A Ómicron é sinónimo de mais ajustes para as crianças. Eis como os pais podem ajudar.

Já todos ouvimos dizer que as crianças têm sido resilientes durante a pandemia. Mas 2022 tem tudo que ver com adaptabilidade – uma aptidão que as crianças irão precisar mais tarde na vida.

Publicado 26/01/2022, 11:19
Criança a ser testada

Matteo Rodriguez faz um teste COVID-19 antes de entrar na Escola Primária de Heliotrope Avenue em Maywood, na Califórnia.

Fotografia por Al Seib / Los Angeles Times via Getty Images

Quando a variante Ómicron obrigou a filha de seis anos de Michelle Felder a usar máscaras KN95 em vez das máscaras divertidas às quais estava habituada, a menina começou a ficar cada vez mais ansiosa. “Ela sabia que tinha de usar uma máscara”, diz Michelle Felder, mãe de dois filhos que vive em Nova Iorque e é fundadora da Parenting Pathfinders. “Mas agora ela tem de usar um tipo específico de máscara – e estava preocupada com o que essa mudança significava. E também questionava porque é que as coisas tinham de ser diferentes.”

Quando a pandemia surgiu no início de 2020, muito se falou sobre a capacidade de resiliência das crianças; na sua capacidade de recuperação perante as adversidades. Mas este ano, à medida que a pandemia continua a afetar a vida das crianças de formas surpreendentes – sobretudo com o aparecimento da variante Ómicron, que é altamente contagiosa – o mais importante é a sua capacidade de adaptação. E os especialistas dizem que esta adaptabilidade pode beneficiar as crianças na idade adulta.

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“Quando somos adaptáveis, passamos menos tempo a ser reativos e mais tempo a ser recetivos e criativos na resolução de problemas”, diz Tina Payne Bryson, coautora de The Whole-Brain Child. “Geralmente ficamos mais felizes e temos tendência para ter mais noção da nossa presença no mundo, acreditando que conseguimos navegar pelo nosso ambiente.” Esta capacidade permite às crianças sentirem-se mais seguras, mais competentes e mais confiantes em relação ao ambiente que as rodeia.

Algumas crianças retraem-se instintivamente quando se deparam com novas ideias ou mudanças; outras são naturalmente recetivas a pessoas novas, lugares e experiências diferentes. “A boa notícia é a de que, quando as crianças têm oportunidades para praticar e navegar com sucesso por todas as mudanças, a capacidade de adaptação expande-se”, diz Tina Bryson.

Os especialistas dizem que a capacidade de adaptação aos desafios apresentados mais recentemente pela pandemia – um novo tipo de máscara, aulas canceladas devido a professores e funcionários infetados, processos de testagem mais frequentes – pode ajudar as crianças a prepararem-se para lidar com obstáculos ainda maiores no futuro. Eis como os pais podem ajudar a desenvolver estas aptidões nos seus filhos.

Resiliência versus adaptabilidade

Os termos “resiliência” e “adaptabilidade” são por vezes usados de forma intercambiável, mas não são a mesma coisa.

“A resiliência é quando enfrentamos desafios, momentos difíceis e emoções desconfortáveis, é quando conseguimos tolerar e lidar com o que se atravessa no nosso caminho”, diz Tina Bryson. A resiliência está mais ligada à forma como as respostas do nosso sistema nervoso toleram, confrontam e recuperam de uma determinada situação – quer sejam emoções ou sofrimento fisiológico.

A adaptabilidade, por outro lado, trata-se da capacidade de mudar, ajustar e responder à imprevisibilidade, às mudanças, às surpresas e aos obstáculos. “Não é apenas a adversidade ou os desafios que exigem adaptabilidade”, diz Tina Bryson. “Podem até ser coisas boas, estimulantes e positivas.” Portanto, quando as crianças são adaptáveis, estão a ser flexíveis em termos cognitivos, emocionais e comportamentais.

A adaptabilidade é uma característica inata, mas as crianças podem ficar mais adaptáveis à medida que o seu córtex pré-frontal amadurece. Esta é a parte do cérebro que controla os impulsos, gere as reações emocionais, prevê consequências, planeia o futuro e antecipa eventos no ambiente.

“É algo que conseguimos de facto melhorar em qualquer idade”, diz Tina Bryson. “Para muitas crianças, é um desafio de desenvolvimento pelo qual passam naturalmente. A adaptabilidade é uma aptidão bastante sofisticada, ou seja, à medida que o cérebro vai ficando mais sofisticado, esta aptidão desenvolve-se.”

E é uma aptidão muito importante a desenvolver. De acordo com um estudo publicado no Journal of Educational Psychology – feito com 969 estudantes do ensino secundário – os investigadores descobriram que as crianças mais adaptáveis participam mais nas aulas, gostam da escola e querem obter melhores resultados académicos. Estes alunos tendem a ter mais autoestima, satisfação com a vida e noção de significado e propósito.

Como ajudar as crianças a tornarem-se mais adaptáveis

A capacidade de adaptação varia de criança para criança. Para começar, descubra qual é a adaptabilidade do seu filho. Ele ou ela gostam de surpresas? Ficam stressados quando são obrigados a mudar de rotina? Ficam chateados quando os pais pedem para mudarem de atividades?

“Quando uma criança hesita em ir para uma escola nova ou não quer experimentar uma comida diferente, isso deve-se à sua personalidade; não está relacionado com o medo”, diz Debra MacDonald, educadora parental e diretora do Center for Parenting Education. “A criança pode simplesmente não se sentir confortável em aceitar a mudança de imediato. As crianças precisam de ver as coisas primeiro.”

Por exemplo, Arlene Bordinhao levou o seu filho Xavier, que está em idade pré-escolar, a fazer uma visita à sua nova escola. “Xavier não gosta de surpresas, ou seja, queríamos ter a certeza de que ajudávamos a controlar as coisas que conseguimos realmente controlar”, diz Arlene. “Quando ele se vai deitar e quando acorda, dizemos-lhe sempre o que vai acontecer no dia a seguir.”

As crianças menos adaptáveis tendem a ser mais rígidas, mais resistentes e a estar menos confortáveis perto de rostos desconhecidos. Por outro lado, estas crianças também prosperam com as suas rotinas, algo que, segundo Debra MacDonald, pode ser usado para ajudar as crianças a sentirem-se confortáveis em novos ambientes. Por exemplo, os pais podem assinalar as datas dos testes COVID num calendário para os filhos saberem o que esperar.

As crianças aprendem melhor quando fazem as coisas por elas próprias e estão informadas. “Enquanto pais, podemos narrar o nosso próprio processo para que os nossos filhos consigam interiorizar a forma como somos flexíveis e ecoar o mesmo tipo de diálogo interior”, diz Tina Bryson. Por exemplo, podemos dizer que não queríamos abdicar das nossas máscaras de tecido, mas as máscaras de grau médico parecem muito fortes. E talvez seja divertido tentarem encontrar máscaras novas em família.

Incutir adaptabilidade através das brincadeiras

As crianças também podem aprender muito sobre adaptabilidade com os colegas, e brincar é uma boa forma de treinar. “Quando as crianças brincam com a família ou com os amigos, as coisas nem sempre são previsíveis; por vezes há alguém que quer fazer as coisas de forma diferente”, diz Tina Bryson. “E como se trata de uma atividade divertida, a criança está disposta a ir para além dos seus próprios desejos e preferências para a brincadeira continuar.”

As brincadeiras ou os jogos nos quais o planeamento é importante – como damas ou xadrez – podem ajudar a criança a mudar de atitude quando se depara com um obstáculo. “Em última análise, a adaptabilidade é a capacidade de imaginar cenários alternativos”, diz Madeline Levine, psicóloga e autora de Ready or Not.

Outro dos jogos sugerido é O Rei Manda, que desenvolve o autocontrolo e recompensa as aptidões de escuta. “As crianças precisam de mudar de atitude muito depressa”, diz Madeline. “Há muitas maneiras de serem boas no jogo se seguirem as regras e conseguirem mudar rapidamente de comportamento.”

Os pais também podem pedir aos filhos para inventarem as inúmeras utilizações possíveis para um determinado objeto, algo que ajuda a expandir o pensamento de uma forma lúdica.

Quando a filha de Michelle Felder tem dificuldades de adaptação por causa das preocupações com a COVID, ambas falam sobre as coisas pelas quais a criança está grata. Foi algo que a filha de Michelle inventou depois de meses a apontar e a desenhar as memórias divertidas que a sua família fez durante a pandemia.

“Quando ela começou a sentir que estava a ficar assoberbada com esta mudança inesperada, perguntei-lhe se podia fazer alguma coisa para a ajudar a navegar por estas emoções”, diz Michelle. “E ela disse que já sabia o que fazer. Íamos falar sobre as coisas pelas quais estamos gratas.”

De acordo com Madeline Levine, a chave para a adaptabilidade é não nos apegarmos demasiado à nossa forma particular de ver o mundo ou uma determinada situação.

“Ensine ao seu filho que as oscilações – e mudanças de direção – podem ser divertidas e interessantes”, diz Madeline. “Dê ao seu filho uma escolha e, de seguida, mostre-lhe os prós e os contras. E encoraje o entusiasmo e curiosidade pelas diferentes formas de ver as coisas.”
 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

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