O seu filho está sempre ‘absorto’? Isso provavelmente é bom para a saúde mental.

Ficar completamente absorto numa tarefa pode ser benéfico para as crianças.

Publicado 7/06/2021, 11:53 WEST
Criança a tocar guitarra

  

Fotografia de Ian Spanier / Getty Images

Para Emme, de sete anos, gira tudo em torno de dragões.

Durante a pandemia, Emme ficou entediada – um sentimento que expressava de forma livre e frequente. “Quando ela descobriu os dragões, foi como se regressasse à vida”, diz Lizzie Goodman, mãe de duas crianças que vive em Illinois. Emme ficava no quarto durante horas a criar uma enciclopédia sobre estas criaturas, com histórias detalhadas e diagramas anatómicos sobre cada uma. “Eu pedia-lhe para ela ir ao quarto trocar de roupa e depois ela perdia-se nesta brincadeira”, diz Lizzie a rir. “E depois eu tinha de lhe chamar a atenção e dizer para regressar.”

Antes de descobrir os dragões, Emme provavelmente estava a passar por algo que os especialistas apelidam de “definhar”. “Não estamos deprimidos”, esclarece Jeffrey Froh, professor de psicologia da Universidade Hofstra, “mas não estamos definitivamente a funcionar da maneira ideal”. Para além disso, Emme está longe de ser um caso isolado. Michelle Harris, assistente clínica social sediada em Nova Iorque, e fundadora da Parenting Pathfinders, diz que tem observado mais crianças com problemas de motivação e dificuldades de concentração desde o início da pandemia.


De acordo com os psicólogos, as pessoas florescem quando se sentem empenhadas na vida, quando têm ligações significativas com outras pessoas e perseguem objetivos que proporcionam uma sensação de realização e capacidade. Infelizmente, foram estas mesmas condições que a pandemia dizimou, diz David Shernoff, psicólogo educacional da Universidade Rutgers.

A incerteza e o medo provocados pela pandemia também contribuíram para o “definhar” das crianças. “A nossa sensação de ameaça ou segurança ficou em alerta máximo”, diz Jeffrey Froh, dificultando a perseguição de um objetivo mais desafiador. Se as crianças forem afetadas diretamente, com entes queridos doentes; ou se ficarem preocupadas porque os pais precisam de ir trabalhar, então a sua motivação e energia podem começar a desaparecer.

“Para muitas crianças, os desafios, as mudanças e restrições que viveram no ano passado foram muito desgastantes do ponto de vista emocional”, diz Michelle Harris. “Foi algo que afetou negativamente a sua capacidade de diversão e alegria.”

Mas, tal como Emme descobriu, há um antídoto para isto: o estado de fluxo (flow state). Trata-se de um estado de imersão numa tarefa ou atividade que promove a saúde mental. As crianças em estado de fluxo ficam completamente absortas no que estão a fazer, chegando a um ponto em que perdem noção do tempo ou até mesmo de necessidades físicas como comer e dormir.

“Todos nós temos um desejo inato de prosperar”, diz Jeffrey. “E encorajar os estados de fluxo nos nossos filhos ajuda-os a perseguir e a alcançar o seu potencial.”

A ciência do fluxo

O que acontece no cérebro de uma pessoa em estado de fluxo? Aparentemente, acontece muita coisa – mas esta resposta está longe de ser simples.

Charles Limb, cirurgião e neurocientista da Universidade da Califórnia, em São Francisco, estudou a atividade neural de músicos de jazz enquanto tocavam piano e descobriu que “há vastas áreas do córtex pré-frontal [associadas à automonitorização] que se desligam quando os músicos estão a improvisar”. Ao mesmo tempo, as partes do cérebro responsáveis pelo “processamento sensorial e motor parecem aumentar [de atividade] durante as tarefas criativas”, afirma Charles. Padrões semelhantes foram observados em artistas de rap freestyle, comediantes e caricaturistas.

Simplificando, as análises cerebrais mostram que, quando um indivíduo está imerso numa atividade de fluxo, a sua autoconsciência desaparece, mas a sua consciência sobre a atividade é intensificada. Uma bailarina absorta no fluxo, por exemplo, pode não sentir dor nos músculos, mas está extremamente sintonizada com a música que comanda os seus movimentos.

O que significa isto para as crianças? Charles suspeita que existem diferentes níveis para os estados de fluxo dependendo da atividade e experiência de uma pessoa (por exemplo, uma criança que gosta de desenhar por oposição a um artista profissional). Num estudo que ainda está decorrer, a equipa de Charles tem examinado a atividade cerebral de crianças sem formação musical com idades compreendidas entre os 9 e os 11 anos durante sessões de improviso. Semelhante à experiência que fez com músicos profissionais, Charles comparou os padrões cerebrais das crianças enquanto estas tocavam uma sequência memorizada e depois uma música improvisada. A configuração experimental foi projetada de maneira a que qualquer nota tocada nunca soasse mal.

“A atividade cerebral das crianças era muito mais ténue em comparação com a dos músicos profissionais”, diz Charles. “Isto levanta uma questão interessante: como é que os padrões das crianças se relacionam com os dos adultos com formação?”

Sabe-se que há uma grande diferença no cérebro quando as crianças passam da memorização para o improviso, ou dos exercícios mecânicos para atividades nas quais podem ficar completamente absortas. Mas esta ciência continua a ser refinada.

De uma perspetiva neuroquímica, a dopamina – envolvida na aprendizagem, memória e regulação emocional – desempenha um papel importante nos estados de fluxo. “O fluxo explora verdadeiramente os circuitos dopaminérgicos do cérebro”, ou as rotas pelas quais este neurotransmissor viaja pelo cérebro, diz Joydeep Bhattacharya, professor de psicologia da Universidade de Londres. Joydeep especula que os circuitos dopaminérgicos de pessoas que atingem frequentemente o fluxo são “lentamente remodelados e moldados com o tempo”.

Portanto, os momentos regulares de fluxo podem aumentar a motivação para aprender e as aptidões para controlar as emoções. Na sua investigação com estudantes de piano, Joydeep Bhattacharya demonstrou uma ligação entre a capacidade de entrar em estados de fluxo e a inteligência emocional (embora alerte que o estudo mostra correlação e não causalidade).

Como encorajar um estado de fluxo nas crianças

“Qualquer pessoa que já viu uma criança imersa a rabiscar ou a tentar construir a torre perfeita sabe que as crianças têm uma tendência natural e inerente para estar num estado de fluxo”, diz Joydeep. Mas por vezes precisam de um empurrãozinho. Os especialistas têm algumas dicas para ajudar as crianças a beneficiarem deste estado de fluxo.

Descubra os interesses das crianças. Como a motivação intrínseca é crucial para alcançar o fluxo, é importante descobrir quais são as paixões do seu filho. “Converse com as crianças sobre aquilo que lhes interessa”, aconselha Michelle Harris, acrescentando que os pais devem encorajar as crianças a apresentar as suas próprias ideias, em vez de serem os pais a impor o que devem fazer. Depois de assumirem algum controlo, é mais provável que as crianças continuem com a atividade. Para os pais de crianças mais novas, “fiquem à vontade para sugerir ideias caso os filhos não consigam descobrir algo para fazer”.

O que se considera uma atividade de fluxo depende muito do indivíduo. “Para as crianças, temos de descobrir o que desperta as suas paixões”, diz David Shernoff. “Quanto mais as crianças conseguirem reivindicar estes tipos de atividades de fluxo, mais começam a ganhar motivação, e também significado.”

Proporcione tempos livres sem interrupções. Vivemos numa era de distrações e horários sobrecarregados, fatores que podem acabar com o fluxo. “Desligue a televisão, encontre um espaço com poucas distrações e diga às crianças que este é o momento para simplesmente não fazerem nada, a não ser desfrutar daquilo em que estão a trabalhar”, diz Michelle.

Jeffrey concorda: “As brincadeiras não estruturadas, e em abundância, são imperativas.” Por exemplo, a filha e o filho de Jeffrey, de 11 e 14 anos respetivamente, estão limitados a duas atividades extracurriculares para garantir que têm bastante tempo não estruturado para desfrutar dos seus interesses.

Apoie as crianças. O fluxo requer um equilíbrio delicado: uma tarefa precisa de ser difícil o suficiente para manter o interesse, mas não difícil a um ponto em que a experiência se torna desanimadora. Os pais devem fomentar este equilíbrio fornecendo apoio ao início, quando os filhos precisam mais de ajuda e, de seguida, afastando-se à medida que as crianças ganham mais confiança.

“Por exemplo, com peças de Lego, pais e filhos podem começar com um conjunto onde seguem o que está no manual de instruções e sabem exatamente o que vão construir”, diz David. Mas, à medida que as crianças ficam mais confortáveis com o básico, podem construir algo novo com os pais. Não se esqueça de fazer perguntas: Qual vai ser a cor da chaminé? Aquela porta abre para dentro ou para fora? Porém, os pais devem deixar as crianças liderar.

O envolvimento em atividades de fluxo em família também é uma ótima forma de os pais se ligarem aos filhos, e é também quando as crianças se sentem ligadas a outras pessoas – quer sejam familiares, amigos ou professores – e isso também pode incentivar o fluxo e combater o chamado “definhar”. Na investigação de David Shernoff sobre o estado de fluxo nas escolas, por exemplo, David descobriu que o apoio dos professores e colegas leva a um envolvimento maior por parte dos alunos. “Partilhar a experiência de fluxo com amigos torna isso significativo e também numa fonte de criação de laços.” E quando amigos e professores fornecem feedback imediato, isso ajuda as crianças a alcançar (e a superar) os seus objetivos.

Retire peso ao desempenho. Quando os pais se concentram no desempenho ou nos resultados, podem inadvertidamente afetar a alegria que os filhos retiram de uma determinada atividade. “Não precisamos de ser um Mozart para tocar piano, e não precisamos de ser o Michael Jordan para jogar basquetebol”, diz Charles Limb. Em vez disso, os pais devem incentivar as crianças para se envolverem em atividades um pouco mais abertas, sem muitas etapas ou regras. Crie uma história de banda desenhada sem intenções de a publicar ou acompanhe a banda sonora de um filme favorito.

Em última análise, Charles acredita que a criatividade é universal, embora exija treino para ser refinada. “Quando as crianças se envolvem nestas atividades, estão a desenvolver a criatividade nos seus cérebros.” E quanto mais as crianças exploram a sua natureza criativa através do fluxo, mais probabilidades têm de transformar estas aptidões numa vida adulta produtiva.
 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

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