Fotografia

Imagens Surreais da Arquitetura Pós-Soviética

Este fotógrafo andou por lugares longínquos da antiga União Soviética para documentar uma nova era no design arquitetónico. Quinta-feira, 24 Maio

Por Christine Blau
Fotografias Por Frank Herfort

Na década de 1950, o líder do estado soviético Joseph Stalin transformou a paisagem urbana de Moscovo ao mandar erguer um conjunto de sete arranha-céus, que preencheram o horizonte como bolos de casamento da era socialista. Os pináculos alongam-se acima das fachadas ornamentadas, que lembram as catedrais góticas e as igrejas seculares da Rússia. Embora o país vivesse ainda no rescaldo de um conflito bélico, os seus líderes deram prioridade aos assombrosos custos de construção das sete torres, que acolhiam uma universidade, um ministério, um hotel, entre outros, para robustecer a força crescente do novo poder central. A cidade transformou-se numa tela que expressava as novas aspirações das nações.

Após o colapso da União Soviética em 1991 e o fim da influência de Moscovo sobre os estados-satélite, os países que formavam o antigo bloco oriental tiveram de trilhar os seus próprios caminhos. Em 2008, o fotógrafo alemão Frank Herfort partiu de Moscovo num Volga, um automóvel da era soviética, e percorreu toda a região até Astana e, posteriormente, até à Sibéria, para documentar as contradições da arquitetura que emergiu nas duas décadas do período pós-soviético e que serviram de base à série documental Imperial Pomp.

“Se visitar uma qualquer cidade da Rússia, reparará que elas parecem todas iguais. Desde Moscovo a São Petersburgo a Novgorod, todas elas apresentam as mesmas linhas arquitetónicas no domínio da habitação”, explica Herfort relativamente aos blocos de apartamentos projetados para os trabalhadores numa sociedade sem classes.  Estas fachadas insípidas refletem o ideal comunista de cidadão, um dente da roda que alimenta a máquina do regime.  As Sete Irmãs, as torres erguidas por Stalin, foram a única exceção à regra, até ao aparecimento de outras tantas torres – que figuram entre os arranha-céus mais altos da Europa –, na última década, refletindo o espírito de uma nova era.

Nem todos os edifícios do período pós-soviético refletem o corte com o passado. Concluída em 2006, a Torre do Triunfo, o edifício de habitação mais alto da cidade, é apelidada de a oitava irmã, pelo estilo compacto da arquitetura estalinista e pelas colunas clássicas que se aproximam dos edifícios construídos há mais de meio século. A força do passado é objeto de admiração, mas a cidade ambiciona superar a grandeza do passado. “Eles procuram sempre superar-se a si mesmos“, afirma Herfort.

As novas estruturas arquitetónicas erguidas na região refletem a procura de uma nova identidade. Estruturas futuristas e torres douradas transformam a paisagem urbana de Astana, na República do Cazaquistão, após o fim do domínio soviético.

Apesar dos países na região partilharem uma história em comum, o seu desenvolvimento no período pós-independência tem sido desigual, explica Kasia Ploskonka, uma historiadora de arte dedicada ao estudo da expressão artística na Ásia central, no período pós-soviético. Embora as nações se tenham formado no período da União Soviética, cada país precisava de promover a sua nova identidade. “Não se assistiu a uma supressão total da identidade e, subsequentemente, à sua reconstrução. Assistiu-se antes a uma espécie de esquecimento seletivo, privilegiando aquilo que as novas elites consideraram importante, numa tentativa de consolidar a posição de cada país na moldura internacional.”

No entanto, os projetos de construção da elite, como se pode ver nas fotografias de Herfort, parecem ignorar as verdadeiras necessidades da população, ao contrário da arquitetura funcional dos blocos habitacionais da era comunista. A presença humana nas fotografias é escassa. Alguns edifícios novos permanecem vazios.

Atualmente, as cidades da região privilegiam a arquitetura funcional e sistematizada dos edifícios, deixando para trás os dias de glória da construção pós-soviética, nas duas décadas que se seguiram ao colapso do regime comunista. Mas os vestígios do passado continuam presentes e o ciclo de substituição e exaltação do passado mantém-se.

Frank Herfort é um fotógrafo dedicado à fotografia documental, privilegiando a arquitetura, que se estabeleceu na Alemanha. Siga o seu perfil no Instagram.

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