Como fazer com que as crianças gostem de criaturas pouco adoráveis

Ensinar o respeito pelos insetos, peixes e outros animais pode ter impactos positivos no desenvolvimento das crianças – e no seu amor pelo planeta.

Publicado 13/10/2021, 11:17
Sapo com chifres do Pacífico

O que há para não gostar neste animal? Ensinar as crianças a preocuparem-se com criaturas como o sapo com chifres do Pacífico é tão importante quanto a sua capacitação para proteger animais “fofinhos” como os pandas-gigantes.

Fotografia de Pete Oxford / Minden Pictures

“Nós não esmagamos aranhas!”

Já perdi a conta às vezes que disse estas palavras ao meu filho de três anos, mas ele continua a usar o seu bastão de plástico para abater outro nobre aracnídeo. O meu filho nunca foi magoado por uma destas aranhas e, na verdade, elas nunca conseguiriam magoar um humano. Porém, há algo sobre todas aquelas pernas fininhas que invoca uma resposta no meu filho, uma resposta que os gatos, por exemplo, não suscitam.

Como é óbvio, há muitas crianças que esmagam invertebrados. E há muitos adultos que nem sequer pensam duas vezes antes de abaterem determinados tipos de animais.

“Há investigações que mostram que podemos ter evoluído para ter uma resposta de receio a alguns animais, como cobras e aranhas”, diz Gail Melson, psicóloga e professora emérita na Universidade Purdue. Mas Gail também diz que há outras evidências que sugerem que os animais que têm características mais infantis, como olhos grandes, narizes pequenos ou bochechas rechonchudas na idade adulta – algo que os cientistas chamam neotenia – podem encorajar uma resposta evolutiva positiva nos humanos. (Estudo pioneiro com bebés mostra que já nascemos com medo de aranhas e cobras.)

Por outras palavras, queremos cuidar dos animais que consideramos “fofinhos”. E os outros animais? Bem, as crianças podem começar a pensar que são dispensáveis.

Isto não só é mau para muitas das criaturas que por acaso partilham um espaço com os humanos, como também para os inúmeros animais em perigo de extinção. Porém, se os pais ajudarem as crianças a reformularem os seus preconceitos e a compreenderem que todas as criaturas são valiosas, podem criar filhos mais carinhosos e compassivos, fomentando ao mesmo tempo a próxima geração de cientistas e conservacionistas.

“Pode ser uma tartaruga a captar a atenção da criança. Pode ser um trilho de formigas no chão”, diz Gail. “Este interesse pode ser moldado de várias formas. Podemos até prestar atenção ao animal porque temos medo dele.”

Amar para além dos mamíferos

A maioria das crianças sabe que existem tigres, elefantes e baleias em perigo de extinção. E apesar de estes animais poderem variar de tamanho, cor e habitat, todos têm uma coisa em comum – são mamíferos. E os mamíferos tendem a receber quase toda a atenção.

“Os invertebrados englobam perto de 95% de toda a vida animal, mas a literatura de conservação só cobre 11% dos invertebrados”, diz Simon Watt, biólogo e fundador da “Sociedade de Preservação de Animais Feios”, uma organização com um nome irónico que defende os animais menos conhecidos e apreciados.

“Quando as pessoas pensam na palavra ‘animal’, muitas vezes pensam em pandas, gatos ou cães. As pessoas pensam sobre ‘mamíferos’ – animais que são calorosos, fofinhos e adoráveis”, diz Jessica Honaker, entomologista e umas das criadoras do grupo Bug Chicks, uma organização focada na educação sobre invertebrados e respetiva proteção. “Mas depois olham para algo como um besouro e veem um exoesqueleto liso, com uma cabeça que não reconhecem, e ficam um pouco intimidadas.”

Mas os insetos também precisam da nossa ajuda. De acordo com alguns relatórios, cerca de 40% das espécies de insetos de todo o planeta correm o risco de desaparecer. Da mesma forma, cerca de metade das espécies de anfíbios conhecidas pela ciência também podem estar em perigo de extinção, tal como os peixes de água doce, tubarões e raias.

“As lulas são animais. Os corais são animais. Existem tantos tipos diferentes de animais”, diz Kristie Reddick, entomologista e outra das criadoras do grupo Bug Chicks.  

“Mesmo que um animal pareça incrivelmente diferente de nós, isso não significa que não é importante”, diz Kristie. Na realidade, estas diferenças podem ser apenas uma oportunidade de aprendizagem.

Transformar o medo em fascínio

Uma das estratégias utilizadas pelo grupo Bug Chicks para ajudar as crianças a familiarizarem-se com criaturas menos adoráveis passa pelos exemplos de empatia.

Por exemplo, se encontrarmos uma teia de aranha em casa, devemos reservar um pouco de tempo para ajudarmos os nossos filhos a encontrarem semelhanças com o animal.

“Podemos dizer que a aranha vive neste local e que, se alguém vier à nossa casa e destruir a teia, a aranha morre. Portanto, vamos dar um nome a esta aranha e deixá-la viver aqui no seu lar”, diz Kristie.

Quando descobrimos um pouco de familiaridade, podemos aprender mais sobre o ciclo de vida do animal, as suas preferências alimentares ou requisitos de habitat. Isto ensina a criança a perceber que a aranha não é apenas uma criatura rastejante assustadora, talvez seja uma mãe ou um pai, uma construtora ou predadora não muito diferente dos adoráveis leões ou ursos-polares.

“Esta aprendizagem transforma o medo em fascínio”, diz Jessica. (Descubra como pode ajudar as crianças a superar o medo de tubarões e outros animais ‘assustadores’.)

Esta abordagem pode funcionar com praticamente qualquer criatura, não importa o quão desagradável possa parecer à primeira vista. Por exemplo, apesar de serem delicadas como uma flor, as aranhas são sobreviventes astutas que vagueiam pela Terra há pelo menos 400 milhões de anos.

“Todos os animais, independentemente da sua aparência, têm uma história evolutiva única para contar”, diz Simon Watt, autor de Ugly Animals: We Can’t All Be Pandas.

A estranheza de um animal também pode inspirar as crianças para aprender sobre a forma como estes animais se encaixam no mundo, as razões pelas quais são importantes e o que se perde se estas espécies desaparecerem.

“Por exemplo, o que é que um macaco-narigudo faz com o seu nariz idiota?” diz Simon em tom de brincadeira. “O que faz um peixe-bolha com a sua carne patética?”

Apesar de estar a brincar, estas perguntas não são retóricas. O nariz do macaco-narigudo macho ajuda-o a cortejar uma companheira, e a estrutura flácida do peixe-bolha permite que estas criaturas suportem a forte pressão que se sente em profundidades de cerca de 1.200 metros. Questões como estas também podem mostrar às crianças a importância que os animais “feios” têm no planeta. Por exemplo, as cascavéis – que poucas crianças ou adultos rotulariam como “fofinhas” – ajudam a reduzir o número de parasitas que provocam doenças na floresta ao devorarem ratos e outros pequenos mamíferos.

O grupo Bug Chicks diz que há uma forma prática de levar este interesse recém-descoberto ainda mais longe e recomenda os pais para levarem os filhos numa caça ao tesouro, para descobrir a maior variedade de criaturas possível num determinado período de tempo. Pais e filhos também simplesmente sentar-se e observar quantos tipos de polinizadores visitam uma flor – ou fechar os olhos e descobrir a quantidade de criaturas que conseguem identificar apenas com os ouvidos.

“Quanto mais observamos, mais vemos em todo o lado”, diz Jessica Honaker, referindo-se às ligações que se podem fazer entre todas as coisas vivas – “e mais nos tornamos parte do ecossistema que nos rodeia.”

“Chamamos a isto ‘colocar os nossos olhos pequenos’”, acrescenta Kristie.

Ensinar compaixão pelos animais e por nós próprios

Ensinar as crianças a preocuparem-se com os animais menos apreciados também pode ajudá-las no seu próprio desenvolvimento socioemocional. Por exemplo, Kristie diz que as crianças usam palavras como nojento, repugnante, assustador e estranho para descrever artrópodes. É nestes momentos que devemos tentar fazer com que as crianças mudem de palavras com conotações negativas para palavras que reflitam algo positivo. Afinal de contas, os animais estranhos também podem ser interessantes ou fixes.

“É nestes momentos que nos viramos para os nossos alunos e perguntamos se eles também usam palavras menos boas para se descreveram”, diz Jessica, salientando que isto cria um nível de ligação adicional entre as crianças e os animais menos apreciados, e ensina a terem compaixão por si próprias.

“Qualquer pessoa é capaz de se identificar com estes tipos de palavras, com este discurso negativo.”

O respeito pelas criaturas rastejantes também pode fomentar confiança nas crianças. “Quando uma criança tem coragem para se aproximar de uma tarântula ou de um bicho-pau gigante, criaturas que temia momentos antes, isso mostra-lhe que consegue superar os seus medos. Alguns alunos chegaram a dizer que se sentiam super-heróis”, diz Kristie.

Há outra coisa útil em aprender a olhar para os animais menos apreciados da mesma forma que olhamos para girafas ou jaguares, ou seja, não precisamos de fazer um safari para praticar a referida empatia, para aprender biologia ou estabelecer bases de conservação. Cada lagarto debaixo de uma pedra, cada pardal numa sebe ou cada aranha no sótão é uma oportunidade.

“Onde quer que estejamos no planeta, podemos sair à rua e ter uma experiência com vida selvagem”, diz Kristie.
 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

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