Descubra como a meditação pode ser ótima para as crianças

Aprenda também algumas técnicas de todo o mundo para ajudá-las a começar.

Por Avery Elizabeth Hurt
Publicado 24/06/2021, 16:03 WEST
Mãe e filha praticam - meditação

   

Fotografia de PRImageFactory / Getty Images

Megan Sweet e o seu filho de 12 anos, Malcolm, têm feito muitas caminhadas durante a pandemia de COVID-19. Enquanto fazem as caminhadas, param para cheirar as flores durante o dia ou assistir ao pôr do sol ao final da tarde. “Paramos de andar e limitamo-nos a apreciar aquele momento”, diz Megan.

Megan e o seu filho não estão apenas a fazer uma pausa – estão a praticar uma forma de meditação de atenção plena, uma técnica que se foca nos pensamentos, sentimentos e sensações que surgem no momento presente para controlar e acalmar os pensamentos e emoções.

As pessoas já praticam a meditação de atenção plena há séculos. Mas agora tornou-se particularmente popular. Na verdade, o número de pessoas que pratica alguma forma de meditação aumentou uns impressionantes 2.900% desde o início da pandemia.

Mas esta prática também está a ganhar força nas crianças como Malcom – algo que já acontecia antes do início da pandemia. De acordo com os dados de um estudo em andamento do Centro Nacional de Estatísticas de Saúde dos CDC dos EUA, a prática de ioga e meditação entre as crianças dos quatro aos 17 anos mais do que duplicou entre 2012 e 2017. Muitas escolas chegam até a oferecer aulas de meditação ou espaços dedicados de meditação para os alunos.


“A meditação pode ser tão benéfica para as crianças como para os pais”, diz Megan Sweet, diretora de programa da Mindful Schools, uma organização que forma educadores em benefícios de práticas meditativas. Por exemplo, após analisarem 13 estudos feitos com adolescentes, investigadores em Queensland, na Austrália, descobriram que as práticas de atenção plena melhoram a atenção e a função executiva – as capacidades cognitivas necessárias para gerir o autocontrolo e regular o comportamento. Outra análise publicada em 2019 na Journal of Child and Family Studies descobriu que a atenção plena também pode aumentar a empatia e a compaixão nas crianças.

Para além das melhorias na saúde mental, um relatório de 2017 da Academia Americana de Pediatria cita uma investigação que mostra que a prática da atenção plena também pode melhorar a saúde física das crianças. E também já foi demonstrado que uma respiração focada e concentrada acalma o sistema nervoso, diminui as hormonas do stress, reduz a pressão arterial, alivia os sintomas gastrointestinais e as dores de cabeça e melhora a função imunitária.

Ao longo da história, pessoas de todo o mundo têm usado a meditação para melhorar a saúde espiritual e emocional, e a maioria das técnicas usadas no Ocidente pode hoje ser rastreada até às culturas antigas do Oriente. Descubra como algumas destas práticas podem fazer parte da sua própria rotina de meditação – e como as pode incorporar numa rotina de atenção plena para o seu filho.

Desde fogueiras pré-históricas a tapetes de ioga

As práticas de meditação mais populares da atualidade podem geralmente ser rastreadas até às antigas culturas religiosas da Ásia. Por exemplo, as primeiras evidências escritas de meditação datam de cerca de 1500 a.C. na Índia, quando foram descritas como uma prática religiosa nos Vedas, os primeiros textos hindus sagrados.

Mas as pessoas provavelmente já meditavam muito antes disso. Alguns estudiosos acreditam que a meditação remonta ao período paleolítico, há mais de dois milhões de anos, quando os nossos antepassados hominídeos e os seus xamãs se sentavam à volta de uma fogueira e focavam a sua atenção como parte das cerimónias espirituais e de cura.

Algures entre os anos 600 e 500 a.C., desenvolveram-se na Índia as tradições de meditação budista – como a meditação samatha, na qual o praticante se concentra apenas em inspirar e expirar. “A influência do budismo levou os confucionistas da antiga China a adotar a meditação”, diz Mabuchi Masaya, ex-professor da Universidade Gakushuin em Tóquio e especialista em história da meditação. As práticas de meditação neo-confucionista – como a jikei seiza, onde a pessoa se senta em silêncio e mantém a reverência – foram desenvolvidas como uma alternativa secular ao budismo e estabeleceram-se no Japão.

No primeiro século a.C., os viajantes ao longo da Rota da Seda levaram a meditação para o Médio Oriente, eventualmente até ao Paquistão e ao Afeganistão. O budismo ganhou muita atenção no Ocidente no Parlamento Mundial das Religiões de 1893, quando líderes budistas do Japão e do Sri Lanka falaram sobre as suas práticas religiosas. Depois, à medida que mais pessoas do continente asiático – sobretudo as que praticavam budismo e hinduísmo – emigraram para a Europa e América do Norte nas décadas de 1950 e 1960, as práticas meditativas tornaram-se mais incorporadas na cultura ocidental.

Meditar com as crianças

A maioria das rotinas de meditação de hoje foca-se simplesmente nos aspetos “técnicos”. “Com isto, queremos dizer que se focam na respiração ou no canto de um mantra”, diz Halvor Eifring, professor de estudos da China na Universidade de Oslo e especialista em histórias culturais da meditação.

Mas provavelmente também adaptam algum aspeto ou objetivo das práticas antigas. Mabuchi diz que foi exatamente o que os confucionistas fizeram quando adaptaram as técnicas de meditação budista. Embora budistas e confucionistas se possam sentar em silêncio e respirar profundamente enquanto meditam, os budistas tentam limpar a mente interrompendo o fluxo do pensamento racional. Os confucionistas, por outro lado, optam por pensar profundamente sobre a sua situação atual para alcançar o que designam por “realização plena”.

Mabuchi diz que, por ser uma cultura secular, o confucionismo era considerado algo que os leigos podiam praticar. Desta forma, é semelhante à meditação de atenção plena da atualidade – e é adequada para crianças. Mas outras culturas também podem ser incorporadas numa prática de família. “Não vejo muito perigo em cooptar tradições culturais se decidirmos fazer a nossa própria prática”, diz Joan Halifax, fundadora do Upaya Zen Center em Santa Fé, no Novo México.

Seguem-se cinco ideias.

Prática: Meditação com passas
Origens: Uma variante das práticas tradicionais budistas e hindus.
O que é: Uma forma de meditação de atenção plena que incentiva o foco.
Use quando: Os seus filhos estiverem irrequietos e desconcentrados.
Como torná-la pessoal: Dê a cada membro da família uma passa (bago de uva seco). Segure a passa entre o indicador e o polegar e observe-a com muito cuidado, reparando em todas as ranhuras e espirais e na sensação que sente nos dedos. De seguida, pare um pouco para reparar no aroma. Coloque a passa na boca, mas não mastigue logo. Basta sentir na língua e prestar atenção ao sabor. Depois, mastigue lentamente, observando a forma como a textura e o sabor mudam conforme mastiga. Por último, engula a passa. Incentive os seus filhos a não terem pressa e peça-lhes para explicar o que reparam na passa depois de a engolirem. (Estas receitas táteis também podem acalmar as crianças mais irrequietas.)

Prática: Metta
Origens: Inspirada em várias tradições budistas.
O que é: Metta também é conhecida por “meditação de amor e carinho”. O objetivo é desenvolver e direcionar os sentimentos de amor e carinho para si próprio e para os outros.
Use quando: As crianças quiserem ser generosas ou carinhosas.
Como torná-la pessoal: Pense em alguém que ama, em alguém por quem não sente nada e alguém de quem não gosta mesmo. (Os seus filhos podem começar com os avós e acabar no mauzão da escola.) Ao pensar em cada pessoa, diga (ou pense) algo como: “Que [essa pessoa] seja feliz, que [essa pessoa] esteja livre de sofrimento.” Praticar com estas palavras na sua mente pode ajudar as crianças a aliviar o stress e a ansiedade.

Prática: Canto védico
Origens: Hinduísmo.
O que é: Versos dos Vedas que eram frequentemente cantados durante rituais religiosos.
Use quando: Os seus filhos tiverem vontade de cantar.
Como torná-la pessoal: Escolha uma palavra ou frase que tenha significado para a sua família, ou algo mais generalizado, como “paz”, “amor” ou “felicidade”. Repita a palavra em voz alta com os seus filhos. Pode até perceber que, conforme todos cantam, as vozes convergem todas para o mesmo tom.

Prática: Hoʻoponopono
Origens: Cultura nativa havaiana.
O que é: Uma prática de perdão, o nome hoʻoponopono pode traduzir-se para “corrigir”.
Use quando: Os seus filhos estiverem a brigar.
Como torná-la pessoal: Sente-se calmamente e pense numa pessoa que sente necessidade de perdoar. Comece por recitar frases como “sinto muito” e “perdoa-me”. Isto estabelece que todos cometemos erros e ajuda-nos a ver a pessoa que nos prejudicou como sendo igual. De seguida, imagine que está a falar com a pessoa e diz “eu gosto de ti” e “obrigado”. A ideia é gerar sentimentos de perdão e gratidão para consigo próprio e para com aqueles com quem pode não ter uma boa relação.

Prática: Neiguan
Origens: Taoismo.
O que é: Conhecida por meditação de “visão interior”, a neiguan incentiva os praticantes a visualizarem o interior dos seus corpos.
Use quando: Os seus filhos estiverem curiosos e quiserem saber tudo.
Como torná-la pessoal: Peça à sua família para se sentar ou deitar numa posição confortável com os olhos fechados. Peça para imaginarem o interior dos seus corpos. Lentamente e em silêncio, nomeie os órgãos principais – coração, pulmões, cérebro, etc. – permitindo alguns minutos para que todos visualizem cada órgão a trabalhar no interior dos seus corpos. Termine com a pele, o maior órgão do corpo, e incentive todos a pensar sobre a forma como a pele liga os nossos corpos ao resto do mundo.
 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

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