A Infância Arrancada às Jovens Noivas da Índia

O casamento de crianças está em declínio, mas, nas zonas empobrecidas, as raparigas continuam a ser vítimas desta prática.quarta-feira, 20 de junho de 2018

Por Nina Strochlic
Fotografias Por Saumya Khandelwal

Curcuma de um amarelo intenso tinge as mãos e os rostos, uma linha de pigmento vermelho-escarlate estende-se pela risca do cabelo. Os odores e as cores são os primeiros sinais de que um casamento está prestes a celebrar-se ou acabou de ser celebrado. As raparigas que participam na celebração são demasiado jovens para compreender o casamento, mas têm idade suficiente para entender o significado das especiarias aplicadas solenemente nos seus corpos.

Saumya Khandelwal, de 27 anos, fotógrafa da agência Reuters estabelecida em Nova Deli, ouviu o testemunho de raparigas, que não partilham da sua sorte.

Khandelwal nasceu em Lucknow, uma cidade situada no mesmo estado, mas num mundo à parte da província de Shravasti. Durante o crescimento, Khandelwal e as amigas aperceberam-se de que o casamento de raparigas abaixo da idade legal era uma realidade na Índia, e que, por sorte, não era essa nem a sua realidade, nem a das raparigas que conheciam. Mas a 190 quilómetros de distância, ao longo da fronteira empobrecida do Nepal, raparigas com idades tão precoces como 8 anos são oferecidas em casamento pelas respetivas famílias.

Em 2015, Khandelwal começou a viajar entre Nova Deli e o estado de Uttar Pradesh, a sua terra natal, onde se situa o Taj Mahal, para fotografar estas jovens noivas. “Se tivesse nascido em Shravasti, eu poderia ser uma destas raparigas”, afirma Khandelwal.

Tecnicamente, o casamento de crianças é ilegal na Índia. Em 1929, foi aprovada uma lei que proibia esta prática, tendo sido revista e atualizada em 2006. Atualmente, a idade mínima das mulheres para se casarem é de 18 anos, contra os 21 anos dos homens. Os pais ou antigos cônjuges podem ser punidos até dois anos de prisão, por acordar ou permitir compromissos que ignorem estas restrições.

Apesar da queda na percentagem de casamentos de crianças registada na última década, existem mais noivas menores na Índia do que em qualquer outro país do mundo. Segundo a organização Girls Not Brides, mais de um quarto das raparigas indianas casam-se antes de completarem os 18 anos de idade.

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Quando decidiu fotografar estas raparigas, Khandelwal pensava que a decisão familiar de as casar era ditada pela tradição e pela patriarquia, mas, contrariamente ao que pensava, Khandelwal descobriu que esta prática estava enraizada na pobreza, na falta de escolaridade e na volatilidade da vida.

Em Shravasti, Khandelwal perguntou à mãe de uma jovem noiva, que também tinha sido forçada a casar ainda em criança, por que sujeitava a filha ao mesmo destino. A mãe respondeu que preferiria não ter de o fazer, mas não tinha grandes opções. O marido era operário e ela e os filhos juntavam lenha para vender. Eles viviam um dia de cada vez, pelo que era melhor casar as filhas antes que forças exteriores interviessem. “Se, amanhã, uma inundação destruir a nossa casa, não teremos nada para dar de dote de casamento das nossas filhas”, disse.

Khandelwal descobriu que muitas famílias viam as suas filhas como uma espécie de dívida. Ela conheceu Muskaan, uma rapariga vivaça cujo nome foi alterado para proteger a sua identidade, e as suas duas irmãs, e visitou-as em inúmeras ocasiões. “Ter três raparigas significa ter três vezes mais despesas e três dotes para pagar”, afirma Khandelwal. Algumas famílias esperam que as filhas comecem a viver com os respetivos maridos para as retirar da escola, mas, quando Muskaan se casou aos 14 anos, o seu pai interrompeu, de imediato, a sua escolaridade. Desde então, Muskaan permanece fechada em casa, dedicada à cozinha e às tarefas domésticas.

Pouco tempo depois do casamento, Khandelwal visitou Muskaan para saber como se sentia. “Aquilo que me disse foi, particularmente, triste”, recorda Khandelwal. “Muskaan respondeu-me, em tom de pergunta, o que havia para sentir. Disse-me que, mais dia, menos dia, aquilo tinha de acontecer. Isto diz-nos o quão indefesas e sem esperança estas raparigas estão. Elas nem sequer sabem que as mulheres podem ter uma carreira.”

Como não há trabalho nas pequenas aldeias, os homens partem, frequentemente, à procura da sorte num país imenso. Muitas das raparigas ficam sozinhas, após o casamento. Elas mudam-se para casa dos sogros e os recém-casados mantêm o contacto por telefone.

“Como é que se espera que uma adolescente de 15 anos saiba o que é um casamento ou uma relação e saiba gerir uma casa?”, pergunta Khandelwal. “Elas não tiveram instrução e isso repercute-se nos próprios filhos. Elas já não têm dinheiro e são demasiado novas para serem mães. É um círculo vicioso. Conseguirão algum dia quebrar a corrente?”

Após dois anos e meio passados a fotografar as jovens noivas de Shravasti, Khandelwal apercebeu-se de que esta realidade é transversal a toda a Índia, até mesmo em Nova Deli. Khandelwal tenciona dirigir a lente da sua objetiva para estas comunidades, para denunciar uma prática que, apesar de ilegal e em declínio, ainda subsiste à margem da lei.

Saumya Khandelwal é uma fotógrafa estabelecida na Índia. Saiba mais sobre o seu trabalho no seu website e no perfil de Instagram.

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