamento do Trabalho dos EUA, desde o início da pandemia, o número de mulheres no mercado de trabalho caiu para cerca de 56%, em comparação com os quase 58% registados em janeiro de 2020 (ou 57.5% em 2019). “Regressámos a 1988 no que diz respeito aos níveis de emprego feminino”, diz Julie Kohler, cientista social e bolseira do Centro Nacional de Direito Feminino. “Não consigo parar de pensar que, em menos de um ano, erradicámos 30 anos de vitórias das mulheres ao nível do trabalho.”

Devido a essas vitórias constantes no mercado de trabalho desde os anos 1980, os papéis tradicionais de género também começaram lentamente a mudar. Por exemplo, a quantidade de trabalho doméstico que os homens casados agora fazem mais do que duplicou desde os anos 1960 (embora as mulheres casadas ainda façam, em média, o dobro do trabalho doméstico em relação aos homens). E nos últimos 15 anos, as mulheres tornaram-se menos propensas a serem o principal membro responsável pelas compras, lavar roupa, cozinhar, lavar loiça e limpar, embora na maioria dos lares ainda desempenhem essas funções. Os psicólogos e sociólogos dizem que os papéis de género em casa têm um impacto enorme sobre a forma como as crianças crescem, bem como sobre quais são as expectativas para si próprias e futuras famílias.

Os especialistas preocupam-se com o facto de a pandemia estar rapidamente a reverter as conquistas de equidade que as mulheres conseguiram nos últimos 30 anos, e também estão preocupados com os impactos duradouros sobre as crianças, que observam uma mudança nos papéis de género em casa. Contudo, as escolhas que os pais fazem durante este período podem minimizar os efeitos nas crianças e até mesmo trazer mudanças positivas nestes tempos mais conturbados.

Como os papéis de género em casa influenciam o desenvolvimento de uma criança

“Quando a mãe depende mais do pai para sustentar a família, essa situação é muito tradicional em relação ao género”, diz Martie Haselton, professora de psicologia na Universidade da Califórnia, em Los Angeles, e no Instituto para a Sociedade e Genética. Antigamente, isto geralmente significava que as mulheres – que trabalhavam ou não fora de casa – assumiam mais as tarefas domésticas e as responsabilidades no cuidado dos filhos.

Esses papéis mais tradicionais afetam a forma como as crianças crescem. Por exemplo, de acordo com os dados divulgados pela Harvard Business School em 2015 e 2018, as filhas de mulheres domésticas fazem mais tarefas domésticas na idade adulta do que as filhas de mulheres com empregos, enquanto que os filhos adultos fazem menos trabalho em casa, mesmo que tenham uma situação de emprego mais precária.

Mas, durante os últimos 30 anos, à medida que mais mulheres começaram a fazer parte do mercado de trabalho e a ganhar salários mais elevados, os papéis de género em casa também se tornaram mais equitativos – e tendencialmente as crianças beneficiaram com isso. Os referidos estudos de Harvard também revelam que as mulheres cujas mães têm empregos têm mais probabilidades de ocupar cargos de liderança e ganhar salários mais elevados do que as mulheres cujas mães são domésticas a tempo inteiro. Os filhos de mulheres com empregos tendem a ter atitudes de género mais igualitárias e gastam por semana cerca de 50 minutos adicionais a cuidar dos membros da sua família.

Porém, à medida que a pandemia obriga as mulheres a abandonar o mercado de trabalho ou a reduzir os seus horários, Martie Haselton diz que todos estes avanços podem reverter-se. Martie está preocupada com o facto de as crianças que crescem em famílias de género mais tradicionais internalizem esses papéis, fazendo com que a sociedade perca os avanços conquistados recentemente em termos de igualdade.

“As crianças podem observar isso e dizer que o pai faz uma determinada coisa e a mãe faz outra”, diz Martie. “Isto não teria acontecido sem a pandemia.”

Leslie Forde, que desde o início da pandemia está a realizar uma sondagem com famílias para a sua empresa de pesquisa e consultoria, a Mom’s Hierarchy of Needs, diz que as próprias crianças cujos pais assumiram sempre um papel de liderança tradicionalmente relacionado com género provavelmente estão a ser afetadas pela pandemia. Por exemplo, embora a carreira de Ashley Lewis já fosse secundária em relação à do seu marido, o seu novo “emprego” enquanto professora doméstica dos dois filhos realçou ainda mais o seu papel de género – e isso está a afetar a forma como o filho a vê no papel de “mãe”.

“O meu marido não está muito envolvido na parte do ensino”, diz Ashley. “Eu tenho tempo para ajudar, portanto, mesmo que o meu marido diga que pode ajudar com a matemática, o meu filho diz que quer que seja a mãe a fazer isso.”

Parte do que está a afetar as crianças, conforme os papéis de género mudam em casa, é a frustração que alguns pais sentem em relação a este novo normal. Julie Kohler diz que, quando os papéis de género mais pronunciados não acontecem por escolha, o impacto nas crianças pode ser significativo.

“A saúde mental das mulheres está a sofrer desproporcionalmente com a pandemia devido aos níveis de responsabilidades domésticas e de cuidados que têm de assumir”, diz Julie. “Mais importante do que quem está a fazer o quê, é a forma como as pessoas se sentem em relação ao que estão a fazer. E agora, para milhões de mulheres, isso não é bom. E saber como é que esse nível de insatisfação e stress vai afetar as crianças, é uma questão que permanece em aberto.”

O que as crianças podem aprender com as mudanças nos papéis de género

Mas também há boas notícias. Com o pai e a mãe em casa, alguns homens estão a assumir mais as tarefas domésticas e as responsabilidades parentais que normalmente seriam desempenhadas pela mãe. E isto passa uma boa mensagem para as crianças sobre os papéis de género.

Por exemplo, na casa de Ashley Lewis, é o pai que lava a louça todos os dias e faz mais tarefas, porque agora está em casa. Também há outras famílias que dependem quase inteiramente do pai. Randy Lum e a sua esposa, Abigail, decidiram no início da sua relação que seria ele a cuidar mais dos filhos, portanto, quando surgiu a pandemia, este sistema ajudou a família a lidar com o encerramento da creche dos seus dois filhos pequenos

Leslie Forde diz que, à medida que a pandemia se prolonga, há cada vez mais famílias que se estão a tornar como as de Ahsley Lewis e Randy Lum. Os homens são capazes de assumir papéis de género que geralmente não são tradicionais, como cuidar dos filhos e executar as tarefas domésticas, porque estão a trabalhar em casa com as suas parceiras, ou – quando as mulheres são chamadas de regresso para os seus empregos – os pais são os únicos que ficam em casa.

É uma oportunidade para mudar as expectativas da sociedade sobre os papéis de género, diz Leslie, e a psicóloga Deborah Pontill concorda com esta afirmação. Por exemplo, quando os filhos conseguem ver o que os pais realmente fazem para ganhar a vida, eles conseguem compreender que ambos os pais têm papéis igualmente importantes a desempenhar na família.

“As crianças podem ver como é que as mães estão a trabalhar, a cuidar da família e a tentar equilibrar as duas coisas”, diz Deborah. “As crianças presenciam mais isso. Antigamente a mãe ia trabalhar e, digamos assim, como estavam longe da vista, estavam longe do coração.”

Como ensinar as crianças o papel de género durante a pandemia

Monique Lopez não é binária e cria o seu filho de dois anos e meio com a esposa em San Diego. Quando surgiu a pandemia e a creche do filho encerrou, Monique diz que os papéis de género sobre os quais ambas já tinham concordado significava que não havia suposições sobre quem fazia o quê. Elas conseguiam comunicar facilmente sobre o que tinha de ser feito.

“Nós falávamos sobre isso de manhã”, diz Monique. “Coordenávamos os nossos horários diariamente e fazíamos com que funcionasse.”

A psicóloga Catherine Steiner-Adair diz que as parcerias LGBTQ ou não-conformes de género como a de Monique Lopez geralmente já têm uma base de comunicação devido à necessidade de definir os papéis desde o início. As famílias heterossexuais também podem seguir este exemplo, comunicando mais sobre quem faz o quê e envolvendo as crianças nestas conversas para que elas possam aprender que os papéis não precisam de ser específicos de género.

“Eu ouço crianças a dizerem que não faziam ideia de que o pai sabia cozinhar”, diz Catherine. “E não há nada de errado em desempenhar papéis de género, desde que falem com os filhos sobre isso e digam que, por exemplo, só porque a mãe lava a roupa e o pai deita o lixo fora, isso não significa que todas as mães tenham de lavar a roupa.”

Os pais também podem ensinar os filhos sobre papéis de género equitativos, em vez de criticarem quando alguém não faz corretamente o seu “trabalho tradicional”, como por exemplo deixar queimar o jantar ou usar demasiado detergente para a roupa.

“Os pais devem respeitar-se e reconhecer que algumas coisas dão demasiado trabalho, sobretudo agora”, diz Catherine. “Sabemos que o respeito é bom para as crianças. E sabemos que é prejudicial quando as crianças vivem em famílias onde o papel da mulher é desvalorizado.”

Julie Kohler aconselha os pais a procurarem formas de equilibrar as responsabilidades sempre que possível, seja a alternar as compras no supermercado ou a fazer com que os filhos ajudem de formas que desafiem os papéis de género, como por exemplo colocar os rapazes mais velhos a ajudar e a cuidar dos irmãos mais novos.

“Isso é certamente benéfico para as crianças, não só para a igualdade de género, mas também porque as crianças veem os homens a cuidar de tudo e percebem que as coisas que geralmente são feitas pelas mulheres são tarefas vitais”, diz Julie.
 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

Continuar a Ler

Descubra Nat Geo

  • Animais
  • Meio Ambiente
  • História
  • Ciência
  • Viagem e aventuras
  • Fotografia
  • Espaço
  • Vídeos

Sobre nós

Inscrição

  • Revista
  • Registrar
  • Disney+

Siga-nos

Copyright © 1996-2015 National Geographic Society. Copyright © 2015-2017 National Geographic Partners, LLC. Todos os direitos reservados