A saúde cerebral do seu filho pode começar no bem-estar intestinal

Os cientistas estão a analisar de perto a ligação entre a dieta e o microbioma intestinal de uma criança – e como isso pode influenciar a função cerebral.

Por Michelle Z. Donahue
Publicado 17/01/2022, 12:48
Papas de aveia

   

Fotografia por Vladislav Nosick, Alamy

Todos sabemos que as vitaminas, os minerais e as fibras presentes nas frutas, vegetais e cereais são importantes para o crescimento do corpo e cérebro das crianças. Mas os cientistas estão a analisar de perto a forma como as dietas dos mais novos influenciam a sua saúde intestinal – e como isso pode afetar tudo, desde o humor até à saúde mental e desenvolvimento cognitivo.

Tal como acontece com os intestinos de um adulto, o trato digestivo de uma criança também é naturalmente povoado por dezenas de tipos de bactérias que são benéficas, também conhecidas por microbioma intestinal. Estas bactérias servem uma variedade de funções, incluindo a regulação da função imunitária e do metabolismo.

A dieta pode desempenhar um papel importante na saúde do microbioma intestinal de uma pessoa. Uma das funções das bactérias intestinais é transformar os alimentos que ingerimos em químicos e compostos – incluindo neurotransmissores de bem-estar como a serotonina e a dopamina – que passam pela corrente sanguínea para chegar diretamente ao cérebro. O cérebro também envia sinais ao sistema digestivo que influenciam o seu ambiente e função, algo que, por sua vez, pode afetar a atividade das bactérias residentes no intestino. Este canal de comunicação bidirecional chama-se eixo intestino-cérebro.

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O consumo excessivo de determinados tipos de alimentos pode provocar uma explosão de bactérias nocivas que desempenham um papel na inflamação, depressão, obesidade e diabetes (um processo chamado disbiose). O açúcar, por exemplo, tem sido implicado em perturbações do bioma intestinal que afetam a memória em ratos de laboratório.

Mas também acontece o oposto. As fibras, por exemplo, parecem ser extremamente importantes para as estirpes de bactérias consideradas saudáveis e benéficas para a saúde humana. De acordo com Dorottya Nagy-Szakal, diretora médica da empresa Biotia, os investigadores estão focados nas ligações entre as bactérias intestinais e na forma como estas podem estar envolvidas na fadiga, depressão e até no comportamento cognitivo.

“Com uma dieta saudável, conseguimos reduzir os desequilíbrios da microbiota”, diz Dorottya Nagy-Szakal, que estudou o eixo intestino-cérebro no seu trabalho de pós-doutoramento na Universidade de Colúmbia.

Apesar de a saúde intestinal ser menos estudada nas crianças, cada vez há mais estudos que revelam ligações entre a saúde intestinal na infância e a saúde na vida adulta. Eis o que os cientistas descobriram até agora – e algumas ideias para os pais poderem ajudar a cuidar da saúde intestinal dos seus filhos.

A ciência por trás da saúde intestinal

Quando se trata da composição do microbioma intestinal, as crianças não são meros adultos em ponto pequeno. Por exemplo, os microbiomas dos bebés são menos diversificados em geral do que os das crianças mais velhas; a transição para alimentos sólidos altera o microbioma intestinal dos digestores mais orientados para o leite, resultando numa coleção mais diversificada que pode usar a energia de alimentos sólidos. Mas o período de tempo que uma criança passa em cada estágio de desenvolvimento intestinal – duração do período de amamentação, por exemplo – pode influenciar o desenvolvimento do sistema imunitário dos seus corpos e até mesmo o desenvolvimento das suas capacidades cognitivas, tendo por base, em parte, a composição e atividade das suas bactérias intestinais.

Alguns dos estudos preliminares feitos em humanos parecem apontar para “janelas de oportunidade” no desenvolvimento da saúde intestinal – por outras palavras, há períodos durante a infância em que a exposição a determinadas comunidades de bactérias parece ser particularmente importante para o desenvolvimento de um sistema imunitário saudável e do cérebro.

Sharon Donovan, que estuda a ligação entre o microbioma intestinal e a dieta em crianças na Universidade de Illinois, diz que estabelecer um microbioma saudável no início de vida é fundamental, mas alerta que “ainda há muitas coisas que não sabemos”.

Embora as investigações apontem para uma ligação entre benefícios cognitivos e um microbioma “saudável” nas crianças, não se sabe exatamente o que é uma mistura saudável de bactérias. Este processo também pode diferir bastante de pessoa para pessoa. A maioria dos estudos atuais sobre a ligação entre um intestino saudável e um cérebro com bom desempenho é apenas feita por associação: determinados grupos de bactérias tendem a aparecer repetidamente nos estudos que avaliam a cognição e função mental geral.

“O microbioma pode estar a promover o desenvolvimento cognitivo, ou as crianças que têm maior potencial cognitivo podem estar a interagir com o ambiente de uma maneira que muda a forma como o seu microbioma se desenvolve”, diz Rebecca Knickmeyer, Professora Associada de pediatria e desenvolvimento humano da Universidade do Michigan. “As relações estão lá – mas talvez exista algo mais que ainda não analisámos e que pode explicar estas relações.”

Saúde intestinal e cerebral

Ainda assim, Sharon Donovan salienta que as evidências mostram claramente que a microbiota intestinal afeta a forma como utilizamos os nutrientes – bem como o funcionamento do nosso cérebro. “Se quisermos obter bactérias benéficas, essas bactérias precisam de algo para viver – ou seja, uma dieta saudável.”

Os alimentos saudáveis para o intestino nem sempre figuram no menu obrigatório de uma criança. Sharon Donovan aconselha os pais a ajudarem a modelar hábitos alimentares saudáveis e a explorar novos alimentos juntamente com os filhos. Seguem-se algumas ideias para começar.

Saúde intestinal: Fibras (ou vegetais!)

É importante porque: Os vegetais estão no topo da lista de alimentos saudáveis para o intestino. Qual é o ingrediente secreto? Fibra, diz a imunologista Megan Meyer, diretora de comunicações científicas do Conselho Internacional de Informação Alimentar. As fibras alimentares ajudam a microbiota intestinal a produzir ácidos gordos de cadeia curta que desempenham um papel importante na comunicação química “cruzada” entre o cérebro e o intestino. Além disso, as fibras suportam uma comunidade diversificada de bactérias “boas” que podem expulsar as bactérias “más” associadas a inflamações, infeções e outras doenças.

Ajudar as crianças a comer: Algo tão simples como combinar vegetais com um molho pode fazer com que uma criança prove um vegetal que geralmente não gosta. Megan Meyer também sugere a adição de vegetais a algo que as crianças já gostam, como feijão verde ou ervilhas ao prato favorito do seu filho. Contudo, se as crianças não quiserem mesmo comer vegetais, há boas fontes de fibra em frutas como amoras, peras e maçãs (com a casca!), e nos cereais integrais como aveia. Os frutos secos, como pistácios e amêndoas, também são boas fontes de fibra.

Saúde intestinal: Alimentos fermentados

É importante porque: Os alimentos fermentados são uma fonte rica de micróbios benéficos que podem ajudar na saúde intestinal. Nos adultos, o consumo regular destes alimentos ricos em bactérias de ácido lático tem sido associado a melhorias na digestão, no controlo do colesterol e na redução de infeções. Embora a maioria dos estudos sobre bactérias intestinais e cérebro tenha sido realizada em roedores, há pelo menos um estudo feito em humanos que mostra que o consumo de produtos lácteos fermentados afeta as regiões do cérebro envolvidas no processamento de emoções e sensações.

Ajudar as crianças a comer: Alguns alimentos fermentados podem não agradar às crianças, mas existem muitas opções. Os iogurtes com baixo teor de açúcar são os mais bem recebidos, e o pão injera etíope, feito de teff fermentado, é delicioso. Os pais também podem tentar usar tofu, miso japonês salgado e tempeh como base para muitas receitas.

Saúde intestinal: Alimentos ricos em prebióticos

É importante porque: Embora ainda não saiba se os suplementos probióticos são realmente benéficos para as crianças, Sharon Donovan diz que não são definitivamente prejudiciais. Porém, se as bactérias de determinados alimentos ainda não estiverem no intestino, as estirpes probióticas dos produtos comerciais podem não fazer efeito. “É melhor consumir prebióticos – compostos nos alimentos que comemos e que fornecem a energia adequada para os probióticos fazerem o seu trabalho.

Megan Meyer diz que a inulina é um prebiótico comum adicionado a alguns dos alimentos pré-preparados, mas os melhores alimentos integrais ricos em prebióticos incluem alcachofra, espargo, banana, alho, cebola, aveia, cevada, trigo e legumes.

Ajudar as crianças a comer: Tenha sempre disponível uma diversidade de frutas, vegetais e alimentos integrais, para incentivar a degustação e exploração por parte das crianças, sugere Sharon Donovan. Dorottya Nagy-Szakal sublinha que, quanto menos processado for um alimento, melhor.
 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

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