Traga ao de cima o génio que há no seu filho

Os especialistas concordam que ninguém nasce génio – mas os pais podem ajudar a desenvolver traços que fomentem um gosto particular que os filhos tenham.

Publicado 6/04/2021, 12:54
Apoiar os interesses do seu filho – quer seja na música, desporto ou ciência – pode ...

Apoiar os interesses do seu filho – quer seja na música, desporto ou ciência – pode transformar um passatempo numa paixão duradoura que um dia poderá mudar o mundo.

Fotografia de PEOPLEIMAGES / GETTY IMAGES

Quando Aelita Andre completou três anos, já tinha conseguido mais feitos no mundo da arte do que muitos artistas profissionais. Aelita começou a pintar aos nove meses de idade, e as galerias já exibiam os seus trabalhos quando ela tinha apenas dois anos. Agora com 14 anos, esta artista abstrata australiana ainda continua a impressionar; e encerrou o seu espetáculo mais recente a solo na Coreia do Sul este mês.

A maioria das crianças é naturalmente criativa e curiosa. Mas algumas fazem-no de uma forma obsessiva e, enquanto adultos, acabam por transformar o campo onde trabalham – ou o mundo. Wolfgang Amadeus Mozart já compunha música aos quatro anos; Pablo Picasso baseava-se nas coisas da sua infância. E Catherine Beni, apesar de não ser um nome familiar, acabou o ensino secundário aos 11 anos e já tinha um doutoramento em matemática aplicada aos 20.

As crianças prodígio como Mozart e Picasso são raras – a maioria das crianças não consegue sustentar este tipo de energia criativa durante toda a vida e muitas vezes sofrem esgotamentos e outras doenças. E embora uma criança prodígio possa ser rotulada “génio criativo”, as pessoas que são consideradas génios só surgem realmente na idade adulta, depois de terem tido tempo para adquirir um profundo conhecimento sobre o tema pelo qual são apaixonadas.

Embora os artistas e músicos sejam frequentemente considerados donos da criatividade, os matemáticos e cientistas que deixam a sua marca também o fazem através de invenções criativas de novos métodos e conceitos. Portanto, quem chega ao nível de génio, de acordo com Dona Matthews, investigadora em educação de talentos e psicóloga, deve ser uma pessoa criativa.

Basicamente, os génios são adultos capazes de criatividade – que fazem novas ligações a partir da sua base de conhecimentos – a um nível extremamente elevado. E destacam-se porque estão a fervilhar de ideias sobre como podem usar os seus conhecimentos para fazerem coisas novas com um grau incompreensível. Este conhecimento geralmente começa com uma obsessão infantil.

Portanto, como se desenvolve um génio sem ser em idade precoce? Não existe uma receita, mas os especialistas concordam que há alguns ingredientes principais comuns: inteligência, criatividade e determinação. E há algo ainda mais esclarecedor: ter um QI elevado não equivale necessariamente a génio. Um estudo do psicólogo Lewis Terman, de Stanford, no início do século XX, descobriu que o QI elevado não previa um sucesso criativo mais tarde na vida. “Inteligente o suficiente” – 120 ou mais – é bom o suficiente, escreve a psicóloga Nancy Andreasen, da Universidade Estadual de Iowa.

Portanto, o seu filho pode não ser um prodígio. Por definição, o seu filho também não é um génio – ainda. Mas estimular a criatividade das crianças e apoiar as suas obsessões aparentemente frívolas pode ter impactos positivos a longo prazo nas suas personalidades e paixões. E pode ajudar as crianças a desenvolverem a sua própria genialidade.

Biologia da criatividade

A forma como alguns cérebros são construídos pode ter algo que ver com a forma como a genialidade emerge.

As investigações têm demonstrado que os adultos considerados génios podem ter mais neurónios aglomerados em determinadas áreas do cérebro, tornando os seus cérebros mais eficientes no processamento de certo tipo de informação. Albert Einstein tinha mais células da glia em algumas regiões – as células responsáveis pelo cuidado e alimentação dos neurónios – pelo que algumas partes do cérebro de Einstein eram mais bem alimentadas, num sentido bastante real. Outros estudos descobriram um aumento na espessura cortical e diferentes densidades de matéria cinzenta e branca nos cérebros de pessoas altamente criativas.

Embora a ciência ainda esteja a evoluir, os cientistas já sabem que a criatividade envolve todo o cérebro – não se cinge à velha teoria das capacidades dos lados esquerdo e direito do cérebro. A neuroimagiologia tem demonstrado que o pensamento criativo envolve uma rede de atividades por todo o córtex em ambos os hemisférios. As áreas no córtex frontal, hipocampo, gânglios da base e tecidos conectivos de “matéria branca” são todos vitais nos processos criativos.

A genética também pode desempenhar um papel. Os traços de personalidade relacionados com a criatividade podem ser hereditários, diz Zach Hambrick, neurocientista cognitivo que estuda genética de competências na Universidade Estadual do Michigan. Zach diz que estes traços incluem a abertura para ideias, bem como a capacidade de extrair ideias de diferentes áreas do conhecimento e juntá-las para resolver problemas e adaptar a diferentes situações.

Contudo, Dona Matthews, autora de Beyond Intelligence, alerta contra a ideia de que os indivíduos já nascem com uma capacidade criativa excecional, assim como as pessoas não nascem com um conhecimento que muitas vezes é designado como “inteligência”.

“Muitas das pessoas que acabaram por ser ‘génios’ não pareciam excecionais quando eram crianças”, diz Dona. “É algo que se desenvolve com o tempo – as pessoas encontram a sua área de paixão e seguem-na. Ninguém nasce génio.”

Benefícios da criatividade nas crianças

Portanto, se o seu filho não nasceu um génio, como se pode transformar num? Inteligentes e implacavelmente motivados, os génios são extremamente curiosos, têm a mente aberta, são imaginativos e inventivos; e também não têm medo de correr riscos e de cometer erros, diz Claudia Kalb, autora de Spark: How Genius Ignites, From Child Prodigies to Late BloomersOs pais podem fomentar estas características nas crianças, algo que lhes será útil ao longo das suas vidas, independentemente do que acontecer.

A primeira infância é um momento de excelência para aprender – e brincar é fundamental para aprender. Desde o nascimento até aos seis anos de idade, as ligações neurais formam-se rapidamente, passando das 2.500 sinapses por neurónio na altura do nascimento para as 15.000 por neurónio quando a criança tem dois ou três anos.

“Brincar permite que as vias neurais se desenvolvam de uma forma muito mais complexa”, diz Dona. “E isso ajuda as crianças a terem ideias que se baseiam no seu conhecimento sobre uma variedade de assuntos. Desenvolver estas vias neurais torna-nos mais inteligentes.”

Incentivar a curiosidade natural de uma criança através da brincadeira pode ajudá-la a estabelecer interesses que se podem transformar em paixão. Por exemplo, a brincadeira criativa – com a sua abertura e inventividade – ajuda as crianças a desenvolverem as suas personalidades e gostos, bem como a compreender o mundo complicado que as rodeia. E também ajuda a desenvolver o “pensamento divergente” ou a capacidade de fazer brainstorming para encontrar diversas soluções possíveis para um problema.

A solução criativa de problemas também desenvolve a confiança, diz Stephen Chevalier-Putnam, diretor da Escola Meeting House Montessori em Braintree, Massachusetts.

“Se, ao longo do tempo, forem dadas às crianças as possibilidades de assumirem riscos criativos e alcançar o sucesso, teremos crianças independentes e confiantes”, diz Stephen. “As crianças que estão dispostas a assumir riscos criativos estão dispostas a tentar coisas diferentes e a abordar os problemas de forma diferente.”

Fomentar a criatividade nas crianças

Os especialistas concordam que há uma forma de ajudar as crianças a desenvolver criatividade: deixar as crianças assumir a liderança. Isso, diz Stephen, ajuda a capacitá-las para descobrir por que razão algo funciona ou não, para que, da próxima vez que se depararem com uma situação semelhante, consigam optar pela abordagem mais apropriada.

Eis algumas ideias para começar.

Explorar. Zach Hambrick argumenta que a obsessão de uma criança pode ter influências genéticas. É por esta razão que Zach recomenda que se deixe as crianças explorarem criativamente uma variedade de interesses e ambientes para encontrarem áreas nas quais se destaquem. Embora o trabalho árduo desempenhe certamente um papel, as crianças que têm permissão para explorar criativamente têm mais probabilidades de encontrar o seu “nicho”, onde podem tirar melhor partido dos seus traços genéticos.

Seguir. No livro Spark, Claudia Kalb descreve como Peter Mark Roget tinha uma paixão por palavras quando era criança, mas só escreveu o seu dicionário de sinónimos quando tinha 70 anos. “As paixões da infância podem ser realmente significativas e as pessoas podem ter interesses muito fortes quando são crianças, interesses que não devem ser desconsiderados como um mero passatempo”, diz Claudia. “Se tiverem uma paixão muito forte, as crianças vão trabalhar arduamente nessa paixão.”

Ouvir. Nutrir a criatividade de uma criança pode exigir um equilíbrio muito delicado entre incentivar a criança para desenvolver aptidões que consideramos úteis ou interessantes e aquilo que a criança está pessoalmente interessada. Dona Matthews diz que a regra número um é ouvir com atenção para construir a confiança entre pais e filhos. “Certifique-se de que não impõe os seus próprios interesses”, diz Dona. “Preste atenção à curiosidade do seu filho e mantenha a mente aberta para os interesses dele.”

Brincar. “Não iríamos olhar para Einstein a desenvolver teoremas e dizer que ele estava a brincar, mas as ligações entre criatividade e as brincadeiras são enormes”, diz Dona. Navegar pela imprevisibilidade, solucionar problemas e aceitar desafios são coisas que acontecem naturalmente quando se brinca.

Descansar. Repita este mantra: É 100% normal uma criança ficar entediada quando tem muito tempo não estruturado sem um tablet ou atividades. “Se um adulto estiver constantemente a agendar coisas para as crianças fazerem, ou a dizer às crianças o que vai acontecer a seguir, quando é que as crianças têm a oportunidade para desenvolver o seu eu independente?” pergunta Stephen Chevalier-Putnam.

Dona Matthews diz que os momentos mais aborrecidos fazem muitas vezes com que uma criança invente uma atividade, algo de que gosta tanto que fica completamente imersa na mesma. “O conceito de ‘fluxo’ – aquela sensação de envolvimento numa tarefa onde o tempo desaparece – é uma dimensão realmente importante da criatividade”, diz Dona.

Falhar. No livro Spark, Claudia Kalb escreve que, quando a fundadora da Spanx, Sarah Blakely, era criança, recebia reações positivas do seu pai aos percalços e fracassos, e atribui a sua resiliência à mensagem do pai: “Se falharmos, o pior já aconteceu”.

Portanto, os pais devem resistir ao impulso de corrigir as crianças ou de assumir o controlo. “As crianças fazem coisas que, na maior parte das vezes, parecem feias ou imperfeitas para nós”, diz Mathieu Penot, que ajudou a criar duas plataformas de aprendizagem criativa para crianças – a Dowit e a Lelu. “Quando os pais estão lá para ‘ajudar’, a criança simplesmente não aprende a fazer as coisas sozinha. Um pouco de frustração é uma coisa boa.”

Compreender. Mathieu Penot acrescenta que é importante tentar ver os esforços criativos de uma criança através dos seus olhos. Depois, podemos perguntar por que razão desenhou algo assim? Porque é que cortou aquele pedaço daquela forma? “Quando fazemos isto”, diz Mathieu, “percebemos a profundidade que existe no pensamento de uma criança, e percebemos que nunca o iriamos adivinhar se nos limitássemos a olhar para as coisas que a criança fez”.
 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

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