Fotografia

As Fotografias que Acompanham os Refugiados Sírios

O fotógrafo Muhammed Muheisen documenta a bagagem mais preciosa dos refugiados sírios: retratos das suas vidas antes da guerra.quinta-feira, 7 de junho de 2018

Por Nina Strochlic
Fotografias Por Muhammed Muheisen
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No romance de Tim O’Brien sobre a Guerra do Vietname, The Things They Carried, os soldados levavam na bagagem, de partida para a guerra, cartas, bíblias e sabonete. Chegados da guerra, e segundo a coletânea de fotografias, Memories from Syria, de Muhammed Muheisen, os refugiados agarram-se às fotografias.

Nos campos de refugiados dispersos pela Grécia, Muheisen, diretor de fotografia da Associated Press para o Médio Oriente, pediu aos sírios que o deixassem ver as fotografias que os acompanharam na longa travessia de 1609 quilómetros, com destino à Europa. As fotografias estavam enfiadas nas carteiras e envolvidas em sacos de plástico. Havia pilhas de retratos e fotografias de rostos reduzidas ao tamanho da unha de um dedo da mão para salvaguarda. As fotografias eram lembranças de casamentos, férias familiares e de crianças, que habitavam, atualmente, pontos distintos da Europa.

Um pai, de 55 anos, de Aleppo, segurava a fotografia das suas duas filhas, uma das quais enterrada na Síria. “A forma como segurava a fotografia era como se tocasse na pele da filha“, afirma Muheisen. Outro refugiado de Aleppo, Rustum Abdulrahman, disse que reduziu a fotografia da mulher “ao mínimo possível para que não se estragasse e ele nunca a perdesse”.

Muheisen queria documentar os bens que os sírios tinham trazido das suas casas, mas eram escassos os itens tangíveis. “Quase todas as pessoas que conheci tinham consigo uma fotografia”, afirma. Antes de lhes pedir para ver as fotografias, Muheisen bebeu chá e ouviu as suas histórias. As fotografias ocupavam um lugar quase sagrado e vê-las trouxe à superfície risos e lágrimas de uma vida passada. “As fotografias são o único momento físico do passado que nos acompanha no presente.”

Para os sírios retidos nos campos de refugiados de Atenas, as opções são escassas. Eles suportaram o inverno gélido confinados a pequenos contentores, que lhes servem de abrigo, equipados com beliches e aquecedores elétricos, que derretem por via do uso excessivo.  Muitos aguardam por uma resposta ao pedido de asilo, impedidos de viajar na Europa ocidental, após o encerramento das fronteiras com a Grécia, em 2015. Não há muito com que ocupar o tempo, pelo que os habitantes dos campos passam os dias a falar com os vizinhos e, claro, a partilhar memórias.

Para Muheisen, que continua a fotografar a longa viagem dos refugiados, a história destas pessoas não termina num campo da Europa. “Estas pessoas não são apenas números ou sírios ou refugiados”, afirma. “Estas pessoas têm um nome e uma história. Tiveram uma casa em tempos. Tiveram uma vida. Hoje, são chamados apenas de migrantes.”

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