As Imagens dos Refugiados Resgatados no Mar Tempestuoso

Kevin McElvaney junta-se à SOS Méditerranée para fotografar o resgate de centenas de refugiados em alto mar, ao longo da traiçoeira rota do Mediterrâneo em direção à Europa.quinta-feira, 21 de junho de 2018

Por Delaney Chambers
Fotografias Por Kevin McElvaney

No ano passado, a viagem dos refugiados, que fugiam aos conflitos na África Ocidental e em zonas do Médio Oriente, tornou-se ainda mais arriscada. Mais de 5000 refugiados morreram ao tentar atravessar o Mediterrâneo.

Após a aplicação de duras medidas na Turquia, a rota batida do Egeu entre aquele país e a Grécia deixou de ser uma opção viável para muitos refugiados. Em alternativa, os portos líbios, dominados pelo contrabando, tornaram-se no principal centro de convergência de refugiados. Mas o risco de morrer na travessia desta rota alternativa ao longo do Mediterrâneo é 10 vezes superior. Os refugiados viajam a par de pessoas traficadas, capturadas por contrabandistas e forçadas a fazer a travessia, em embarcações pequenas e sobrelotadas, impróprias para uma longa travessia em mar aberto.

A fuga de refugiados atinge um recorde de 63 milhões de pessoas deslocadas à escala global.

Hoje, a esperança para os refugiados surge na forma de um antigo navio, com 40 anos ao serviço das operações de fiscalização das pescas, o MS Aquarius. Operado em conjunto pela SOS Méditerranée e pelos Médicos Sem Fronteiras, o navio e a sua tripulação vasculham o Mediterrâneo na esperança de localizar refugiados, que, de outro modo, teriam poucas hipóteses de sobrevivência.

O navio parte em missão no mínimo uma vez por semana, resgatando até cerca de 600 pessoas em cada operação. O fotógrafo alemão Kevin McElvaney segue a bordo do Aquarius numa expedição de três semanas. Por altura da publicação do seu trabalho, McElvaney preparava-se para embarcar na terceira missão de salvamento.

McElvaney sentiu-se impelido a embarcar no navio, após ver o resultado final de um projeto que designou de #RefugeeCameras. Enquanto documentava a fuga de centenas de pessoas pela rota do Egeu, McElvaney distribuiu máquinas fotográficas descartáveis pelos refugiados, para que documentassem a viagem pelo seu próprio punho. McElvaney expôs essas fotografias e enviou as receitas para a SOS Méditerranée, uma organização sem fins lucrativos gerida, em parte, por voluntários, com um custo operacional de 11 000 euros por dia.

Cada missão tem os seus próprios desafios. A primeira teve lugar durante a noite, num mar tempestuoso. Na segunda missão, o Aquarius retirou 607 refugiados de uma pequena embarcação de madeira e trouxe-os a todos de uma só vez. Complicações com um navio da Marinha Britânica, que colaborava na ação de salvamento, atrasaram a operação, que se arrastou por 14 horas.

McElvaney esforçou-se para registar em fotografia a fluidez da cena e adaptar-se às condições, que estavam longe de ser as ideais para se fazer fotografia.

“Não há forma de nos preparmos para uma situação desta natureza”, diz McElvaney. “É preciso ter experiência, ser intuitivo e ter sorte.”

Quando é localizado um barco em perigo ou transmitido um pedido de auxílio via rádio, o Centro de Coordenação de Operações de Salvamento Marítimo de Itália lança um alerta na zona, para que seja prestado auxílio à embarcação. Por vezes, são os próprios refugiados que telefonam para o Centro de Coordenação de Operações de Salvamento Marítimo de Itália, quando navegam em águas líbias.

Quando a tripulação do Aquarius localiza uma embarcação com refugiados, mobiliza uma equipa da Médicos Sem Fronteiras, na qual se inclui um tradutor, que segue a bordo de um bote semi-rígido insuflável, para avaliar, numa primeira abordagem, se há algum refugiado que necessite de cuidados medicos, bem como para distribuir coletes salva-vidas.

“O navio principal mantém-se fora do alcance da visão, para evitar que os refugiados saltem borda fora”, afirma McElvaney. Os coletes salva-vidas protegem-nos, caso decidam lançar-se ao mar.

Uma vez avaliada a situação, uma embarcação de borracha ligeiramente maior, preparada para operações de salvamento, transporta os refugiados para o navio principal, em grupos de 18 a 20 pessoas de cada vez, começando pelas mulheres e crianças.

Embora a missão seja humanitária, as reações às fotografias de McElvaney foram contraditórias.

“Eu compreendo que algumas pessoas na Europa e noutras regiões sintam alguma apreensão”, afirma McElvaney a propósito dos comentários negativos. “Mas não posso evitar uma certa tristeza por não verem a situação de uma perspetiva mais alargada.”

Estar frente a frente com migrantes que fogem de situações de desespero, afirma Mcelvaney, abriu-lhe os olhos para a sua condição precária.

“Tenho um novo entendimento sobre aquilo que significa ser refugiado”, afirma. “Estas pessoas já passaram por tanto, e muitos tiveram de decidir entre a morte ou a fuga para a Europa. Sem caminho de retorno.”

Segundo McElvaney, o problema principal com a rota está na Líbia.

“Os portos da Líbia são explorados por milícias de contrabandistas”, afirma. “Eles têm um desprezo absoluto pela vida das pessoas.”

Um refugiado contou a McElvaney como o indivíduo, que o traficou, alvejou e matou um homem que integrava o seu grupo. O refugiado decidiu subir a bordo do barco para não ter o mesmo destino.

McElvaney ficou sensibilizado não apenas pelas suas histórias de sofrimento e horror, mas também pelos seus gestos de gratidão.

“Foram sempre pequenos momentos, surgidos do nada, aqueles que mais me tocaram”, afirma. “Após o meu primeiro salvamento, eu estava de vigia e conheci um refugiado da Costa do Marfim, no convés superior. Olhámos ambos para sul, em direção à Líbia, e ele disse : “Líbia… Mau… Obrigado! Merci!” Não foi preciso dizer-me mais nada. Senti-lhe uma necessidade profunda de dizer simplesmente “Obrigado!”

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