As Montanhas Não Oferecem Consolo Nesta Moribunda Cidade Mineira Soviética

Muito tempo após o auge da exploração das minas, os mineiros lutam para ganhar a vida no Cáucaso.segunda-feira, 28 de maio de 2018

Por Lucia De Stefani
Fotografias Por Daro Sulakauri

A fotógrafa georgiana Daro Sulakauri levou cerca de 35 minutos para chegar às minas de minério de manganês, no coração da montanha. Equipada com um capacete de segurança, Daro entrou num vagão para fazer a viagem de 13 quilómetros, ao lado de mineiros que têm um dos trabalhos mais escondidos do mundo.

O túnel estreita, de repente, nalgumas curvas, o que torna a inclinação do veículo perigosa. Por vezes, há escuridão total. Mas foi a qualidade do ar dentro da mina — pesado, húmido e opressivo —, que mais surpreendeu Sulakauri. "Mantenha a calma e já se vai habituar a isto", tranquilizaram-na os experientes mineiros.

As minas estão localizadas em Chiatura, na Geórgia, lar da maior reserva de manganês nas montanhas do Cáucaso. Durante o período soviético, a extração de minério de manganês foi um negócio florescente. Quando o regime entrou em colapso, em 1991, ocorreu um acentuado declínio económico, o que teve um forte impacto no setor. Em 2016, havia mais de 3000 trabalhadores nas sete minas de Chiatura e nas oito pedreiras.

Além dos túneis e das minas espalhados pelas colinas, um sistema de teleférico enferrujado é outro marco. Este desatualizado sistema, também conhecido por a "estrada da corda", cobre os vastos desfiladeiros da cidade. Construído na era de Estaline, a rede transportou mineiros para cima e para baixo de e para as falésias. Hoje, o teleférico também transporta os locais, trabalhadores de fábricas e turistas. Construído em 1954, o sistema nunca foi renovado.

Se Sulakauri foi inicialmente atraída pela atmosfera surreal da cidade, o seu interesse mudou rapidamente para as condições de trabalho mais concretas que os mineiros enfrentam.

Os mineiros recebem um parco salário de cerca de 700 laris georgianas por mês (cerca de 255 euros), diz Sulakauri, e trabalham com pouca proteção contra acidentes que podem provocar lesões ou a morte.

Os sindicatos têm pouca força, as inspeções oficiais são, habitualmente, corrompidas e as greves produzem poucas melhorias.

Muitos dos mineiros vivem em casas aninhadas nas encostas da montanha. Para facilitar a escavação, são utilizados explosivos nos túneis. As ondas de choque danificam as fundações das casas. Como as fotos de Sulakauri documentam, abrem-se fendas nas paredes como se fossem painéis de papelão. Pisos e telhados  ficam enfraquecidos. "Para alimentar as famílias, eles escavam e provocam explosões sob as próprias casas, na busca do manganês", diz Sulakauri.

As mulheres também trabalham nas fábricas de lavagem e processamento do minério. Os edifícios de vários andares num planalto acima da cidade assemelham-se a uma cidade fantasma da era comunista. As condições básicas de segurança e saúde são ignoradas, o aquecimento e a eletricidade são raros e a água infiltra-se nas casas. "Há buracos gigantes no telhado, no chão, nas paredes" e “Chove dentro das casas”, são relatos de um artigo publicado em 2015 sobre relatórios da Open Democracy.  

No vale, a cidade está geralmente coberta por uma camada de poeira suja que flutua para baixo vinda das galerias abertas. "O pó é, por vezes, visível quando se anda na rua", diz Sulakauri. “[Mesmo] quando faz bom tempo, pode sentir-se o manganê... está por toda a cidade".

Com o projeto Black Gold (ouro preto) em andamento, as fotografias de Sulakauri ilustram toda esta realidade. A curiosidade da cidade envolta em nevoeiro é paralela à estranha realidade das paredes que desmoronam e dos mineiros amontoados em vagões enferrujados, criando uma sensação de abandono e negligência.

Em momentos mais alegres, vislumbramos a curiosidade e a esperança de uma adolescente tímida, ao enfrentar o observador no seu trajeto diário no teleférico, ou olhamos para duas irmãs que brincam numa plataforma de cimento com o vasto vale a bocejar diante delas.

O resultado é uma narrativa construída pelas histórias que mais sensibilizaram Sulakauri e a motivaram a divulgar as condições que estes mineiros e moradores locais suportam. "Realmente, impressiona lá entrar [nas minas] e ver como eles trabalham", diz ela. "Eu, realmente, sinto o dever de contar esta história porque ela está como que invisível".

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