Diversão ao ar livre + mindfulness = benefícios mentais para as crianças

Como os pais podem incorporar atividades de ecoterapia na vida quotidiana das crianças – e melhorar o seu bem-estar.

Publicado 22/02/2022, 11:24
Dançar - ecoterapia

   

Fotografia por Cavan Images / Getty Images

A filha de cinco anos de Allison Kenien sentiu dificuldades de concentração durante o ensino à distância. Quando as aulas online começaram a deixar a criança em lágrimas, Allison Kenien, mãe de dois filhos que vive em Nova Iorque, sabia que precisava de tentar algo diferente.

Assim, mãe e filha começaram a explorar trilhos para caminhadas, prestando atenção a coisas como o cheiro de uma flor ou o som de um pássaro. No final da caminhada, ambas desenhavam as suas descobertas favoritas num diário sobre a natureza. “Algumas semanas depois, vi uma alteração dramática na capacidade de concentração e atitude dela”, diz Allison Kenien.

A filha de Allison estava a praticar um conceito chamado “ecoterapia”, uma forma consciente de interagir com a natureza para melhorar o bem-estar. A ideia é estimular a saúde mental combinando os benefícios de estar ao ar livre – desde melhorar o QI das crianças até ajudá-las a aliviar o stress – com atividades que promovam o chamado mindfulness, ou atenção plena.

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“Com a ecoterapia ficamos sintonizados conscientemente com a forma como nos sentimos e o efeito que isso está a ter sobre nós”, diz Craig Chalquist, psicólogo e professor no Instituto de Estudos Integrais da Califórnia. “Há muitas pessoas que fazem jardinagem, mas não há muitas pessoas que o façam sem luvas, ou que parem para pensar sobre a forma como isso está a afetar o seu estado de espírito.”

A ecoterapia – também conhecida por terapia da natureza – é uma espécie de termo abrangente para as diversas maneiras pelas quais terapeutas e conselheiros podem incorporar a natureza no plano de tratamento dos seus clientes. Estes tratamentos podem variar entre terapia assistida por animais a terapia selvagem, arte-terapia e até terapia hortícola. E embora a ecoterapia seja frequentemente praticada com um conselheiro, os pais também podem experimentar alguns destes conceitos e técnicas com os seus próprios filhos para ajudar a melhorar coisas como a ansiedade e a capacidade de concentração.

“A ecoterapia é fácil para os pais usarem com os filhos porque engloba atividades que as crianças já gostam naturalmente, como artes criativas ou movimento, e ajuda as crianças a sentirem-se mais à vontade conforme se ligam ao ambiente natural”, diz Sandi Schwartz, autora de Finding Ecohappiness.

Melhor ainda, os especialistas dizem que, quando os pais combinam a personalidade dos seus filhos com uma atividade de ecoterapia, os benefícios podem ser ainda maiores. Descubra as razões pelas quais a ecoterapia funciona – e como a pode incorporar em algumas das atividades dos seus filhos.

Os benefícios das atividades de ecoterapia

Há muitas investigações que mostram que a atenção plena pode ajudar na capacidade de concentração e aliviar o stress, e também há muitos estudos que revelam os diversos benefícios do contacto com a natureza na infância – desde resiliência, criatividade e empatia. Portanto, faz sentido que, ao combinarmos atividades ao ar livre com atenção plena, consigamos estimular ainda mais a saúde mental.

“As orientações da ecoterapia podem ajudar-nos a acalmar as nossas mentes e sentimentos, permitindo-nos entrar num mundo completamente diferente, onde os animais, as plantas, a água e o céu se movem num ritmo próprio”, diz Linda Buzzell-Saltzman, psicoterapeuta e professora no Instituto Pacifica Graduate.

Por exemplo, as atividades de atenção plena ao ar livre proporcionam um ambiente calmo que envolve os sentidos de uma criança, algo que, de acordo com as investigações, pode ajudar a criança a concentrar-se, a sentir-se mais confiante, menos ansiosa e mais empática. A ideia, diz a arte-terapeuta Jillynn Garcia, é a de que uma caminhada lenta e de atenção plena pela floresta ajuda as crianças a terem noção do que as rodeia – e também as ajuda a concentrar após a caminhada.

A ecoterapia também pode ajudar a fomentar confiança, de acordo com o psicólogo Thomas Doherty, que usa a ecoterapia na clínica Sustainable Self em Portland, no estado de Oregon. “Aprender a fazer algo ao ar livre pode ser transferido para outras configurações”, diz Thomas. Mas conquistar conscientemente uma aptidão ao ar livre – como por exemplo subir uma montanha enquanto prestamos atenção à sensação do chão debaixo dos nossos pés conforme subimos – cria confiança em torno do próprio bem-estar de uma pessoa.

“Isto desperta uma sensação muito mais profunda de ligação, que é mais poderosa do que apenas algum tipo de conquista na natureza”, diz Linda Buzzell-Salzman.

A empatia é outra característica que pode ser estimulada nas crianças através da ecoterapia. Linda Buzzell-Saltzman diz que muitas vezes pede às crianças para se sentarem ao ar livre e observarem uma pequena criatura, como uma minhoca ou uma abelha. “O foco naquela criatura – pensar sobre como é ser aquele animal ou inseto – ajuda a criar empatia”, diz Linda.

Atividades de ecoterapia com crianças

As atividades de ecoterapia variam bastante, e Thomas Doherty diz que as crianças não respondem a todas. É por esta razão que é importante combinar a personalidade do seu filho com uma determinada atividade. “Queremos evitar uma abordagem que sirva para tudo”, diz Thomas.

O truque, diz a psicoterapeuta Caroline Hickman, é nutrir a curiosidade de uma criança independentemente da forma como esta esteja a interagir com a natureza – e isto inclui eventualmente tentar atividades diferentes. “Creio que é importante as crianças fazerem um pouco de tudo para poderem desenvolver todos os traços da sua personalidade”, diz Caroline.

Eis algumas ideias para começar a combinar personalidades com técnicas de ecoterapia.

Se o seu filho for criativo... A arte-terapia incorpora elementos ao ar livre nas atividades artísticas de uma criança, e os pais podem encontrar benefícios semelhantes para os seus filhos, incentivando a atenção plena quando estão a fazer projetos de arte ao ar livre.

Peça às crianças para sentirem de que forma o ambiente as afeta. Por exemplo, em vez de pintarem ou desenharem debaixo de uma árvore, peça-lhes para usarem os cinco sentidos para criar arte. Onde é que podem encontrar uma determinada cor na natureza? Sentem algum aroma? E os sons? Como é que podem incorporar os sons na arte?

Se o seu filho for analítico... A terapia hortícola usa a jardinagem para melhorar o bem-estar, e os pais podem experimentar elementos desta prática com os filhos. Por exemplo, plantar uma semente e vê-la a crescer ajuda as crianças a desenvolver a consciência sobre o que é mudança. “A jardinagem melhora as capacidades de concentração e dá às crianças uma sensação de realização”, diz Craig Chalquist.

Ao plantar sementes com o seu filho, pergunte coisas como qual é a sensação do solo ou o cheiro. À medida que as plantas brotam, peça-lhe para prestar atenção à forma como a planta muda, algo que pode ajudar as crianças a compreender o que é adaptabilidade enquanto observam a planta a crescer em direção à luz para captar nutrientes.

Se o seu filho for atlético... A terapia de exercícios ecológicos – basicamente fazer exercício ao ar livre enquanto prestamos atenção ao que nos rodeia – pode ajudar a desenvolver capacidades de concentração. Os pais podem pedir aos filhos para usarem os cinco sentidos enquanto praticam a sua atividade desportiva favorita.

Peça ao seu atleta para evitar o uso de auscultadores e, em vez disso, observar quantos pássaros consegue ouvir. Tente perceber se o seu pequeno tenista consegue descrever o barulho de uma bola a bater na raquete. Ou talvez o seu nadador possa prestar atenção às diferenças na sensação da água quando nada de costas ou de bruços.

Se o seu filho for aventureiro... A terapia de aventura envolve as pessoas em atividades (mais ou menos radicais) ao ar livre, desde escalada a esqui e bicicleta de montanha. Para minimizar o risco, estas atividades promovem aptidões de resolução de problemas (por exemplo, os participantes geralmente têm de tentar descobrir o percurso a seguir), bem como a capacidade de concentração e paciência. Quando as crianças acrescentam a atenção plena a estes elementos, isso ajuda-as a abrandar e a apreciar o ambiente que as rodeia.

Desafie os seus pequenos aventureiros a prestarem atenção à frequência cardíaca – será que aumentou? Qual foi a sensação? Pergunte-lhes como se sentiram quando terminaram a atividade ou sobre o que repararam na natureza durante a atividade.

Se o seu filho for sensível... A terapia assistida por animais, quando são usados animais durante as sessões de aconselhamento, ajuda as crianças a comunicar melhor ou a sentirem-se mais calmas. Os pais podem usar algumas destas técnicas para promover benefícios semelhantes nos filhos.

Peça às crianças para se sentarem ao ar livre, em silêncio, e para prestarem atenção aos animais que conseguem ver. Porque é que aquele animal se está a comportar de uma determinada maneira? O que será que aquele animal está a pensar? O objetivo é o foco nas cores, nos sons e nos movimentos do animal.
 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

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