Como um pouco de silêncio pode ajudar na saúde mental das crianças

Descubra como ajudar as crianças a encontrarem momentos de tranquilidade e estimular a sua inteligência emocional e capacidade intelectual.

Publicado 17/09/2021, 12:30
Criança sentada em silêncio na natureza

   

Fotografia de Mayur Kakade / Getty Images

A filha de quatro anos de Amy Carson está a ignorar a mãe – mas a mãe não se importa. Empurrando o carrinho de Isa, Amy opta por uma caminhada em vez de um passeio depois de um encontro com outras crianças para dar a ambas uma pausa do ritmo do quotidiano. Estas caminhadas silenciosas de 15 minutos fazem uma enorme diferença.

“Este momento de silêncio é muito útil para a Isa depois de ela estar com outras crianças”, diz Amy. “Ela fica mais calma a ver o mundo a passar enquanto descansa a cabeça no carrinho do que num passeio de carro, onde normalmente conversamos ou ouvimos música.”

Qualquer pai poderá dizer que este silêncio é de ouro na orquestra da vida familiar. Mas também pode ser bom para a saúde mental de uma criança.

O silêncio funciona como um amortecedor entre os estímulos externos e o processamento emocional. Por outras palavras, a ausência de uma distração ruidosa pode ajudar o cérebro das crianças a assimilar melhor o mundo que as rodeia. E, de facto, há vários estudos que demonstram que o silêncio pode aumentar os níveis de oxitocina, ou sensação de bem-estar, diminuir o stress, ajudar na concentração e agilização de pensamentos e promover uma calma geral que permite aos cérebros das crianças aprenderem a regular as emoções.

“As crianças precisam de uma oportunidade para se desligar de forma estratégica e segura de um mundo social complexo, recuar, assimilar e construir uma história de quem são”, diz Mary Helen Immordino-Yang, professora de educação, psicologia e neurociências da Universidade do Sul da Califórnia.

Obviamente, crianças e silêncio não é propriamente uma junção fácil. Um estudo publicado por uma equipa de investigadores da Universidade da Virgínia e de Harvard mostra que os estudantes universitários preferem submeter-se a um pequeno choque elétrico do que ficar sentados em silêncio absoluto por 15 minutos.

“A vida, sobretudo com crianças, está repleta de sensações e movimento”, diz Meghan Fitzgerald, cofundadora e diretora do departamento de aprendizagem do Tinkergarten, um programa de educação infantil focado na aprendizagem ao ar livre. “Qualquer pessoa que já trabalhou com crianças sabe que, na melhor das hipóteses, pedir tranquilidade ou silêncio total às crianças é fútil.”

Felizmente, não precisamos de forçar as crianças a ficarem caladas e sentadas num canto para desfrutarmos dos benefícios do silêncio. Os especialistas dizem que o tempo de tranquilidade – combinando a ausência de som com atividades calmantes, como puzzles ou pintar – também surte o mesmo efeito. Da mesma forma, sonhar acordado pode tranquilizar os pensamentos das crianças. Mesmo o foco em sons calmantes, como os sons da natureza ou zumbidos, pode ajudar no foco das crianças.

Basicamente, adicionar uma dose diária de silêncio à vida de uma criança, ao criar momentos de tranquilidade, é o mesmo que lhe dar um multivitamínico para a saúde mental. Eis como pode começar.

A ciência por trás do silêncio

Para as crianças, o silêncio é mais do que uma pausa mental. “Uma criança precisa de silêncio para permanecer sã”, diz Eric Pfeifer, professor de estética e comunicação da Universidade Católica de Ciências Aplicadas em Freiburg, na Alemanha. “É muito importante para o desenvolvimento da criança. Imagine uma orquestra e todos os seus músicos a tocar sem parar, sem uma única pausa. Seria uma cacofonia insuportável.”

Basicamente, o silêncio minimiza as distrações, ajudando as crianças a relaxar. E este estado de relaxamento ajuda a ativar o hipocampo do cérebro, que é importante para a formação de memórias que suportam aptidões de vida, como a tomada de decisões e empatia. Assim, durante os momentos de silêncio, as crianças podem dinamizar os seus pensamentos, dar sentido às suas emoções e reconfigurar as suas respostas ao stress.

O silêncio também oferece espaço para as crianças refletirem internamente e pensarem profundamente sobre várias ideias. De acordo com a investigação da Associação para a Supervisão e Desenvolvimento Curricular, os adolescentes que o conseguem fazer desenvolvem mais os seus cérebros do que os que não o fazem. “Este crescimento, por sua vez, aumenta a autoconfiança nos jovens, bem como a sua satisfação nas relações de amizade e laborais”, diz Mary Immordino-Yang, coautora da investigação.

O próprio foco “maioritariamente no silêncio” também pode estimular as emoções das crianças. As investigações demonstram que os sons melódicos de copos ou tigelas tibetanas podem ativar a região de recompensa do cérebro e libertar dopamina, a hormona da sensação de bem-estar, embora este efeito ainda não tenha sido estudado em crianças. Os investigadores da Universidade de Sussex também descobriram que o cérebro, quando ouve sons naturais como água a fluir, desvia a atenção para o exterior, estimulando o sistema parassimpático (associado à tranquilidade e bem-estar); por outro lado, os sons artificiais como buzinas de automóveis desencadeiam o mesmo tipo de resposta de ameaça observada em casos de depressão e ansiedade.

Adicionar momentos de silêncio à vida do seu filho

Expor as crianças a diferentes versões de silêncio pode um dia mais tarde facilitar a redescoberta desses momentos, diz Eric Pfeifer. Eis como os pais podem reservar um tempo para os momentos de silêncio.

Modele um comportamento silencioso. “Se os pais não gostam de estar em silêncio, torna-se difícil dizerem aos filhos para ficarem em silêncio”, diz Eric. Modele um comportamento silencioso como faz quando está a ler – se o seu filho o vir com um livro, é provável que também queira ler um. Da mesma forma, se os pais reservarem cinco minutos para observarem a rua pela janela, isso sinaliza que essa é uma opção relevante. “As crianças têm uma antena altamente sensível”, continua Eric. “As crianças, de forma consciente – e inconsciente – sentem o que conforta os pais.”

Jogo do silêncio. Mergulhar profundamente em silêncios monásticos é uma receita para o desastre. Comece lentamente. O silêncio – aqueles momentos flexíveis de silêncio – conforta-nos e pode abrir espaço para um silêncio mais focado, diz Jane Brox, autora de Silence. Fazer um ‘jogo do silêncio’ é uma forma de fazer a transição da “tranquilidade” para o silêncio. O objetivo: todos ficam calados durante um determinado período de tempo. A criança que ficar em silêncio mais tempo vence o jogo.

Com os adolescentes, basta simplesmente abraçar os momentos naturais de tranquilidade. Resista à tentação de meter música a tocar ou de fazer perguntas superficiais, como o anticlimático “como é que vai a escola?” Os adultos pensam no silêncio como algo que devemos eliminar, acrescenta Jane. “O silêncio deixa-nos muitas vezes desconfortáveis se não estivermos habituados a ele.” Mas estes momentos desconfortáveis podem dar origem a algumas surpresas.

Sintonize a natureza. Embora o silêncio seja benéfico tanto dentro como fora de casa, a investigação de Eric Pfeifer mostra que, quando as pessoas experimentam uma sensação de silêncio no jardim de uma cidade, em comparação com o silêncio de uma sala de seminário, sentem-se menos entediadas e significativamente mais relaxadas.

Para ajudar as crianças a acolher o silêncio ao ar livre, peça-lhes para brincarem aos “cartógrafos de som”, desenhando um mapa dos seus espaços silenciosos favoritos. Para variar, faça uma caça ao tesouro de sons – classificando-os desde os mais barulhentos aos mais silenciosos. O envolvimento com a natureza através dos chamados “banhos de floresta” também pode ser divertido; este artigo mostra como o pode fazer.

Tome banhos (de som). Também pode criar melodias com copos e água. Encha copos de vinho com água e, de seguida, passe um dedo húmido sobre a extremidade do copo para explorar tons graves e agudos. Depois, deixe as crianças fazerem o mesmo para sentirem as vibrações nos seus corpos. “O efeito de vibração funciona como uma massagem”, diz Eric. “Como a mente e o corpo estão ligados um ao outro, se o corpo relaxar, isso também afeta a mente [e vice-versa].”

Alternativamente, Jaime Amor, cofundadora da Cosmic Kids, usa sinos para as crianças se concentrarem. Peça ao seu filho para se sentar com as pernas cruzadas enquanto o sino toca, ouvindo o som com as mãos nos joelhos até este desaparecer. De seguida, peça-lhe para colocar as mãos no colo e ouvir o som de novo.
 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

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