Quer conversar melhor com os seus filhos? Leve-os para a natureza.

As investigações mostram que as conversas na natureza podem estimular a união familiar. Eis porquê e como pode começar.

Publicado 23/09/2021, 13:07
Crianças com a mãe - conversar na natureza

   

Fotografia de Tom Werner / Getty Images

Há algo sobre as caminhadas nas montanhas perto da casa de Henry Van Bibber, de 12 anos de idade, em Santa Fé, que o deixa realmente aberto a conversar. O tempo passado nos trilhos com a mãe e o pai costuma ser preenchido com um fluxo interminável de conversas nas quais Henry fala abertamente sobre a sua casa de sonho ou o videojogo perfeito. Mas, por vezes, os temas de conversa são mais profundos.

No verão passado, por exemplo, a sua família falou sobre o movimento Black Lives Matter e a desigualdade racial. Recentemente, durante uma caminhada no seu trilho favorito, Henry revelou que estava ansioso para começar as aulas numa escola nova e fazer novos amigos após um longo hiato imposto pela pandemia.

“Antes, conversávamos principalmente sobre as coisas que ele ouvia nas notícias ou na televisão”, diz Ryan Van Bibber, pai de Henry. “Mas isto foi como uma verdadeira janela para a sua pessoa do dia a dia – quem ele é e os problemas que o afetam.”

Não é segredo que o simples ato de sair de casa oferece às crianças uma abundância de benefícios físicos, emocionais e cognitivos. As crianças que passam tempo ao ar livre são mais felizes, saudáveis, inteligentes, cooperativas e criativas. As investigações também revelam que sair de casa reduz o stress, a ansiedade e a depressão, ao mesmo tempo que diminui o risco de obesidade infantil e alivia os sintomas do transtorno de défice de atenção na hiperatividade.

Agora, novos dados apontam para outro aspeto da poderosa capacidade de nutrição da natureza: a comunicação. Um estudo feito em 2018 com crianças de três e quatro anos no País de Gales descobriu que a comunicação pai-filho é mais responsiva e conectada em ambientes naturais, em comparação com ambientes fechados. Mais recentemente, uma investigação publicada em 2021 na revista Applied Psychology Health and Well-Being, que examina os efeitos das caminhadas na natureza em pares mãe-filha, revela que passar tempo fora de casa é uma forma de promover as interações familiares positivas.

“A natureza restaura a capacidade das pessoas prestarem atenção às conversas e reduz a fadiga mental”, diz Dina Izenstark, professora-adjunta de desenvolvimento infantil e adolescente na Universidade de San José e uma das autoras do estudo de 2021. “Isto pode ajudar os membros da família a comunicarem de forma mais eficaz e a relacionarem-se melhor uns com os outros.”

A maioria dos pais sabe o que é receber respostas de uma só palavra – ou o bloqueio total – quando tentam falar com os filhos. E a maioria dos pais gostava que os filhos se abrissem mais. A boa notícia é a de que uma simples dose de vitamina N pode ajudar a que isso aconteça.

Conectar através da conversa – independentemente de onde estamos

Independentemente do local onde está a falar com o seu filho, as boas conversas começam com ligações fortes. “Há décadas de estudos que mostram que ter interações sensíveis, oportunas e responsivas com os nossos filhos beneficia o desenvolvimento das crianças”, diz a psicóloga cognitiva Merideth Gattis, professora da Universidade de Cardiff, no País de Gales, que foi coautora do estudo de 2018. “E os pais também precisam de usar uma espécie de estratégia – nem demasiado, nem muito pouco, é preciso a quantidade certa.”

Portanto, como é que se faz? De acordo com Jennifer Kolari, terapeuta pediátrica e familiar que vive em Toronto, os pais passam muito tempo a conversar com os filhos, mas passam esse tempo a dizer-lhes o que devem fazer ou por que devem ou não fazer algo. Mas, para nutrir as ligações mais profundas, os pais precisam de estar completamente presentes, parando para ouvir e responder aos filhos com compaixão e empatia. E é aí que a magia acontece.

“Alguns químicos muito importantes começam a fluir quando temos essa ligação”, diz Jennifer, autora de Connected Parenting: How to Raise a Great Kid. Por exemplo, quando os nossos filhos sentem que são ouvidos, os seus cérebros ficam banhados em oxitocina, um dos químicos de recompensa que fazem as pessoas sentirem-se bem. Os níveis mais elevados de oxitocina podem acelerar a neuroplasticidade (que ajuda as crianças a aprender melhor), inibir o cortisol (a hormona do stress) e fortalecer o sistema imunitário.

“Este tipo de educação parental também ajuda as crianças a tornarem-se mais resilientes e organizadas emocionalmente, melhorando o seu comportamento e aptidões sociais”, diz Jennifer.

Conversas estimuladas pela natureza

Mas ter esta ligação forte não significa necessariamente que os nossos filhos vão começar de repente a falar sem parar, ou que os pais vão ter sempre paciência para ouvir. Tudo o que nos rodeia, desde o trabalho, escola e tecnologia, está a disputar a nossa atenção. Mas, felizmente, o antídoto para todas estas distrações está mesmo à porta de casa.

“Geralmente, se os pais quiserem ter uma conversa realmente conectada – ou uma conversa sobre algo importante – recomendo que levem os filhos para a natureza”, diz Jennifer. “Para além disso, a natureza também nos acalma enquanto adultos. Podemos estar mais presentes e isso ajuda-nos a responder aos nossos filhos em vez de nos limitarmos a reagir. E o que acontece depois é que acabamos por ter um tipo de conversa muito diferente.”

O que tem a natureza que faz as conversas fluir? No final dos anos 80 e início dos anos 90, os psicólogos Rachel e Stephen Kaplan introduziram a Teoria da Restauração de Atenção, que sugeria que a fadiga mental e a concentração podem ser melhoradas com o tempo passado na natureza. Esta investigação indicava que a natureza capta a nossa atenção sem esforço – um conceito ao qual se referem por “fascinação suave”.

“Ao contrário de estarmos sentados em frente à televisão, onde há muitos estímulos a vir na nossa direção, a natureza tem uma forma diferente de chamar a nossa atenção. Não é tão opressora”, diz Merideth Gattis. “O nosso estudo desenvolveu-se a partir dessa investigação. Partimos do pressuposto, portanto, de que as tarefas comunicativas por turnos, ouvirmo-nos uns aos outros e responder, melhoram num ambiente ao ar livre.”

De acordo com Lisa Nisbet, professora-adjunta de psicologia na Universidade Trent, que estuda a ligação das pessoas com a natureza, saúde e bem-estar, há uma boa quantidade de evidências que indica que as nossas emoções e comportamentos diferem quando estamos na natureza e em ambientes fechados.

Somos mais afáveis na natureza”, diz Lisa. “A natureza afeta o nosso bem-estar e a nossa felicidade. Portanto, se nos sentimos mais felizes quando estamos na natureza, temos mais probabilidades de nos relacionarmos melhor com os outros. Faz sentido que, devido a esses efeitos positivos, passar tempo na natureza também melhore a comunicação entre as pessoas.”

Para além disso, os avanços de comunicação que fazemos com os nossos filhos ao ar livre refletem-se muitas vezes na vida quotidiana. Dina Izenstark e os seus colegas descobriram que uma caminhada na natureza não só melhora o humor e a atenção entre mães e filhas durante um passeio, como todas as mulheres no estudo revelaram um sentimento maior de união após o fim da caminhada.

Ryan Van Bibber, o pai de Santa Fé, concorda. “Para nós, a conversa que tivemos sobre a escola naquele dia tornou-se num ponto de referência ao qual podemos sempre regressar. Podemos dizer: ‘Lembras-te do que conversámos no trilho das cavernas? Tens de te sentir confortável contigo próprio para fazeres amigos.’ E essa é uma lição à qual podemos regressar com ele continuamente.”

Começar a conversa

Não é preciso levar os seus filhos numa viagem de canoa na selva durante três semanas para eles começarem a falar. “Se não tiver acesso a um bosque ou floresta, sente-se no seu quintal com os pés descalços na relva”, diz Jennifer. “Há uma energia calmante que simplesmente se instala.” Seguem-se algumas ideias para estimular as conversas.

Lembras-te daquela vez? Recordar experiências pode ser uma ótima forma de começar uma conversa com o seu filho. Na verdade, o estudo de 2018 de Merideth Gattis tinha muitas referências a “lembras-te quando nós...” ou “lembras-te quando ____ aconteceu?” Estas memórias partilhadas ou “lembretes”, como Merideth lhes chama, são uma maneira excelente de pais e filhos se conectarem.

Partilhe algo sobre a sua vida pessoal. Fale sobre uma experiência pessoal ou interação que teve recentemente. Fale sobre como isso o afetou. O seu filho pode interrompê-lo, não faz mal. Se contar uma história sobre alguém que passou à sua frente na fila do supermercado, o seu filho pode responder com: “Hoje fiquei mesmo chateado quando a Elisabete passou à minha frente no recreio!”

Quando eu era criança... As crianças mais novas adoram ouvir histórias sobre a infância dos pais. Traçar paralelos entre o passado e o presente pode inspirar as crianças a falar sobre as suas próprias vidas. Com as crianças mais velhas, pense sobre alguns dos problemas escolares ou sociais que elas possam estar a enfrentar e partilhe uma história parecida da sua própria adolescência.

Incentive a curiosidade e admiração. Olha para aquela lagarta tão fixe. Porque é que a casca desta árvore tem esta cor? Uau! Viste aquele falcão enorme?” É impossível ignorar as maravilhas da natureza, mesmo que esteja apenas a caminhar por uma rua na cidade. Fazer perguntas enquanto demonstra o seu próprio fascínio pelo mundo natural pode estimular algumas conversas interessantes.

Abrace o silêncio. Os pais sentem muitas vezes a necessidade de fazer com que cada momento seja um momento de aprendizagem. Mas os pais não devem preencher todo o tempo disponível com uma conversa trivial quando estão na natureza com os filhos. (Eis um artigo sobre a natureza curativa do silêncio.) “Aprenda a ficar calado”, diz Jennifer. “Pode dar um passeio e nem sequer falar. Lembre-se de que ainda se está a conectar. Também existe magia e beleza no silêncio.”
 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

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