Como o dinheiro afeta as nossas relações e dicas para poupar

Embora esteja impaciente para viajar e não perder a oportunidade de explorar e experimentar novas iguarias, pode precisar de conselhos para poupar e como falar sobre dinheiro com o seu companheiro, com amigos e talvez até na copa do escritório.

Publicado 21/04/2021, 09:54 WEST
O livro de Alex Holder, jornalista mudou-se recentemente para Lisboa com a família, reflete sobre como ...

O livro de Alex Holder, jornalista mudou-se recentemente para Lisboa com a família, reflete sobre como o dinheiro afeta os nossos relacionamentos, amizades e carreira.

Fotografia de (cedida por) Alex Holder

É dia 22 e já está a contar os dias até receber o vencimento. Não comprou nenhum par de sapatos extra, nem uma nova câmara fotográfica. Jantou fora exatamente a mesma quantidade de vezes e tem quase certeza de que a sua pilha de livros novos está a crescer de forma consistente. Não é o único.

Viver numa cidade grande pode definitivamente incluir mais oportunidades de gastar e um maior autocontrolo em dizer não aos cocktails da moda. Quem poderia prever que as mesadas envolveriam viagens de Uber e a assinatura do Spotify? Quando somamos várias assinaturas digitais, serviços à distância de um clique e as despesas domésticas regulares, como podemos evitar gastar tanto?

Recorda-se da primeira vez que ouviu a palavra dinheiro? Alguém em determinado momento explicou como gastá-lo prudentemente e, especialmente, como poupá-lo? Nesse caso, é um dos sortudos que tiveram esse apoio e, principalmente, esse conselho. A maioria de nós não teve uma disciplina na escola, ou mesmo na faculdade, para nos ensinar a fazer um documento de controlo de despesas. A maioria de nós não fala sobre dinheiro na sala de estar ou na copa do escritório. Então, como podemos abrir-nos com os amigos sobre a conta que precisamos de dividir?

Ainda estamos meio confinados, meio ao ar livre, mas imagine quando as portas do novo mundo se abrirem de vez? As pessoas estão ansiosas para viver, para se encontrar, aparecer e, finalmente, usar o boné e tirar os óculos de sol da gaveta.

A escritora e consultora Alex Holder, nomeada pelo Business Insider uma das 30 Mulheres Mais Criativas do mundo, escreveu um livro sobre a nossa relação emocional com o dinheiro e como colocar o tema do dinheiro em cima da mesa. ‘Vamos falar de dinheiro’ (‘Open Up: The Power of Talking About Money’ na versão original) é um guia brilhante, não apenas sobre como assumir o controlo das suas finanças, mas como conversar sobre dinheiro pode de facto mudar a sua vida. Alex Holder descreve várias histórias de hábitos de consumo com os quais se pode facilmente identificar. Em seguida, oferece conselhos realistas sobre como livrar-se de dívidas, como fazer compras, como poupar e até mesmo como dividir as contas de acordo com o que ganha.

Preocupa-se em ganhar mais, ou menos, do que os seus amigos ganham? Tem dificuldade em dividir a conta do brunch? Precisa de encorajar o seu companheiro a gastar menos? Está a planear um grande casamento com grandes despesas? Pode precisar de ler os conselhos de Alex Holder.

Edição portuguesa foi lançada em 2020.

Fotografia de Alex Holder

Lembro-me da primeira vez que ouvi a palavra poupança - foi na série ‘O Sexo e a Cidade’. Recorda-se da primeira vez que ouviu alguém falar sobre orçamento e poupanças?
Acho que rejeitei, como termo, por tanto tempo e daí não me ter permitido pensar o que significava e o que era. Sempre achei que ter de seguir um orçamento era algo que não queria fazer. Preferia viver com as consequências de não o fazer. Não me envolvi totalmente com a palavra ou o conceito até provavelmente aos 30 anos.

Como podemos falar de dinheiro com as gerações Y e Z?
Gerações diferentes socializam de maneira diferente. Quase metade dos millennials cresceu numa casa onde a mãe não trabalhava e o pai trabalhava a tempo integral. Eles foram educados a pensar que o dinheiro é uma coisa de homens - financiar a família. E isso começou a mudar lentamente de geração em geração até à geração Z.

Penso que a geração Z provavelmente está a falar mais sobre dinheiro e a tecnologia está a possibilitar isso. Temos um banco digital onde podemos ver o que gastamos..., mas ao mesmo tempo, eles também estão a crescer com a influência das redes sociais, onde somos incentivados a gastar a toda a hora. Ferramentas como o Klarna [as opções de crédito que são apresentadas ao fazer uma compra sempre que compramos algo online] estão apenas a chegar. É uma batalha muito difícil para os mais jovens. É tão fácil contrair uma dívida a partir do momento em que se ganha um ordenado e isso está tão correlacionado. Entra na faculdade e garante um crédito universitário ou recebe um ordenado e muitas vezes recebe crédito. Acho que vai tornar-se mais difícil para os mais jovens. Os institutos financeiros têm uma grande influência sobre nós.

Cresci numa pequena cidade de praia onde se podia passar o dia na praia com fruta e sandes, gastando cinco euros no bar de praia atrás da duna e divertirmo-nos até às onze horas. É mais difícil poupar nas grandes cidades?
Sim! Se morar na cidade, numa caminhada ao redor de sua casa, provavelmente em cinco minutos, são-lhe apresentadas inúmeras oportunidades de gastar dinheiro. Está nos nossos telemóveis a toda a hora, não importa onde reside. Vemos cerca de 10.000 marcas - ou anúncios - todos os dias.

Uma das razões pelas quais saí de Londres e me mudei para Lisboa é porque sentia que muita da minha identidade era ser consumidora - o café que bebia, onde fazia refeições fora… Saía da estação ferroviária e passava por quatro lojas apenas para começar a trabalhar. O meu amigo colocou-o desta forma “sinto que o mundo está sempre a pedir-me dinheiro”. Aqui o facto do meu português ser muito fraco é definitivamente um alívio - eu tento, mas no final de contas não estou a ser vendida o tempo todo no meu idioma. Isso dá uma sensação de leveza à minha cabeça - não ser constantemente o destinatário de anúncios. A vida parece mais fácil. Sinto que tenho muito mais controlo sobre o meu orçamento. Não sinto que o dinheiro esteja a desaparecer misteriosamente da minha conta bancária, com todas as pequenas coisas que comprei naquele dia.

Também sinto que o conceito de mesada é introduzido atualmente numa idade mais jovem, comparativamente ao meu tempo naquela cidade do litoral.
É. Mas também percebi outra coisa: que hoje em dia estamos rodeados por coisas. As crianças não querem realmente nada. Os brinquedos e a regularidade com que recebem coisas de parentes e amigos - vejo isso em todos os extremos do espectro de classes - na verdade, é preciso chegar à adolescência em que queremos itens caros como sapatilhas para ter esse desejo. Lembro-me de quando tinha 8, 9, 10 anos e queria muito ter mesada para ter as coisas que queria. No entanto, não acho que crianças de 8, 9 e 10 anos dos dias de hoje tenham a mesma experiência - como “se tiver mais dinheiro, posso ter mais coisas que quero”. Basta olhar para quantos presentes de Natal eles recebem em comparação com o que acontecia há 20 anos. Até o fato das fábricas produzirem muito mais coisas - estamos cercados por isto.

Muitas famílias portuguesas emigraram nos últimos 100 anos. Os mais jovens não falam tanto em sacrifícios como as gerações anteriores. Porquê?
Eles não precisam de o fazer. É muito fácil receber crédito, então se quiser algo, pode consegui-lo. O termo “compre agora, pague depois” é tão amplamente usado por empresas de crédito, de uma forma extremamente irresponsável na minha opinião. Portanto, não temos uma cultura de esperar por nada. Existe sempre uma opção para suprir a sua necessidade naquele momento - se for uma opção realmente barata - e por isso recorremos a mais coisas. É uma relação diferente com as coisas. Não poupamos para nada. Imaginemos que eu vi um objeto caro como uma mala ou uma cadeira - provavelmente quando a puder pagar, a necessidade terá desaparecido porque somos muito inconstantes.

O nosso relacionamento com as coisas é tão diferente que a ideia de sacrifício não se aplica. É tudo uma questão de atender a essa necessidade imediata. Os nossos feeds de redes sociais permitem essa compra agora; e depois essa disponibilidade muito fácil de crédito “agora mesmo” vai arruinar o meio ambiente e deixar muito mais pessoas endividadas.

Quando as moratórias terminarem, algumas famílias terão dificuldade em pagar os seus créditos. Por que motivo as pessoas ainda se sentem tão confortáveis ​​com o crédito?
Essas empresas que querem que gastemos dinheiro são empresas multimilionárias e fazem com que pareça muito agradável, muito fácil; e aquele momento de gastar sabe bem. Libertamos endorfinas quando satisfazemos os nossos desejos. Especialmente este ano, quando não estamos a receber estímulos emocionais de outras formas - ao ver amigos, ao fazer as coisas que habitualmente fazemos e para nos dar energia. Infelizmente, separámos os gastos das consequências de gastar dinheiro.

As transações são tão fáceis que não é necessário pensar sobre elas. Se perguntar a alguém quanto gastou hoje, uma percentagem muito alta teria esquecido onde e em que gastou o dinheiro. Parece que é quase tão fácil como pensar, andar por aí e deslizar o [seu cartão] contactless. Penso que é muito duro culpabilizar o indivíduo. Acho que é quase preciso passar por isso e sentir como é difícil pagar a dívida e recordar. Muitas pessoas têm aquele momento inicial em que erram; gastam dinheiro que não têm e depois têm de suportar as consequências. E esse é o seu processo de aprendizagem.

“Espero que as pessoas percebam que o dinheiro é um assunto para qualquer um.”

Acha que é possível numa família tradicional quebrar os vícios financeiros que “correm” no sangue familiar?
A riqueza financeira é obviamente passada de geração em geração, mas a educação financeira também. Falar sobre dinheiro é frequentemente um tabu social em muitos, muitos círculos. As pessoas com quem mais conversamos sobre o tema e as pessoas sobre quem melhor conhecemos a situação financeira são as que estão mais próximas de nós. Portanto, é a nossa herança e os nossos irmãos. Nós absorvemos muito e muitas pessoas pensam que são “normais” com o dinheiro e não percebem que há muitas formas de ser normal com dinheiro. A maneira deles é uma das opções de fazer isso. Além disso, as instituições financeiras tornam difícil compreender muitos dos produtos financeiros - estão cheios de jargões e lacunas e regras ilógicas - sejam os impostos ou a razão pela qual teria acesso a uma hipoteca. Se não procurar essas informações, geralmente só sabe o que a sua família lhe disse.

Os bons e os maus hábitos costumam ser passados aos membros da família. E para os quebrar, espero que as pessoas percebam que o dinheiro é um assunto para qualquer um. E qualquer pessoa pode pesquisar 10 minutos de educação financeira na internet. Mas muitas vezes, porque parece difícil, porque não temos o vocabulário indicado, não o fazemos. Mas se conduzirmos essas conversas ou perguntarmos a um amigo que acabou de comprar uma casa ou iniciou um negócio, como o fizeram, essa informação pode ser muito valiosa.

Já existem previsões de um boom de consumo e festas após a pandemia - de volta aos anos 20 do século passado, após a pandemia anterior. Pode dar-nos algumas dicas sobre como poupar?
Entendo a previsão do grande boom, mas também acho que muitos de nós tivemos dificuldade em não gastar durante a pandemia, porque estávamos entediados em casa à frente do nosso portátil. Pela única maneira de ver as coisas ser pelo toque ou através da experiência, tudo parece incrível na internet. É verdadeiramente fácil vender algo com uma única imagem e fazer com que pareça realmente desejável. Apesar disso, muitos de nós temos tido dificuldade em não gastar.

Por vezes, para parar completamente de gastar, tem de estabelecer uma semana sem gastar - literalmente comendo comida que tem na sua dispensa, não levar o cartão consigo. Por vezes, é necessária uma reinicialização como esta para perceber quão frequentemente os gastos se integraram nas nossas vidas.

Estabeleça um objetivo ou um orçamento. Não vai poupar se achar que vai esperar até ao final do mês para ver quanto dinheiro sobrou. Quando tem o dinheiro que precisa para dizer intencionalmente "não vou gastá-lo" e colocá-lo em algum sítio onde não possa mexer ou onde não esteja disponível regularmente. Não conheço ninguém que poupe casualmente o dinheiro que sobrou na sua conta à ordem no final de cada mês.

Converse com os seus amigos e preste contas ao seu grupo social. Quando planear algo, não há problema em dizer "Podemos fazer isto de uma forma menos dispendiosa? Quero comprar um portátil este ano.” Diga aos seus amigos por que razão não quer gastar essa quantia e pense em opções de se encontrarem mais económicas. O que descobri com a maioria dos grupos sociais é que quando uma pessoa põe travão ou diz "Não posso pagar isso", é um alívio coletivo. Estamos a falar de um jovem de 25 anos e é provável que os seus amigos se encontrem na mesma situação financeira. Num grupo de cinco, três deles estarão a pensar em dívidas e reembolsos. Muitas vezes não estamos sozinhos, mas costumamos gastar para nos acompanharmos, e não estamos sozinhos.


Alex Holder é jornalista freelancer e consultora; escreve para a Elle, Grazia, e The Guardian, entre outros. Em 2013, a sua campanha acerca da disparidade salarial tornou-se viral e contribuiu para a alteração da legislação no Reino Unido.

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