As árvores da cidade podem ser benéficas para os cérebros das crianças

Descubra também 9 formas de explorar a natureza no seu bairro – onde quer que viva.

Publicado 7/09/2021, 13:22
Pai e filho exploram a natureza

  

Fotografia de Thomas Barwick / Getty Images

Com três filhas menores de oito anos, os pais nova-iorquinos Kimberly e Sam Leopold fizeram da proximidade com a natureza o objetivo principal enquanto procuravam um apartamento. “Passamos algum tempo no parque, cerca de duas ou três vezes por dia”, diz Kimberly, que vive num apartamento de 70 metros quadrados no sul de Harlem com o marido e as filhas. “Para ser sincera, trata-se de uma questão de sobrevivência. As crianças ficam mais felizes quando podem brincar e explorar ao ar livre.”

De facto, uma infusão regular de natureza – em particular, ver e estar perto de árvores – também pode ajudar a fortalecer o pensamento e capacidades de raciocínio das crianças. Um estudo britânico feito recentemente com mais de 3.500 crianças e adolescentes que vivem em cidades londrinas descobriu que uma maior exposição diária às florestas (basicamente, lugares com árvores) pode ajudar no desenvolvimento cognitivo das crianças.

A boa notícia é que as crianças podem – e devem – receber uma dose diária de exposição a árvores e outros elementos da natureza, mesmo que a sua família viva numa cidade ou subúrbio, diz Tim Beatley, fundador e diretor executivo da Biophilic Cities, organização que defende futuras cidades nas quais os habitantes estão rodeados por natureza.

“A natureza não pode ser encarada apenas como uma coisa distante que visitamos de vez em quando”, diz Tim. “Poucas coisas conseguem transmitir a sensação do que é estar imerso na natureza da mesma forma que as árvores conseguem e fazem.”

Benefícios das árvores para o cérebro

Os resultados do estudo feito em Londres fazem parte de um crescente corpo de evidências que sugere que passar tempo na natureza pode aumentar a capacidade intelectual das crianças. Mas o que é que acontece em particular no cérebro quando as crianças estão em áreas arborizadas? Os autores principais do estudo britânico dizem que uma possível explicação para as suas descobertas pode dever-se ao facto de os bosques normalmente terem coisas naturais muito interessantes para as crianças ouvirem, tocarem, cheirarem e verem, como o chilrear dos pássaros, a casca áspera das árvores, folhas estranhamente perfumadas, e pequenos vermes.

Por outras palavras, as árvores e a incrível variedade de coisas que as rodeiam podem ajudar a integração sensorial – que é a forma como o cérebro recebe, organiza e responde às informações dos sentidos, diz Keith Somers, pediatra do Centro Médico Pediátrico-GIL da Universidade de Pittsburgh.

“Somos seres sensoriais desde o início e a natureza fornece todos os impactos que cada um dos nossos sentidos precisa”, acrescenta Keith, que tem uma abordagem prática em relação à saúde infantil e trabalha em parceira com a iniciativa Parks Rx da Conservação de Parques de Pittsburgh. Keith explica que os sentidos vitais para o desenvolvimento de uma criança são os cinco mais familiares – visão, som, olfato, paladar e tato – e outros dois: equilíbrio e noção do corpo no espaço (ou o que os terapeutas ocupacionais costumam chamar “sentidos ocultos”).

Keith refere que estimular os sentidos durante os primeiros três anos de vida ajuda a construir cérebros fortes e saudáveis. Por exemplo, mesmo quando um bebé parece estar quieto nos nossos braços, ele está a receber informações e a desenvolver vias neurais – as ligações essenciais entre os neurónios usadas para transmitir informações ao cérebro.

À medida que as crianças crescem, a utilização de vários sentidos ajuda a construir e a fortalecer estas vias neurais, estabelecendo a base para aprenderem e dominarem tarefas complexas mais tarde. E, uma vez que cada um dos sentidos usa uma parte diferente do cérebro (por exemplo, as informações dos olhos são processadas na parte de trás do cérebro), a essência multissensorial e experiencial da própria natureza exercita os jovens cérebros. Ver esquilos a correr à volta de uma árvore, empilhar pedras (e vê-las cair!), cheirar o aroma das flores e fazer equilibrismo num tronco são aventuras sensoriais que as crianças não conseguem ter através da aplicação Zoom ou de outras experiências de aprendizagem virtual.

“Sabemos que a natureza é o nosso grande professor”, diz Keith. “Às vezes não precisamos de gastar muito dinheiro num dispositivo tecnológico quando podemos simplesmente sair à rua e encontrar uma árvore.”

As crianças precisam das árvores (até das mortas!)

Não é preciso uma floresta inteira ou até um parque arborizado para despertar a imaginação das crianças e a resolução criativa de problemas. Basta uma árvore... e nem sequer é preciso estar viva! As árvores mortas no solo estão repletas de vida, servindo de abrigo e fonte de alimento a aves, insetos, lagartos e outras criaturas assustadoras.

As crianças podem ficar mentalmente hipnotizadas com o balançar, movimento e rangido das árvores que animam bairros e cidades. “Olhar para as árvores é como sentir sem esforço o que sentimos quando observamos as nuvens ou o oceano”, diz Tim Beatley. (Descubra mais ideias para deixar as crianças ‘andar com a cabeça nas nuvens’.)

Para as crianças que vivem na cidade e nos subúrbios em particular, há benefícios comprovados para a saúde associados ao tempo que se passa regularmente entre as árvores. Tim cita como exemplo a extensa investigação japonesa e chinesa em torno do shinrin-yoku, ou banho de floresta, mostrando que, no final de uma caminhada pela floresta, os níveis de hormonas do stress baixam e o sistema imunitário fica fortalecido. (Aprenda a fazer um ‘banho de floresta’ em família.)

As árvores também fornecem sombra e ar fresco (algo que cada vez mais é essencial nos ambientes urbanos) e ajudam a mitigar a poluição do ar, reduzindo o risco de asma nas crianças. Para Tim, porém, a sensação de admiração que as árvores inspiram é uma das maiores razões pelas quais as crianças (e adultos) precisam de ter florestas e outro tipo de natureza nas suas vidas diárias.

“Sentir admiração proporciona benefícios emocionais e de saúde, ajudando também a fornecer uma sensação de ligação profunda, propósito e significado de vida”, diz Tim.

9 Formas de explorar a natureza em qualquer bairro

Despertar um sentimento de admiração sobre as árvores ou qualquer tipo de natureza também ajuda as crianças a tornarem-se pessoas que desejam proteger o planeta, diz o Explorador da National Geographic e pai Daniel Raven-Ellison, que vive em Londres.

“Se queremos que as crianças se preocupem com a vida selvagem e as zonas naturais, é vital que as experienciem por elas próprias”, explica Daniel, fundador do movimento National Park City, um esforço global que visa a transformação de áreas urbanas em zonas mais verdes, saudáveis e naturais. “Isto não significa que temos de ir para longe; todos os bairros têm lugares um pouco selvagens para descobrir.”

O mesmo acontece para quem vive longe de um parque arborizado. Daniel e Tim concordam que a natureza pode ser encontrada em lugares do quotidiano, como ao longo de calçadas, vedações e canais; nas paredes e telhados cobertos de hera; nos terrenos baldios, jardins comunitários e parques infantis; e no paisagismo em torno dos edifícios.

Para ajudar a sua família a reparar na natureza que tem na vizinhança, Daniel sugere caminhadas regulares durante as quais deve tentar fazer pelo menos uma das seguintes atividades:

• Siga discretamente um esquilo ou outro animal durante o tempo que conseguir. Para onde vai o animal? O que faz?
• Conte quantos metros ou passos consegue dar sem afugentar um único pássaro.
• Faça um safari de fotografia e capte 10 fotografias de animais, cada um mais pequeno do que o outro. (Dicas para as crianças tirarem fotografias de vida selvagem como um profissional da National Geographic.)
• Sente-se tranquilamente debaixo de uma árvore e aguarde. Quais são as vistas, sons e cheiros que consegue identificar?
• Faça observação de aves. Observe um bando local, tire notas sobre a aparência das aves e o que fazem, e atribua-lhes nomes que reflitam a sua personalidade – como Saltitão, Assobio ou Guloso!
• Atribua pontos aos elementos da natureza (por exemplo, pombo = 1, coelho = 5) e ganhe pontos ao avistá-los durante a caminhada. O primeiro a chegar aos 20 pontos ganha o jogo!
• Onde for permitido, suba a uma árvore. Escolha uma árvore que as crianças consigam subir sozinhas (sem ajuda!) e certifique-se de que três pontos do corpo – duas mãos e um pé, ou dois pés e uma mão – estão sempre sustentados por ramos.
• Identifique as cores. Com uma paleta de amostras de cores tente identificar as cores que encontra na natureza.
• Se os seus filhos gostarem de investigação e mistério (e se tiver paciência), investigue o “assassinato” de um pássaro ou de outra criatura na floresta. Desenhe uma linha com giz branco em torno do corpo (mas não lhe toque!) e procure pistas sobre como, quando, onde e porque é que o animal morreu.
 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

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