A desinformação sobre a pandemia está espalhada pelas redes sociais – e é perigosa para as crianças

O YouTube está a banir as contas de utilizadores negacionistas da vacina, mas a desinformação continua a conseguir invadir a vida dos adolescentes. Descubra como os pais podem ajudar as crianças a navegar por estes desafios.

Publicado 7/10/2021, 12:19
Criança com smartphone

   

Fotografia de FilippoBacci / Getty Images

Quando Stephanie Africk deu uma máscara à filha antes de sair de casa em Boston, ficou surpreendida ao ouvir o que a menina de 13 anos tinha para dizer: “As máscaras não funcionam e as crianças nem sequer apanham COVID.” Esta postura estava em desacordo com a ciência – e com tudo o que a sua família tinha discutido.

Onde é que surgiram estas informações? Nas redes sociais. “Ela obteve a informação – ou desinformação – de alguém no TikTok que ela respeita e em quem acredita.”

A desinformação relacionada com a pandemia levou recentemente o YouTube a banir as contas de vários dos negacionistas mais populares das vacinas, bem como outros conteúdos que promovem informações falsas sobre as vacinas. Mas os adolescentes não estão apenas expostos à desinformação sobre a COVID-19 nas redes sociais. Um relatório publicado em 2017 pela Common Sense Media – publicado pouco depois das eleições presidenciais nos EUA em 2016 – revelava que 31% das crianças que partilharam uma notícia online acabaram por descobrir que essas informações não estavam corretas.

A desinformação inclui falsidades óbvias, como por exemplo as notícias que dizem que as vacinas contêm microchips ou que os incêndios florestais em Oregon foram deflagrados por ativistas ambientais. Mas também pode ser apenas a interpretação errada dos factos, como aconteceu quando as redes sociais afirmaram que a cidade de Nova Iorque ia proibir a venda de cachorros-quentes. (A cidade tinha realmente revelado um plano para reduzir o desperdício de carne.)

A desinformação pode ter um efeito negativo nas pessoas, sobretudo nas crianças. Mas também pode ser perigosa. Uma sondagem feita em 2020 pelas universidades de Harvard, Northwestern, Rutgers e Northeastern descobriu que as pessoas com menos de 25 anos tinham mais propensão para acreditar na desinformação sobre a COVID-19 do que as pessoas mais velhas, independentemente da sua filiação política, que nos EUA é extremamente relevante. Alguns adolescentes recusam-se a ser vacinados com base em afirmações falsas que leram nas redes sociais.

Algumas plataformas tomaram medidas. Para além da sua proibição sobre comentários ou conteúdos negacionistas das vacinas, o YouTube anunciou em agosto que iria desativar a função “Autoplay” para os utilizadores menores de 17 anos, após críticas de que os utilizadores acabavam por vezes empurrados para vídeos sobre teorias da conspiração. Em 2019, o Instagram anunciou que iria começar a trabalhar com entidades externas de verificação de factos e assinalar as publicações incorretas como informação falsa.

Apesar das diretrizes de utilização do TikTok proibirem conteúdos falsos ou enganadores, uma reportagem publicada em agosto pela MediaMatters descobriu que o algoritmo desta aplicação de partilha de vídeos continua a promover os vídeos virais que contêm informações falsas sobre as vacinas.

Portanto, como é que os pais podem proteger os adolescentes das falsidades propagadas nas redes sociais e das perigosas informações incorretas? Ajudando-os a tornarem-se cidadãos digitais mais inteligentes.

Como se entranha a desinformação

As crianças e os adolescentes são considerados “nativos digitais” pela sua capacidade de adaptação a tecnologias como smartphones, aplicações e plataformas de redes sociais. Apesar de os adolescentes terem crescido com a internet, isso não significa que têm as capacidades cognitivas para interpretar informações mais complexas.

“Existe a noção errada de que os adolescentes, como são nativos digitais, são melhores a detetar informações genuínas online”, diz Katy Byron, diretora da MediaWise, uma organização apartidária que ensina conceitos de comunicação social e verificação de factos. “Mas as investigações têm mostrado repetidamente que os adolescentes têm profundas dificuldades na identificação de factos na internet.”

Embora a desinformação possa afetar pessoas de todas as idades, as crianças podem estar em desvantagem – o lobo frontal do cérebro humano só se desenvolve por completo quando atingimos os 25 anos de idade. “É esta parte do cérebro gere o controlo dos impulsos, o pensamento sobre o futuro e a ponderação”, diz Michael Rich, pediatra e diretor do Digital Wellness Lab. “É o controlador de tráfego aéreo do cérebro.” Michael acrescenta que os jovens por vezes não estão prontos para navegar pelas informações que aparecem nestas aplicações: “É como dar as chaves do carro a uma criança.”

Os adolescentes também podem estar a absorver informações falsas devido a algo que os cientistas chamam  efeito ilusório da verdade, que é a tendência para acreditarmos em informações falsas se as ouvirmos repetidamente. (Na verdade, investigadores da Universidade de Vanderbilt descobriram que crianças com apenas cinco anos usam a repetição como uma dica para a verdade.) Se, por exemplo, lermos uma vez que as girafas são marsupiais, provavelmente as crianças não vão acreditar. Mas e se ouvirem essa mentira no TikTok e depois lerem sobre isso no Facebook? Podem começar a supor que é verdade. (Não é verdade.)

Apesar de os adolescentes não terem mais propensão para o efeito ilusório da verdade do que os adultos, passam mais tempo nas aplicações de redes sociais. Uma sondagem feita com 60.000 famílias através da aplicação de controlo parental Qustodio descobriu que em março e abril de 2020, durante o confinamento nos EUA, as crianças passaram uma média de 97 minutos por dia no YouTube, 95 minutos no TikTok e 60 minutos no Instagram. Um estudo separado descobriu que, em 2020, os adultos passaram 82 minutos por dia nas redes sociais.

“Eu pensava que o que estava a ser partilhado nas redes sociais, sobretudo se tivesse muitas visualizações ou muitos ‘likes’, era verdade”, diz Angie Li, de 17 anos, que verifica factos na Teen Fact-Checking Network da MediaWise. “Ficava a pensar porque é que tantas pessoas acreditavam em algo que era falso.”

Como proteger os seus filhos da desinformação

Para muitos pais, proibir o acesso às plataformas de redes sociais como o YouTube e o TikTok não é a melhor solução. “Os meus filhos encontraram algumas das suas paixões e interesses através do YouTube e da internet em geral”, diz Stephanie Africk. “É um equilíbrio complicado.” Em vez de excluir as redes sociais, os pais podem ajudar a desenvolver as capacidades de literacia digital dos seus filhos.

Ouça o instinto. Incentive os seus filhos a perceberem o que sentem quando veem estes conteúdos nas redes sociais, diz Michael Robb, diretor do departamento de investigação da Common Sense Media. “Os algoritmos muitas vezes propagam coisas que provocam indignação, ou coisas que aumentam a intensidade das emoções, porque é isso que tem maior probabilidade de ser partilhado.”

Isto não significa que todos os conteúdos capazes de gerar indignação sejam desinformação, mas é uma boa dica para começar a investigar. Se a informação deixar os adolescentes inquietos ou ansiosos, é necessário cavar mais fundo para perceber se o conteúdo é realmente verdadeiro.

“É um sinal para fazer uma pausa antes de clicar no botão ‘gosto’ ou partilhar, e pensar que é melhor verificar se determinada informação é verdadeira e de confiança”, diz Katy Byron.

Considere a fonte. Peça às crianças para investigarem a fonte de uma informação. Onde é que essa informação surgiu pela primeira vez? Onde é partilhada agora? Quem beneficia se acreditarmos na história? Onde é que determinado conteúdo aparece fora das redes sociais? “Parecem muitas questões, mas ficam automatizadas na nossa cabeça depois de algum tempo”, diz Michael Robb. (As notícias podem ser confusas para as crianças. Descubra como torná-las peritas em verificação de factos.)

Esteja atento aos influenciadores. Investigadores da Universidade da Flórida descobriram que, quando uma celebridade apoia a mensagem de uma publicação no Instagram, é mais provável que os utilizadores acreditem que é verdade. Mas as celebridades e os influenciadores não são necessariamente especialistas.

“Durante as eleições nos EUA, tivemos de verificar os factos partilhados por Kanye West. Ele publicou uma imagem do sistema eleitoral do Kentucky e disse que estava à frente de Trump e Biden – e isso era completamente falso”, diz Isaac Harte, também membro da Teen Fact-Checking Network.

“Os pais podem pedir aos filhos para recolherem informações de diversas fontes, sobretudo de organizações de confiança”, diz Michael Robb.

“É bom pensar na literacia jornalística como algo que se desenvolve ao longo do tempo, algo que surge com a experiência e a aprendizagem. É pouco provável que uma conversa sobre este assunto seja o suficiente para convencer uma criança a desconfiar de imediato de um influenciador por quem sente uma ligação, mas os pais podem pelo menos tentar reforçar alguns dos hábitos que todos nós devemos usar quando nos deparamos com informações.”

Em relação aos pais que estão na situação de Stephanie Africk, o conselho dos especialistas é serem pacientes, ouvirem os filhos e manterem a conversa a fluir.

Verifique novamente. Antigamente (como há cinco anos, por exemplo), os especialistas aconselhavam a deteção de erros ortográficos ou gráficos estranhos, ou para verificar a página “sobre” ou a lista de referência das fontes. Estas estratégias não são más, mas hoje a desinformação pode vir de fontes que parecem genuínas e de confiança.

Em vez disso, Katy Byron recomenda às crianças que abram novos separadores no seu browser e procurem as mesmas informações noutro lugar, um processo chamado leitura lateral. Há outras fontes de confiança com informações semelhantes? O que dizem os outros meios de comunicação sobre a fonte em questão?

Mais importante ainda, diga às crianças para confiarem nos seus cérebros – e não na tecnologia. Michael Rich diz: “Não existe uma tecnologia ou software que proteja os nossos filhos como o software que está entre as suas orelhas.”
 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

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