Será que estamos a criar pequenos germofóbicos?

A pandemia aumentou o receio de germes nas crianças – mas isso pode não ser mau.

Publicado 23/03/2021, 09:46

   

Fotografia de FLY VIEW PRODUCTIONS / GETTY IMAGES

O filho de sete anos de Meg St-Esprit foi sempre muito cauteloso com os germes. “Se um colega metesse a ponta de um marcador na boca e o colocasse novamente na mesa, ele evitava tocar nesse marcador o resto do dia”, diz Meg.

Mas no ano passado, a inundação constante de notícias sobre a COVID-19 aumentou o seu receio até níveis preocupantes. “Ele é uma bola de ansiedade”, diz Meg, mãe de quatro filhos que vive na Pensilvânia. “Ele chegou a um ponto em que, mesmo dentro de casa, não quer que um irmão lhe toque porque diz que pode ficar infetado com coronavírus.”

A ansiedade do filho de Meg St-Esprit, alimentada pela COVID-19, está longe de ser um caso isolado. Numa investigação publicada no outono passado pela Associação Americana de Psicologia, mais de 75% dos adultos entrevistados citaram a pandemia como uma fonte significativa de ansiedade; uma revisão dos CDC dos EUA, divulgada em novembro, relatava que a proporção de consultas de emergência relacionadas com saúde mental para crianças dos 5 aos 11 anos tinha aumentado 24% nos últimos 12 meses.

A fobia de germes não é necessariamente um problema. Afinal de contas, estar consciente dos potenciais perigos – quer sejam germes, aranhas ou pessoas desconhecidas – tem benefícios evolutivos. O problema, dizem os especialistas, surge quando uma cautela saudável se torna numa obsessão que perturba a nossa vida.

“A linha que separa os hábitos saudáveis e as questões de saúde mental resume-se à forma como essas condições ou comportamentos nos afetam”, diz Joseph McGuire, professor assistente de psiquiatria e ciências comportamentais na Universidade Johns Hopkins.  

Portanto, será que a pandemia vai transformar uma geração de crianças em pessoas germofóbicas que evitam maçanetas de portas e não conseguem viver sem desinfetante? Os especialistas dizem que isso não é provável – mas os pais devem saber reconhecer os sinais e desenvolver estratégias para ajudar as crianças a controlar os seus medos naturais.

Fobias, ansiedade e crianças

Os medos da infância fazem naturalmente parte do crescimento, com receios diferentes a aparecerem e a desaparecerem em diferentes estágios de desenvolvimento. Os bebés, por exemplo, têm medo de estranhos; as crianças têm medo do escuro.

De acordo com Kate Fitzgerald, codiretora do Programa de Transtornos de Ansiedade e TOC Infantil da Universidade do Michigan, a maioria das crianças supera estas ansiedades por volta dos 10 anos de idade, quando a parte do cérebro responsável pela adaptação do comportamento e tomada de decisões amadurece. Mas, em alguns casos, os sintomas persistem e tornam-se condições diagnosticáveis.

Germofobia é o termo utilizado por um leigo para descrever o medo patológico de germes. “Os sintomas de fobias clínicas são geralmente desencadeados por estímulos exteriores observáveis”, diz Kate. Dado que não conseguimos ouvir, ver ou cheirar os germes, os casos extremos de “germofobia” são geralmente atribuídos a outros distúrbios.

Mas sejamos sinceros, descobrir neste momento o que se pode considerar “extremo” é um pouco difícil. Crianças que antigamente se recusavam a lavar as mãos antes de jantar estão agora a encharcá-las com desinfetante e a afastarem-se de todas as pessoas que não são da sua família. E, neste estranho mundo novo, estas são precauções racionais, não patológicas.

Mas quando estes comportamentos começam a afetar a vida diária de uma criança, a germofobia pode realmente transformar-se noutra coisa. Os médicos podem diagnosticar uma criança com transtorno obsessivo-compulsivo (TOC), que se caracteriza por pensamentos obsessivos acompanhados por rituais que aliviam a ansiedade desencadeada por esses mesmos pensamentos (“Eu posso incendiar a casa, por isso tenho de verificar constantemente o fogão”), ou transtorno de ansiedade generalizada (TAG), no qual as preocupações com vários problemas diferentes persistem durante pelo menos seis meses.

Ainda assim, Joseph McGuire diz que é raro haver um medo que se restrinja apenas aos germes. “Na maioria das vezes, este tipo de medo único não é isolado”, diz Joseph. Por exemplo, se limitarmos os tipos de alimentos que comemos porque temos receio de ficarmos contaminados, então não temos medo de um determinado tipo de comida. O mesmo se aplica a distúrbios relacionados com germes – o medo abrange muito mais do que partículas invisíveis a invadirem o nosso corpo.

Com base em estudos de ressonância magnética funcional (fMRI), Kate Fitzgerald teoriza que as crianças com TOC têm circuitos neurais menos sensíveis, os circuitos que controlam a tomada de decisões com base em objetivos. Kate compara isto a um sistema de alarme para um comportamento irracional. Nestas crianças, esse alarme é demasiado silencioso, pelo que as crianças têm dificuldades em responder aos medos irracionais de forma adequada. A equipa de Kate também detetou semelhanças neurológicas nas crianças afetadas por TAG – têm disrupções nas ligações entre as partes do cérebro que processam ameaças e tomam decisões.

Mas há esperança para os germofóbicos com este tipo de diagnóstico. Os estudos feitos com adultos mostram que quando o TOC é tratado – quer seja com medicamentos ou terapia – a atividade anormal destes circuitos neurais acaba por desaparecer. Kate está atualmente a trabalhar para replicar esses resultados nas crianças.

Quando o seu filho pode ter um problema

Os gatilhos externos, como uma pandemia global, podem induzir transtornos de ansiedade e obsessivo-compulsivos nas crianças, de acordo com Sheryl Ziegler, psicóloga sediada no Colorado. Mas a grande maioria destes casos envolve uma predisposição para essas condições, mesmo que uma criança nunca tenha sido diagnosticada. Mas quando estas condições são determinadas, os pais podem muitas vezes lembrar-se de sintomas subtis no desenvolvimento inicial da criança, como um receio extremo em conhecer pessoas novas.

A grande questão permanece: Num mundo dominado por uma pandemia que deixa todos nervosos, como é que os pais conseguem distinguir entre respostas racionais e irracionais a uma ameaça que é bastante real? Sheryl Ziegler aconselha os pais a observarem o impacto que esses medos têm na forma como a criança funciona todos os dias. Eis algumas questões a levar em consideração:

• O seu filho expressa sentimentos de impotência? (“Não me consigo controlar se alguém estiver a menos de dois metros de mim.”)
• As preocupações com germes e contaminação são constantes e incontroláveis, e a criança envolve-se em comportamentos compulsivos para lidar com a situação? (“Preciso de lavar as mãos durante 10 minutos sempre que toco numa maçaneta.”)
• A criança precisa de garantias frequentes? (“Prometes que não vou adoecer?”)
• As rotinas são afetadas porque a criança evita situações que podem envolver o contacto com germes? (“Não vou à escola porque não quero ter de usar a casa de banho.”)
• Existem sintomas físicos, como palmas das mãos suadas, ritmo cardíaco acelerado, falta de ar, dores de estômago ou de cabeça?

Sheryl diz que, especialmente agora, as respostas podem variar entre um vasto espectro de possibilidades e ainda assim serem consideradas normais. No entanto, se o seu filho passar grande parte do dia com estas ansiedades, se as sente intensamente e não fica tranquilizado após uma conversa racional, peça ajuda a um profissional de saúde mental.

O que os pais podem fazer para ajudar os germofóbicos do “dia a dia”

Mesmo as crianças com sintomas mais ligeiros de germofobia – cujos cuidados saudáveis com os germes podem ser um pouco obsessivos, mas que não afetam a sua vida quotidiana – podem beneficiar de uma ajuda extra.

Sheryl incentiva os pais a perguntar aos filhos como é que se estão a sentir e a ouvir as respostas sem interromper ou julgar. Valide as preocupações das crianças, mas não as reforce: “Sim, a COVID-19 ainda está na nossa comunidade; os riscos ainda são relativamente elevados.”

Dê continuidade ao tema com um pequeno desafio para suprimir os comportamentos de ansiedade. Por exemplo, pode dizer: “Se tiveres de tocar em algo considerado de ‘alto risco’, podes lavar as mãos durante 20 segundos. Acreditamos realmente que é uma forma segura de tirares das mãos qualquer coisa que te possa ser prejudicial.”

Por fim, exponha gradualmente as crianças aos seus receios de uma forma segura e controlada. Por exemplo, pode levar as crianças ao supermercado durante os períodos de menor afluência e mostrar as medidas razoáveis que adota para se manter seguro.

Estas estratégias podem ser úteis se os seus filhos forem germofóbicos mais ligeiros ou se estiverem a enfrentar dificuldades com condições mais graves. São táticas inspiradas nos tratamentos padrão para transtornos de ansiedade e obsessivo-compulsivos que envolvem identificar e desafiar os pensamentos negativos, bem como suprimir os comportamentos que conferem um alívio temporário do medo (como lavar as mãos constantemente).

Os pais também devem modelar um equilíbrio saudável entre ter cuidado e o excesso de zelo, diz Carolyn Ievers-Landis, psicóloga dos Hospitais Universitários de Ohio. “Se você é alguém que fala muito sobre as notícias ou tem determinados rituais, o seu filho pode pensar que está realmente em perigo e que estas coisas o vão afetar.”

As distrações também podem ajudar a quebrar o ciclo de obsessão por germes. “Planeie atividades, façam coisas divertidas juntos e certifique-se de que as crianças têm algum tipo de acesso a amigos e familiares”, diz Carolyn. Por exemplo, quando a família de Carolyn passou meses a resgatar sapos de uma piscina que ia ser demolida, os seus filhos reduziram o tempo que passavam na internet à procura de coisas relacionadas com vírus.

Resumindo, quando a pandemia passar, como é que as crianças, que foram ensinadas a lavar constantemente as mãos e a manter uma distância de dois metros, se vão ambientar? Reentrar na sociedade vai ser difícil para todos, mas as crianças que sentiram níveis mais elevados de ansiedade durante a pandemia podem precisar de tratamento e apoio adicionais, diz Carolyn.

“Ainda assim, as crianças são incrivelmente adaptáveis e flexíveis, mesmo as mais pequenas, e vão ajustar-se ao novo normal.”
 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

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