Numa relação a três com a Depressão

Como aprendemos a viver com a Depressão do meu marido e a tratá-la.
Por Catarina Mira-Rose
Publicado 30/06/2022, 11:54

“Éramos três neste matrimónio”, disse a Princesa Diana em 1995 referindo-se à relação extramatrimonial do seu marido, o Príncipe Carlos. A mesma frase poderia ter sido dita por mim, referindo-me neste caso à Depressão. Uma doença com letra maiúscula e nome próprio, como se de uma pessoa se tratasse. Apesar da ausência de hematomas ou qualquer ferimento visível ao nível da epiderme, a sua presença foi sempre incontestável. No entanto, foi o diagnóstico que lhe deu forma. Passou de invisível a doença palpável. De fantasma a cão fiel seguindo o seu dono. Um distúrbio que, à semelhança de um animal de estimação, tem uma esperança de vida longa. Contudo, é, acreditem, domável.

Esta patologia não tem princípio nem fim. A razão pela qual alguém fica doente tem a mania de ser discreta. Eu não sei bem identificar o momento em que reconheci que algo pudesse estar errado com o meu parceiro. A tristeza mascara-se de muita coisa, especialmente quando crescemos a ouvir que a vulnerabilidade é território interdito. Porém, quando a mesma existe em abundância, começa a encontrar forma de escorrer pelas gretas do sorriso. Vem disfarçada de insónias, indecisão, nervosismo e explosões de fúria mesmo quando o assunto em causa é de importância menor. Não há nada mais deprimente do que guardar tanta tristeza sem resposta.

Esquerda: Superior:

Martin com Ripley, o cão da família, e um grande apoio durante no processo que têm vindo a ser combater o quadro da Depressão.

Direita: Inferior:

Martin e Catarina em Shoreditch, Londres, sorridentes, no entanto passando por um dos períodos mais desafiadores da Depressão. 

fotografias de Catarina Mira-Rose

Durante muitos anos ele esforçou-se para suprimir a anomalia que foi amadurecendo dentro de si. Foram tiradas férias na expectativa de amansar o bicho mas, no geral, o estado de fobia silenciosa era permanente. Por dentro, uma autoestrada de pensamentos em constante multiplicação de catástrofes. Por fora, um ser impenetrável. Uma realidade a que se foi aclimatando, desligando-se do mundo e calando-se a meio de conversas. Vestiu a sua dor insolúvel como se de um uniforme diário se tratasse e seguiu numa marcha sonâmbula, tentando (sobre)viver um dia de cada vez, repulsando qualquer sugestão de acompanhamento médico apenas por se crer autosuficiente e por não desejar incomodar ninguém. A depressão do Martin nunca o amarrou a uma cama. Por isso, para que encarasse a sua condição como doença, foi necessário que o corpo se desengaiolasse da mente fazendo-o perder controlo sobre a mesma.

Estava numa reunião de trabalho quando a máscara que usava se esfarelou pela primeira vez. Até então, nunca tinha tirado um dia de baixa médica, ou falhado com qualquer compromisso profissional mas nesse momento sentiu-se a desmoronar. Sumiu-se-lhe a voz e foi apenas capaz de repetir o nome de uma colega ininterruptamente como que a pedir que tomasse as rédeas da reunião. Que lhe desse a mão durante o naufrágio que foi o seu primeiro ataque de pânico. Nesse instante, inundado por lágrimas com anos de atraso e, quiçá, algum alívio, reconheceu a urgência de procurar tratamento, de agir para não se afogar.

Esquerda: Superior:

Catarina, Martin e Ripley em Hollow Ponds, um parque onde passaram horas a caminhar durante a pandemia e, coincidentemente, o Martin ficou de baixa médica devido à sua saúde mental.

Direita: Inferior:

Catarina e Martin numa festa de aniversário em casa de amigos.

fotografias de Catarina Mira-Rose

Eu tenho muita facilidade em descrever a narrativa do Martin mas alguma dificuldade em descamar a minha. Estar numa relação com alguém deprimido requer algum automatismo. A dormência das necessidades do cuidador é uma consequência comum. Quando se ama alguém, hospedamos as suas dores porque, no fundo, aquilo que queremos é o seu bem. Naquele que é o mapa do tempo, perdemos conta de quando é que parámos de nos colocar em primeiro lugar. Este é o mais importante conselho que dou a quem assiste da primeira fila ao definhar da felicidade do seu parceiro(a): procurem igualmente ajuda e leiam fontes confiáveis de modo a entender o seu transtorno.

Wolf, Martin e Catarina em Londres.

Fotografia por Catarina Mira-Rose

A depressão não é contagiosa, mas deixa mossas até nas armaduras mais rijas. O mais difícil é distanciarmo-nos da doença do nosso parceiro(a) de modo a não levar a peito a volubilidade das suas emoções. Há dias em que nos fazem rir às gargalhadas e outros em que são, meramente, estranhos. Ocos fragmentos das pessoas por quem nos apaixonámos. Não levar a peito essas oscilações é um exercício que eu ainda não domino, confesso. Se eles se sentem sozinhos dentro da sua pele, dentro da sua cabeça, o parceiro(a) sente-se sozinho na sua companhia.

Neste último estágio da dor humana que é a depressão, às vezes parece que amamos sem resultado. Eu não tenho um manual de instruções para partilhar com o leitor. O processo sério, contínuo e complexo que são as doenças mentais são autênticos campos de batalha. Para quem assiste e para quem está na linha da frente. Ainda que aparentemente ineficazes, os nossos gestos de amor são o antídoto, o único alquimista que muda tudo. Procurem amar-se mesmo pelo meio dos arranhões e convençam os vossos parceiros(as) a tratarem-se (os ultimatos tendem a ser eficazes!). Não se deixem abalar pelo progresso lento. Mostrem-lhes que falar pode curar dores emocionais. Um dia eles deixarão de ser inquilinos da depressão e possuirão as ferramentas para lidar com as frustrações, com os medos, as tragédias, as incertezas, as inseguranças e todos os dissabores que a existência nos traz. Nunca duvidem de que o vosso amor é uma escada nesta subida difícil.

Catarina Mira-Rose é atriz, escritora e diretora criativa. Contribuidora frequente de publicações de moda e criativa para várias marcas globais. 

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