Então o seu filho quer ser vegetariano...?

Dicas para apoiar o novo estilo de vida do seu filho – mesmo que não concorde a 100%.

Publicado 2/07/2021, 12:49
 Menino na cozinha - a comer comida vegetariana

   

Fotografia de Tom Werner / Getty Images

Quando Sami Grover, de 12 anos, disse à avó que se estava a adaptar a um estilo de vida vegetariano, a avó começou a chorar.

Sami, agora ambientalista e autor do livro We're All Climate Hypocrites Now, diz que a sua avó finlandesa ficou perturbada com a ideia de já não poder fazer os guisados favoritos dele.

“Creio que, para muitos de nós, cozinhar é uma forma de demonstrar amor”, diz Sami, que em adulto continua a ter uma dieta rica em vegetais, mas que já não é tão extremista como quando era criança. “Também é uma forma de estarmos em contacto com as nossas tradições e o nosso legado.”

O receio de perder uma ligação familiar à mesa de jantar é apenas uma das razões pelas quais os pais que comem carne podem perder a cabeça quando os filhos anunciam que são vegetarianos (não comem carne) ou vegan (não comem carne ou produtos de origem animal). E embora atualmente só cerca de 2% dos vegetarianos nos Estados Unidos sejam crianças, isso pode estar a mudar. As crianças continuam a defender causas como a luta contra as alterações climáticas e contra os maus-tratos a animais – e veem os restaurantes que estão na berra e revistas especializadas em comida a fazer o mesmo – e os especialistas estão a observar cada vez mais jovens a adotar uma dieta à base de vegetais.

“Atualmente é mais comum vermos famílias que escolhem seguir um estilo de vida vegetariano ou vegan com os seus filhos do que no passado”, diz a nutricionista Karla Moreno-Bryce, que é vegan e tem uma filha vegan.

E embora o interesse das crianças em se tornarem vegetarianas ainda não tenha sido amplamente estudado, Natalie Muth, pediatra, nutricionista e porta-voz da Academia Americana de Pediatria, diz que também observou um aumento nas crianças interessadas numa dieta sem carne, que muitas vezes é estimulada por preocupações com o impacto ambiental e a crueldade contra animais.

“O vegetarianismo está a tornar-se cada vez mais comum em geral”, diz Natalie. “Embora no passado houvesse a preocupação de que uma dieta vegetariana pudesse ser ‘inadequada’ devido à ausência determinados nutrientes essenciais, geralmente não é esse o caso com as dietas vegetarianas bem planeadas.”

Mesmo que os pais estejam um pouco desconfiados sobre os novos interesses alimentares dos seus filhos, os especialistas concordam que respeitar a escolha das crianças com diálogos e soluções ponderadas ajuda a garantir que os mais novos continuam felizes e saudáveis. Descubra como pode iniciar esta conversa.

Comer menos carne pode ser uma coisa boa

A preocupação com as alterações climáticas foi um dos principais motivos pelos quais a filha de Natalie, que tem 10 anos e adora bacon, anunciou recentemente que queria deixar de comer carne. De facto, a produção de carne pode ter impactos enormes no ambiente – desde emissões de gases de efeito estufa até ao uso excessivo de água, poluição por fertilizantes e perda de biodiversidade devido à desflorestação. Com base nos cálculos de um relatório de 2019, se todas as pessoas nos EUA fossem vegetarianas, diminuiríamos as emissões de gases de efeito estufa em 5%.

É pouco provável que isso venha a acontecer, e mesmo que as crianças abdiquem dos seus hambúrgueres, isso não resolve unilateralmente a questão das alterações climáticas. Mas Sami Grover salienta que a proteção do planeta através de escolhas alimentares não precisa de ser uma decisão extremista.

“Podemos contribuir bastante para os efeitos climáticos se cortarmos na carne de vaca ou reduzirmos significativamente a carne que comemos”, diz Sami, acrescentando que, como a carne de frango, de porco e o marisco têm menos impacto no ambiente, as crianças não precisam de abdicar de todas as fontes de proteína não vegetal para fazer a diferença.

E não será surpresa para ninguém que comer menos carne – sobretudo carnes vermelhas – é uma opção mais saudável.

“As crianças e adolescentes que seguem um plano alimentar vegetariano tendem a consumir mais frutas e vegetais e menos doces, salgados e gordura saturada do que os não vegetarianos”, diz Natalie. “E também tendem a ter menos risco de ter peso a mais ou de serem obesos.”

Karla Moreno-Bryce acrescenta que as crianças que seguem uma dieta vegetariana ou vegan têm menos riscos de desenvolver determinadas doenças crónicas, como doenças cardiovasculares e diabetes.

O segredo, claro, é garantir que as crianças continuam a receber os nutrientes que precisam – e isso geralmente significa algum esforço extra parte dos pais. (Por exemplo, a ingestão inadequada de ferro, que é normal na maioria das crianças, pode ser ainda mais prevalente nas crianças que seguem um plano alimentar vegetariano.) De acordo com a Academia de Nutrição e Dietética, as crianças podem prosperar seguindo uma dieta à base de vegetais, desde que inclua uma variedade de fontes nutricionais, incluindo legumes, grão, fruta, vegetais, frutos secos e sementes.

Lianne Phillipson, nutricionista e apresentadora do podcast Eat This With Lianne, recomenda opções alimentares como sementes de sésamo e folhas verdes para obter cálcio; gemas de ovo para obter vitamina D; levedura nutricional, tempeh ou algas marinhas nori para a B12; sementes de abóbora para o zinco; e nozes e castanhas para ácidos gordos ómega-3.

“Um plano alimentar vegetariano bem estruturado pode fornecer a nutrição ideal e benefícios para a saúde”, diz Natalie. Dito isto, consulte o seu pediatra antes de fazer qualquer mudança alimentar a longo prazo. As crianças podem ter necessidades específicas ou condições subjacentes que devem ser consideradas ao elaborar um plano alimentar que ajude no seu crescimento. Um profissional médico também pode querer fazer testes de base, como exames ao sangue para monitorizar o progresso do seu filho, e também para estar atento a eventuais problemas psicológicos. (Uma alteração drástica na dieta pode esconder um distúrbio alimentar.)

Falar com as crianças sobre ser vegetariano

Para uma família que come carne, uma criança que chega a casa e anuncia que agora é vegetariana pode ser um pouco chocante. Mas parabéns: o facto de o seu filho ter partilhado a decisão que tomou é importante.

“Isso significa que confiam nos pais para procurar apoio e orientação de forma adequada”, diz Karla. “Ter conversas frequentes sobre esta escolha ajuda [os pais] a desenvolverem um plano para fazer a transição em conjunto.”

A nutricionista Pegah Jalali acrescenta que é bom os pais saberem o que – ou quem – está a motivar a criança (nem sempre se trata de direitos dos animais!) e de onde estão a obter as suas informações. “É o mesmo que drogas, sexo ou álcool: não queremos que aprendam sobre isso através de terceiros, porque assim vão procurar qualquer fonte para tentar obter informações”, diz Pegah. “Se a conversa for acolhedora e os pais estiverem a proporcionar um lugar seguro para as crianças falarem, então o resultado será sempre melhor.”

Lianne Phillipson sugere que os pais devem fazer perguntas que incentivem a partilha de mais informações. (Podes contar-me mais sobre a tua decisão? Como é que decidiste isto? Existe alguma receita que queiras experimentar?) Mas os pais devem tentar fazer um esforço para evitar julgamentos – e talvez até colocar de parte a sua própria opinião pessoal.

“Para começar, os pais precisam de manter os ouvidos abertos e a boca fechada, e permitir que os filhos expliquem a sua decisão”, diz Lianne. “Pode ser difícil, mas isto faz parte do processo onde honramos a escolha deles. Se [as crianças] se sentirem apoiadas no que estão a fazer, estarão muito mais abertas para conversar sobre isso.”

Mesmo que os pais apoiem as decisões dos filhos, devem certificar-se de que as crianças compreendem como isso poderá afetar a sua vida – e ajudá-las a encontrar soluções. Por exemplo, o que irão fazer nos lanches de aniversário? Como é que irão garantir que o irmão mais novo continua a comer os seus adorados panados de frango? Como é que esta decisão irá afetar a pessoa que prepara as refeições?

“É uma grande decisão para o indivíduo, mas também é uma grande decisão para toda a família”, diz Lianne. “Portanto, precisam todos de estar no mesmo barco.”

Começar com as crianças

Mesmo que os pais não apoiem a 100% o novo estilo de vida vegetariano dos seus filhos, há pequenos gestos graduais que podem mostrar que toda a família está de acordo, ajudando as crianças a sentirem-se apoiadas. Seguem-se algumas sugestões:

• Procure receitas à base de plantas para partilhar com o seu filho e descubra o que lhe parece apetitoso.
• Organize eventos familiares – como uma noite de cinema em casa ou um piquenique ao fim de semana – incluindo a dieta vegetariana do seu filho.
• Envolva o seu filho na preparação das refeições. Isto ajuda as crianças a responsabilizarem-se pela decisão que tomaram – e permite-lhes perceber se o desejo corresponde ao esforço.
• Experimente “cozinhar sequencialmente”, retirando a porção sem carne de uma refeição antes de adicionar a carne para o resto da família (por exemplo, removendo o esparguete antes de adicionar as almôndegas).
• Planeie refeições internacionais e experimente pratos ricos em ingredientes vegetarianos, como caril de vegetais indianos ou pratos mediterrânicos com tahine (rico em cálcio!) ou faláfel.
• Uma vez por semana, troque uma refeição por uma opção sem carne (experimente hambúrgueres à base de vegetais em vez de carne bovina, ou substitua a carne por lentilhas num prato que as crianças gostem), ou abdique de comer carne aos fins de semana. Outras sugestões: reduza as carnes vermelhas, mas não o frango; ou experimente comer peixe em vez de carne.

Heather Greenwood Davis é editora colaboradora da National Geographic. Siga-a no Instagram e no Twitter.


Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

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